Eu devia ter percebido que “K Pop” era um eufemismo para drogas.
Ouvi a canção dezenas de vezes, esforçando-me por intuir o significado de “k pop” em “K Pop”, e acabei por chegar à ideia de que o “K pop” em “K Pop” era simplesmente K pop, embora nenhuma das letras seja realmente sobre K pop.
Há apenas uma menção à Coreia na letra, e não é sobre música pop.
Ainda assim, continuei a pensar, o K pop faz-te sentir bem, e parece que Travis Scott, Bad Bunny e Abel Tesfaye se sentem bastante bem em “K Pop”.
Mas depois fui procurar e, claro, “K pop” é uma gíria para drogas, e a droga é ketamina.
O facto de eu não ter associado “K-Pop” à ketamina mais cedo faz-me sentir profundamente nada cool. Empalideci perante a fragilidade do meu intelecto, deixei coser essa sensação durante algum tempo, e depois deixou de me importar.
No dia em que a Alli e eu nos mudámos para El Cerrito, desloquei o ombro.
Passámos o dia inteiro a desfazer caixas e depois vimos os Warriors vencer os Thunder num jogo seis de tudo ou nada.
Depois do jogo, quis fazer mais algum progresso a desfazer caixas de livros no quartinho lá em cima.
Ao descer de meias as escadas alcatifadas, com uma caixa de livros para levar à Moe’s, a menos que a livraria não os quisesse, o caso é que iriam para o grande contentor do Centro de Reciclagem de El Cerrito, em torno do qual rondam homens esfomeados, homens a quem chamamos “gaivotas” pela agressividade e pela propensão para nos arrancarem os livros das mãos antes de estes chegarem ao contentor, escorreguei, estendi os braços para amparar o meu corpo grande na queda e comecei a sentir a dor que mais tarde perceberia ser a sensação do osso do braço a saltar para fora da cavidade onde encaixava.
A Alli levou-me de carro às urgências em Richmond, onde um médico tentou empurrar o osso do braço de volta para a cavidade durante um par de horas.
O médico também se chamava Brandon.
Quando Brandon desistiu, explicou-me que me iam dar uma dose forte de ketamina intravenosa.
Isso distrair-me-ia o suficiente para que ele pudesse voltar a encaixar à força o osso do braço na cavidade em forma de taça.
A ketamina inundaria a minha vida de sensações Travis Scott, Bad Bunny e The Weeknd.
Mesmo que eu desse pela dor de ele voltar a entrar com um estalo, não me importaria.
Perguntou-me “alguma vez ouviste falar do k-hole?”
O John contou-me uma vez que deu uma snifada de ketamina numa festa e entrou no k-hole.
Para o John, nessa noite, o k-hole significou ficar estendido no passeio da Haight Street, ao lado de pequenos enxames de bêbedos a zumbirem em volta dos bares, ignorando tacitamente o seu corpo grande esticado no k-hole, sacudindo cinza para cima das calças de ganga.
O Brandon tranquilizou-me “é agradável, é como estar na praia em Maui, pensa em coisas boas”.
Quando saiu da sala, a enfermeira aproximou-se para me preparar para a injecção e disse, em voz baixa, “não é como estar na praia em Maui”.
Ora, a praia em Maui é onde poderias encontrar Travis Scott, Bad Bunny e The Weeknd.
Agora, com o que sei sobre a importância do contexto e do estado mental, é óbvio porque fui parar ao k-hole.
Onde se quer estar é à beira da piscina, a ver a árvore-de-júpiter florir e ondular no seu campo de força planetário, enquanto o sol sobe pelo céu como uma lancha cheia de Moët.
Suponho que deva dizer “presumo que não fosse como estar na praia em Maui”, visto que tecnicamente nunca lá estive.
Estive na praia em Kauai, e uma vez sob medicação muito forte, e isso foi bastante agradável, o oposto de um ombro deslocado.
Quando entrei no k-hole, também não foi muito agradável.
Fiquei preenchido pela consciência de que tinha morrido, de que estava morto.
A morte parecia pálida, plana, administrativa, o meu corpo esquadrado diante de uma esfera imensa e em branco.
Era pacífica, num certo sentido, como sonhar acordado na traseira de uma mota a caminho de Maya com Bad Bunny.
Mas não havia prazer nenhum em estar morto.
Havia apenas um som de sucção, um vácuo envolvente de ruído branco, como a penugem mecânica que a Earlie ouve a noite inteira como funda para o sono.
À medida que o efeito da droga se dissipava e o quarto de hospital voltava a ganhar foco, vi a Alli e desesperei, presumindo que ela também estivesse morta.
Mais tarde senti que nunca mais voltaria a experimentar ketamina, não queria voltar a entrar no k-hole, mas sei lá.
É impossível saber como as coisas acabam.
“K-Pop” é essencialmente um veículo para três cantores nos informarem de que estão a visitar lugares gloriosos pelo mundo, predominantemente ilhas, que estão cheios de ketamina, e que tu estás prestes a ter sexo com eles ou talvez acabes de o ter.
Na verdade, porém, se prestares atenção, percebes que nem tudo é glorioso, nem simplesmente bom, não como K-pop.
Abel Tesfaye entra na canção a cantar “mix the drugs with the pain”, algures entre a exortação e a ordem.
Também canta, “We gon’ fuck til we’re seasick”, que nojo.
Nunca he chingar en un barco.
Casi nunca he estado en un barco.
Cuando fui a las islas griegas hace veinte años, tomé el barco lento o el ferry rápido, ninguno de los dos tan sexy, especialmente el ferry rápido con todos los vómitos.
En el “k-hole” sexo era lo más alejado de mi mente, muerto allí, colgado de la esfera.
Pero no confíes en mí, ¿qué sé yo?
Creo que le enviaré un mensaje de texto a Shiv y le preguntaré.
Un momento.
Nota
Tradução para português de Tiago Alves Costa, realizada a partir de uma seleção de poemas de Top 40 (Another Volume), próximo livro de Brandon Brown, a publicar pela Roof Books em 2026.
Sobre o autor
Brandon Brown é autor de vários livros, entre os quais, mais recentemente, Work (Atelos) e The Four Seasons (Wonder). Em 2024, a Free Poetry publicou a sua tradução das obras conservadas do trovador Raimbaut d’Aurenga, Joy Is My Hotel. Em 2026, a Roof Books publicará um novo livro, Top 40 (Another Volume). Os seus textos sobre arte e cultura foram publicados em Art in America, Frieze, The Believer, Fanzine, entre outros meios. Recebeu o Beauchamp Prize for Critical Art Writing e uma bolsa de poesia da National Endowment for the Arts. É co-editor da Krupskaya Books e publica o zine Panda’s Friend. Vive em Richmond, Califórnia.





