“Vermelho Pitanga” de Everardo Norões: uma cartografia afectiva contra o esquecimento
Everardo Norões escreve como quem sabe que o essencial raramente ocupa o centro da cena. Pode estar num gesto entrevisto, numa hesitação, numa peça de roupa, numa fruta, numa frase escutada ao acaso. É dessa matéria aparentemente menor que a sua escrita extrai muitas vezes aquilo que mais profundamente permanece. Em Vermelho Pitanga (The Poets Society, 2026), o seu primeiro romance, essa atenção ganha uma forma mais extensa, atravessada por geografias, vozes e tempos diferentes, sem perder a concentração e a inteligência que já reconhecíamos no contista.
Quem conhece a sua obra, incluindo a sua poesia, reencontrará essa capacidade de tocar o acontecimento pelo flanco. Everardo raramente coloca a revelação no centro da página. Prefere deixá-la aparecer através de um silêncio, de uma conversa interrompida, de uma memória que regressa quando já parecia esquecida. Há na sua escrita uma espécie de ciência da brevidade que o romance preserva: as secções possuem atmosfera própria, ritmo interno e desenlaces que raramente coincidem com uma verdadeira resolução. Vermelho Pitanga cresce a partir dessa lógica. Encontros, recordações, partidas e pequenas situações vão-se depositando umas sobre as outras até comporem uma cartografia de vidas em trânsito, marcadas pelo desejo, pela precariedade, pela idade, pelo trabalho e por aquilo que o tempo insiste em não apagar.
A passagem ao romance permite a Everardo ampliar a escala. Pequenos apartamentos, corredores de prédios, salas de aula, bares, supermercados e praias urbanas formam uma geografia onde o íntimo e o social se encontram continuamente. A cidade deixa de ser simples cenário. Tem calor, ruído, desgaste, lugares de passagem e lugares onde parece ter-se esperado demasiado tempo. As personagens atravessam-na e, por sua vez, são atravessadas por ela. Professores, estudantes, vizinhos, amigos, empregados e figuras ocasionais entram e saem do campo narrativo trazendo consigo histórias que nunca parecem existir apenas para sustentar a de outra personagem. Mesmo uma presença breve guarda uma reserva de passado, desejo ou perda. É dessa matéria dispersa que o romance adquire toda a sua beleza.
Entre essas vidas, Marcelo ganha um relevo particular. Professor universitário, dividido entre a rotina institucional e uma vida mental permanentemente atravessada pela literatura, surge desde cedo sob o signo do desassossego. A frase de Flaubert que acompanha a sua entrada — “Le seul moyen de supporter l’existence, c’est de s’étourdir dans la littérature comme dans une orgie perpétuelle” — (O único meio de suportar e existência é o embriagar-se na literatura como numa orgia perpétua) oferece mais do que uma referência culta. A literatura aparece como abrigo, embriaguez e maneira de pensar aquilo que a vida deixa por resolver. Marcelo lê, ensina, recomenda, escreve cartas, mobiliza contactos. Cuida, em certa medida, da literatura dos outros, enquanto procura nela uma gramática para o desejo e para a perda. Os livros tornam-se também uma mediação entre ele e aquilo que vive.
É nesse território que Marianne ganha importância. A relação entre professor e aluna continha matéria suficiente para uma dramaturgia previsível — a diferença de idades, a paixão tardia, a instituição, o interdito. Everardo interessa-se sobretudo pela hesitação. A intensidade instala-se na espera, no gesto interrompido, naquilo que poderia acontecer e cuja possibilidade talvez seja mais importante do que a realização. O romance encontra uma formulação particularmente feliz quando fala do “encontro possível”. Há nessas duas palavras uma medida afectiva e ética: aquilo que duas pessoas podem chegar a ser uma para a outra dentro das circunstâncias concretas das suas vidas. Marianne é também uma figura de movimento. Parte, muda de país, candidata-se a uma bolsa, imagina um futuro. “Ela quer voar”, lê-se numa das secções. Para ela, o mundo conserva a promessa de outros itinerários; Marcelo contempla esse movimento a partir de uma relação diferente com o tempo, em que cada partida torna mais visível aquilo que ficou por cumprir. Dessa assimetria nasce uma melancolia que o humor de Everardo impede de se tornar solene. Há uma ironia discreta nos rituais universitários, nas cartas de recomendação, nas bolsas, reuniões, contactos e formalidades administrativas. A universidade aparece como lugar de transmissão e de encontro, mas também como uma máquina capaz de converter relações humanas em processos, horários, requerimentos e despedidas.
No centro de Vermelho Pitanga permanece, afinal, uma pergunta antiga e difícil: o que pode a literatura diante da passagem do tempo? O livro responde-lhe pela própria matéria de que é feito: recolher vestígios, retardar certos desaparecimentos, devolver espessura ao que parecia destinado a passar despercebido.
Essa ausência de garantias percorre todo o romance. As relações alteram-se por distância, desgaste e passagem do tempo. Ficam números de telefone, objectos, frases, promessas sem continuidade, imagens que reaparecem quando já perderam qualquer utilidade imediata. A vida, em Vermelho Pitanga, raramente fecha aquilo que abriu.
É precisamente nessa contenção que a escrita de Everardo encontra uma das suas forças. A emoção transfere-se muitas vezes para o mundo material. Uma temperatura, uma música, uma cor, um objecto aparentemente insignificante podem dizer aquilo que uma personagem dificilmente formularia. O próprio título pertence a esse universo sensorial. A pitanga convoca cor, corpo, sabor, memória. Em Everardo, as coisas guardam vestígios. Entre essas matérias, o calor adquire progressivamente uma espessura física e histórica. Depois de atravessarmos o romance, dificilmente pode ser lido apenas como atmosfera. Torna-se desgaste, repetição, peso sobre os corpos e sobre a própria memória.
É também por essa via que a dimensão política de Vermelho Pitanga encontra toda a sua potência: não precisa de se organizar como tese. Está nas diferenças sociais, nas deslocações, nos resíduos da história, na burocratização do conhecimento, nas relações entre geografias e na vulnerabilidade dos corpos perante as instituições. Everardo preserva a opacidade das personagens; as ideias passam por elas sem as transformar em demonstrações.
Conheço Everardo há tempo suficiente para reconhecer neste livro algumas inquietações que atravessam a sua obra: as deslocações, a história observada através dos seus resíduos, o convívio entre erudição e oralidade, a atenção às vidas que permanecem nas margens, o humor que chega antes da autocomiseração. Essa proximidade exige-me uma cautela particular enquanto leitor. Interessa-me sobretudo aquilo que o livro consegue fazer para além do autor que conheço, quando as personagens conquistam autonomia e começam a produzir as suas próprias zonas de sombra.
É também aí que a dimensão política de Vermelho Pitanga encontra toda a sua potência. Está nas diferenças sociais, nas deslocações, nos resíduos da história, na burocratização do conhecimento, nas relações entre geografias e na vulnerabilidade dos corpos perante as instituições.
Nesse movimento, Vermelho Pitanga afirma-se plenamente como romance. Por caminhos muito distintos, a sua construção pode, a meu ver, fazer pensar em certa escrita de Paloma Vidal; menos pela centralidade da intriga do que pela sedimentação de deslocamentos, cidades, línguas e afectos. Em Everardo, porém, essa matéria encontra uma oralidade, um humor e uma atenção ao detalhe social que lhe conferem uma temperatura própria. Ele não abandona o conto, a poesia, a memória ou o ensaio para entrar numa forma nova. Leva consigo essas experiências e coloca-as sob outra duração. O romance permite-lhe acolher aquilo que a brevidade apenas deixava entrever: o regresso das personagens, a sedimentação do tempo, a forma como uma vida continua a reverberar noutra. Talvez uma das qualidades deste primeiro romance esteja justamente na pouca necessidade de demonstrar que estamos perante um romance. Everardo confia naquilo que já sabe fazer: escutar uma voz, interromper uma cena no momento certo, reconhecer num detalhe aparentemente trivial uma história maior.
Porque no centro de Vermelho Pitanga permanece, afinal, uma pergunta antiga e difícil: o que pode a literatura diante da passagem do tempo? O livro responde-lhe pela própria matéria de que é feito: recolher vestígios, retardar certos desaparecimentos, devolver espessura ao que parecia destinado a passar despercebido.












