Como fazer um poema I José António Lozano Garcia
O homem é por natureza um animal político porque apenas o homem,
dentre os animais, possui o lógos e por isso pode distinguir o justo do injusto.
(Aristóteles, Política, Cap 2)
Como fazer um poema
Em Gaza estão a cometer um genocídio
E agora também no Líbano
Mas continua a haver aulas de ética
Ninguém se inquieta
Só um pouco
ou bastante
pela economia
Em Irão atacam e matam
com pretextos
e sem pretextos
ou simplesmente porque sim.
Um grupo de loucos e psicopatas
governa o mundo.
Mas devemos ser respeitosos!
O Sionismo é Antisemitismo
E o silêncio dos cordeiros continua.
Os pobres e os dignos não têm razão.
Só os que matam são razoáveis.
Mas continua a dar aulas de filosofia
e não fales dos Direitos Humanos
Nem sequer fales de humanos
Fala do tempo: isso não te compromete
Ainda que depende!
As cousas são mais complexas, dizem.
Mas a verdade é muito simples:
Mantém a cegueira.
Não te metas em política!
Mente e mente e mente.
e chama-lhe A Verdade.
Odeia ao teu inimigo
mas chama-te cristão.
Converte seres humanos em bichos
e fala de liberdade
e valores ocidentais
Não fales desde o coração:
isso não é apropriado.
A consciência é metafísica
Não é “objectiva”
Só as cousas e o petróleo são objectivos
Não sejas um ser humano
Estás obsoleto
Cala, por favor
– Vamos tratar o último ponto
da ordem do dia:
– Rogos e perguntas
– Alguma questão?
– Quais são os problemas da educação?
– É uma pergunta mui genérica.
Precise, por favor.
…
E assim, meu amigo, se escreve um poema.
José António Lozano Garcia, nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário na Galiza. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney. Em 1995 publicou em edição não-venal poesia no volume colectivo 7 poetas. Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico. E Foi finalista no ano 2021 do Prémio internacional de poesia Glória de Sant’Anna com o poemário Obscura Anatólia. Tem estudado o filósofo portuense José Marinho, com várias publicações sobre o seu pensamento. Acaba de publicar o seu mais recente livro “Para que serve a filosofia e outros poemas“.











