Entrevista I Steven Seidenberg: “Coda é uma obra profundamente não convencional e ambiciosa”
Com Coda, de Steven Seidenberg, a Quiasmo Edições inaugura o seu catálogo em português. Poeta, pensador e autor de uma obra que atravessa, com rara naturalidade, os territórios da poesia, da filosofia e da percepção, Seidenberg constrói neste livro uma escrita exigente, rítmica e intensamente meditativa, na qual a linguagem se desfaz e se recompõe diante do leitor.
Nesta entrevista, o autor fala sobre as origens da sua voz literária, a relação entre forma, silêncio e pensamento, a presença de Hegel, Beckett e Pessoa no horizonte de Coda, e o significado de ver esta obra iniciar uma nova vida em português, abrindo também o caminho editorial da Quiasmo Edições.
A tua escrita move-se num espaço onde a poesia, a filosofia e a percepção parecem encontrar-se com uma naturalidade pouco comum. Olhando para trás, como vês o percurso que foi moldando a tua voz enquanto escritor?
A minha vida enquanto pensador e escritor começou no início da adolescência, através de uma exposição aleatória a alguns dos textos centrais da tradição filosófica ocidental, precisamente no momento em que descobria também outras formas de experimentação literária. Foi uma viagem sem orientação, e eu não tinha qualquer noção de uma separação intrínseca ou obrigatória entre esses registos discursivos, encontrando antes um impulso coeso para a experimentação estilística e filosófica em textos de escritores tão diversos como Kant, Melville, Beckett, Spinoza, Dickinson, Hegel e Joyce, para mencionar apenas algumas influências iniciais.
Este modo de leitura e composição pode continuar a parecer excêntrico no contexto da disciplinaridade académica e intelectual contemporânea, mas a minha convicção sempre foi a de que essa reificação se justifica apenas pela construção artificial de uma classe intelectual e de um conjunto de mercados literários. A minha indiferença perante essas formas de compartimentação assegurou-me a possibilidade de seguir os meus impulsos como poeta, filósofo e criador de narrativas de forma coextensiva, sem hesitação nem esforço, sem polémica nem presunção.
O título CODA contém em si a ideia de um fim, mas também de continuação, eco e retorno. Que possibilidades te abriu durante a escrita do livro?
Com o que deve começar a ciência?, pergunta Hegel, e a dialéctica produz sempre esta abordagem paradoxal, ao deduzir o seu encerramento como condição da sua abertura, a sua conclusão conceptual antes mesmo de ter começado.
Nesse sentido, o título sugere igualmente uma recapitulação conclusiva dos meus trabalhos anteriores, em particular Anon, embora sem qualquer ligação real entre ambos, nem a necessidade de conhecer um para ler o outro, algo semelhante à relação entre os livros da trilogia de Beckett. Coda, apesar do título, é o segundo dos três a ser publicado, sendo Anon o primeiro, uma espécie de pequena piada que, além disso, sugere e deriva da palavra cauda, cauda em latim. A posse proposta dessa cauda une as duas obras e serve de impulso para examinar outros sentidos de prelúdio e prospecto corporal e evolutivo, a igual imprecação de reversão e sublimação, concebidas tanto como imperativo biológico como intelectual.
Neste sentido, a inclusão da cauda na morfologia do homo sapiens sugere um atavismo que impele o sentido de exclusão do narrador de todo o entendimento mútuo e da sociabilidade que esse entendimento implica. Trata-se, portanto, de estar sempre de outro modo, como um exilado de qualquer especiação possível, sendo simultaneamente o eco de uma forma anterior e o pressentimento de um salto evolutivo futuro, ou assim o sugere a narrativa.
“É um enorme privilégio e uma grande honra que o meu trabalho dê início a este catálogo e a este projecto.”
Em CODA, há uma forte tensão entre concentração e abertura, como se os poemas escutassem tanto quanto falam. De que modo o silêncio, o ritmo e a forma orientaram a construção do livro?
Uma atenção geral ao ritmo, à acentuação e à cadência é uma marca distintiva do meu trabalho, e esse impulso convulsivo para a frente e para trás, através da métrica e da repetição, orienta o meu método de composição e a circularidade do texto.
Ou talvez deva dizer que as inversões e reversões fonológicas e sintácticas que tão frequentemente utilizo formam uma estrutura semântica abrangente, uma espécie de postura filosófica que por vezes está em consonância, e por vezes em contradição, com a posição aparentemente apresentada pela voz narrativa do texto.
Dentro dessa distância sempre pulsante, há uma terceira postura, uma resistência dialéctica ao encerramento de qualquer posição, que se apresenta como pausa, como o silêncio que acompanha o ruído da revelação, se quisermos, na confusão subsequente da sublimidade ou do assombro extático.
Para os leitores que encontram a tua obra pela primeira vez através desta edição portuguesa, quais dirias que são as correntes ou preocupações mais profundas que atravessam CODA?
Espero que os leitores portugueses encontrem uma afinidade significativa com o meu trabalho, tendo em conta o apreço geral pela vanguarda literária que se encontra na cultura portuguesa contemporânea. Talvez isso seja, em parte, impulsionado pela familiaridade com Pessoa, e diria que as preocupações que Pessoa coloca em primeiro plano sob a figura de Bernardo Soares servem como uma espécie de introdução a toda a minha obra.
Em particular, o enquadramento do texto como algo que é enunciado, por assim dizer, através de um discurso directo dirigido ao leitor, e a interrogação contínua da consciência alienada que assim se hipostasia, tanto para atrair como para recusar, apresentam-se como um caminho para as preocupações centrais de Coda, em toda a diversidade das suas manifestações.
O jogo de linguagem da inquirição e da réplica imaginada, imediatamente subvertido pela fluidez dos seus limites e das suas regras, constrói grande parte do humor e da tragédia que ocupam a obra. O primeiro decorre do fracasso do projecto de análise que o texto compulsivamente convoca; a segunda, do isolamento implícito do narrador no seu rescaldo.
Este livro inaugura o catálogo da Quiasmo Edições e tu és o primeiro autor desta nova colecção. Como recebes esse gesto, e o que significa para ti que um livro comece a sua vida numa nova língua ao mesmo tempo que abre caminho a um novo projecto editorial?
É um enorme privilégio e uma grande honra que o meu trabalho dê início a este catálogo e a este projecto. E, de forma mais ampla, é também muito significativo que a primeira tradução de Coda seja para português e para um público português, uma cultura e um lugar tão queridos para mim.
Devo igualmente expressar a minha gratidão por mais esta oportunidade de trabalhar contigo, cuja sensibilidade como poeta e tradutor já tinha conhecido há alguns anos, quando traduziste o meu livro plain sight, publicado em português como A Vista, pelo Grupo Criador.
Nota editorial: Esta entrevista foi realizada originalmente em inglês e traduzida para português pela Quiasmo.










