O acanhamento asfixia
portanto, despe-te
põe-te nua
ninguém te vai penetrar a cabeça com ideias sujas
há nódoas que são condecorações, acredita
sinais na pele que algum deus marcou
deixando uma pista.
*
QUANDO A MÃE SE ABEIROU DA COVA
Quando a mãe se abeirou da cova
o corpo inerte pediu-lhe colo
numa língua que só as mães podem escutar
e a mulher mergulhou no sangue do seu sangue
coalhado
e que ainda assim continua a correr-lhes nas veias
como um membro amputado que mantém a presença
num formigueiro inexistente
e no momento em que tornaram a cortar-lhe o cordão
umbilical
não se ouviu o grito de choro da cria
apenas os guinchos que explodiam da garganta dilacerada
da mãe
o horror
mantendo a boca aberta sem emitir som
cobriu com o seu corpo vivo o outro que jazia
deixando escorrer a baba que lhe escapava sem intenção
o dique descontrolado de fluídos
nessa selvageria de máquinas aplicada ao corpo
o corpo que obedecia a ordens continuando a manter
funções
quando deveria ser esmagado
†
a mãe viu o pedaço de vidro ao lado do morto
um destroço da explosão deixado em divina
correspondência
pegou na lâmina e cravou-a no pescoço
esguichou-se por inteiro até ao esvaziamento
a poça vermelha abarcou a família
e toda a descendência
Na guerra só há razão. A barbárie alimenta-se de crânios.
Como se fosse possível
não te poder contar
o escândalo da tua morte.
*
Perder um amigo,
um par de sapatos.
Sobre a lava,
a lama e o gelo.
Avançar no caminho
com os pés descalços.
*
Um dia sem escrever é um dia perdido,
assisto ao mar sem o rumorejar
que traz a infância e o pão com manteiga
como um prémio esquecido que não recebemos.
Assim.
Volto à caneta perra sobre as ondas desta toalha.
Interrompo para um chichi no Universo.
Esvazio-me até à extinção desta mágoa.
Pedras nos não-bolsos do fato-de-banho,
é por dentro, nos órgãos,
onde nasce a tinta que alimenta o meu dia.
Um dia e outro. E mais os que vierem.
Se vierem. Assim. Pão para a boca.
*
Eu fingia dormir com um olho fechado
e o outro aberto debaixo da asa do nariz.
«Já viste como ela é bonita quando dorme?»
Acordada nunca me caíam elogios destes no prato.
Fui então obrigada a confiar noutras qualidades
— jeito natural para fazer rir,
dom da invisibilidade durante um ataque alheio,
aceitar estoicamente estaladas e insultos
como uma campeã olímpica.
Eu fingia dormir porque a minha solidão acompanhada,
com um olho aberto, outro fechado,
permitia-me ser bonita às escondidas
sem poder dizer que eu não sabia.
Melhor do que nada.
*
Por demasiado tempo,
ignoramos que a vida
é um circo bizarro
com números imprevisíveis
e risco de morte.
Ignoramos que a única salvação
para a queda do trapezista
é a delicada rede
da afeição.
*
Não há casas perfeitas.
Não há amores perfeitos.
Não há pais nem filhos perfeitos.
Não há nada perfeito, cousa ou pessoa.
Que chatice sabê-lo tão perfeitamente.
Que perfeição.
*
A desimportância do falo
explicada a cavalheiros
Sobrevalorizado no gozo sempre foi o falo.
Um homem que domine bem a língua,
em ambos os sentidos,
precisa pouco de se preocupar com a eficácia
ou a beleza do seu falo.
As damas,
e os cavalheiros que também apreciem,
conquistam-se pelo uso da boca.
Digamos que o falo diverte mas não conduz ao êxtase.
Nisto não se fala, por pudor
ou por medo de amedrontar o ceptro
sobre o qual sempre se julgou girar o mundo.
O falo é belo, sim senhores —
alguns, outros são medonhos,
estilo cobra cega —.
Só não julguem como obra de arte
a exposição de artesanato, cavalheiros.
O mastro não faz a caravela que descobre mundos,
e a bandeira hasteada está longe de ser um país.
*
Secretária da tradição
Gosto de escrever a partir do alfabeto,
usando o A, o B, o C,
e todas as letras que me apetecer
sem pensar se é um poema,
um romance ou uma canção.
Não esperem nunca que me sente
à secretária da tradição.
Cláudia Lucas Chéu (1978). Escritora, poeta e dramaturga. Cronista do jornal Expresso e contista no jornal Público. Professora na Universidade de Évora. Tem publicados os textos para teatro Glória ou Como Penélope Morreu de Tédio (2011) e Violência — Fetiche do Homem Bom (2013), nas edições Bicho-do-Mato/Teatro Nacional D. Maria II, A Cabeça Muda(2014), na Cama de Gato edições, e Veneno (2015, Coleção Curtas da Nova Dramaturgia – Memória), nas edições Guilhotina. Em prosa poética, publicou o livro Nojo (2014), na (não) edições, e em poesia, o livro Trespasse (2014), nas Edições Guilhotina, e Pornographia(2016), na Editora Labirinto. Em 2017, foi publicado o seu livro Ratazanas (poesia) pela Selo Demónio Negro, em São Paulo (Brasil). Em 2018, publicou o seu primeiro romance, Aqueles Que Vão Morrer, na Editora Labirinto, e Beber Pela Garrafa (poesia), na Companhia das Ilhas. Seguiram-se A Mulher-Bala e Outros Contos, Editora Labirinto (2019), Confissão (poesia), Companhia das Ilhas (2020), A Mulher Sapiens (contos e ensaios), Jornal Público e Companhia das Ilhas, 2021, A Vida Mentirosa das Crianças, Nova Mymosa, (2021), Ode Triumphal à Cona (poesia), Companhia das Ilhas (2022), e Orlando – Tratado sobre a Dignidade Humana (dramaturgia), Teatro Nacional D. Maria II (2022). Em 2023, publicou A Angústia da Rapariga Antes da Faca (ensaio), pela Nova Mymosa, e em 2024, Um Quarto Com Vista Sobre o Meu Quarto (crónicas e contos), pela Companhia das Ilhas e jornal Público. Escrevo por Vingança à Morte (poesia), Companhia das Ilhas (Portugal) e Cobalto Livros (Brasil), em 2025. Acaba de lançar Malparidos e Fazer festas entre as grades, Companhia das Ilhas, em Portugal, o livro de poesia Uma Coca-Cola no Inferno, Cobalto Livros, no Brasil. O livro Confissão foi semifinalista do Prémio Oceanos em 2021. Orlando – Tratado sobre a Dignidade Humana faz parte do Plano Nacional de Leitura. Foi a vencedora da residência literária Camões — Maputo (2023).





