Xavi e eu caminhávamos pelo aeroporto de Copenhaga. Íamos apanhar o avião de regresso a São Francisco, mas havia qualquer coisa que não estava bem. Estava a ter dificuldade em levantar o pé. Conseguia andar, mas levantar o pé começava a tornar-se um problema, como se o pé inteiro estivesse colado ao chão. Não apenas o calcanhar, não apenas a planta. Tornava-se cada vez mais difícil levantar o pé e depois mantê-lo no ar. Mas, quando estava no ar, porque estava ele ali?
Era o meu pé direito. Um AVC do lado direito está associado a problemas sensoriais, informei-me a mim próprio. Estaria eu a ter um problema sensorial? Seria diferente de um episódio neurológico? Isto está a acontecer, continuei. Reconheci-o: o meu episódio neurológico. O meu episódio, meu. O que vai acontecer a seguir? Teria de explicar ao Xavi que não íamos para São Francisco, mas para algum serviço médico do aeroporto e, provavelmente, de volta a Copenhaga numa ambulância — graças a Deus pela medicina socializada.
Nem sempre é claro para nenhum de nós por que razão estamos juntos, mas sinto-me grato por, numa emergência, poder chorar encostado ao seu peito largo. A maior diferença entre nós não é a idade, nem a classe, nem a cultura, embora sejam diferenças consideráveis. Nem sequer as línguas diferentes. É o facto de Xavi ter tido uma infância sem grandes problemas, que lhe deixou como configuração de origem uma expectativa feliz perante o que há-de vir, uma disposição que não se parece minimamente com a minha. Estou a representar uma dinâmica já muito gasta da nossa relação: prever a catástrofe.
Estou a descrever um problema no aeroporto de Copenhaga que talvez tenha durado vinte minutos, até que finalmente ouvi um som semelhante ao estalo de um beijo alarmante da minha tia-avó Honny. Era o som que a substância colada à sola do meu sapato começava a fazer ao separar-se do chão: smack!
Sentámo-nos num café, Xavi foi buscar-nos cafés e eu tirei o sapato para ver o que se passava. Francamente, em minha defesa, acho que, estatisticamente, um AVC é mais provável do que uma espécie de cola roxa e borrachosa a cobrir por inteiro a sola do meu sapato. Não consegui perceber o que era: não era comida, não era nenhum composto usado na construção. Curiosamente, dissolvia-se muito facilmente em água e saiu sem dificuldade com guardanapos de papel.
O meu reconhecível episódio neurológico não me aconteceu naquele dia no aeroporto de Copenhaga, mas foi apenas estatisticamente adiado — a menos que, entretanto, um piano me caia em cima.
Um piano em queda matou um certo senhor Keys em 1955. Outros pianos em queda mataram pessoas em 1887, 1905, 1912, 1931, 1983 e 2014.
Robert Glück (São Francisco) é poeta, ficcionista, crítico e editor. É autor das colecções de contos Elements e Denny Smith, dos romances Jack the Modernist, Margery Kempe e About Ed, e do volume de ensaios reunidos Communal Nude. Entre os seus livros de poesia contam-se La Fontaine (com Bruce Boone), Reader, In Commemoration of the Visit with Kathleen Fraser e I, Boombox. Realizou o filme Aliengnosis (com Dean Smith); publicou o livro de arte Parables (com José Ángel Toirac e Meira Marrero Díaz); e escreveu o prefácio de Between Life and Death, um livro de pinturas de Frank Moore. Com Camille Roy, Mary Berger e Gail Scott, editou a antologia Biting the Error: Writers Explore Narrative. Glück foi codirector da Small Press Traffic e editor associado na Lapis Press. Foi director do The Poetry Center, na San Francisco State University, onde é professor emérito. É também ceramista e já expôs as suas cerâmicas nos EUA e na Europa. Na década de 1980, em São Francisco, cofundou o movimento New Narrative com Bruce Boone e outros autores.
Nota: Este texto é inédito e foi gentilmente cedido pelo autor à Quiasmo. A tradução portuguesa é de Tiago Alves Costa.





