Hipnose Encarnada: rasgar o véu do real
«A poesia é um estado de excepção.»
— Gaston Bachelard
Talvez toda a poesia comece por uma suspeita, a de que o mundo não coincide inteiramente com aquilo que dele vemos. Há uma superfície das coisas organizada pelo hábito, pelos nomes, pela razão, pela história; sob ela, alguma coisa continua a pulsar, excedendo a ordem do visível. A poesia interrompe essa evidência e abre nela uma possibilidade de percepção que a vida quotidiana tende a encobrir. Um estado de excepção, precisamente: o instante em que aquilo que parecia firme vacila e outra intensidade da experiência se torna possível.
É nessa fissura que, a meu ver, se escreve Hipnose Encarnada (Espiral Maior, 2025), de Ramiro Torres, a quem me liga uma amizade nascida nos anos em que fomos vizinhos na Corunha. Catorze anos separam este livro de Esplendor Arcano, a sua primeira obra. A distância é significativa, embora permaneça entre ambos uma energia reconhecível: a atracção pelo mistério, pela intensidade e por aquilo que excede a superfície do visível. Em Hipnose Encarnada, essa procura encontra uma forma ainda mais corporal, como se matéria, afecto e conhecimento passassem a pertencer ao mesmo movimento. Os poemas procuram desprender-se do que estabiliza a percepção, atravessar a crosta das formas, «tocar a polpa do real», «escavar o invisível». A linguagem avança como quem procura uma passagem. O real deixa de ser aquilo que simplesmente está diante de nós e transforma-se numa matéria espessa, obscura, atravessada por forças que apenas momentaneamente se deixam entrever.
A antiga imagem do véu atravessa diferentes tradições espirituais. No sufismo, o kashf, o desvelamento, designa essa abertura pela qual aquilo que permanecia oculto se torna momentaneamente acessível. Em Ramiro Torres, esse gesto acontece inteiramente dentro da matéria. A revelação passa pelos dedos, pela língua, pelas pálpebras, pelos músculos, pelas artérias, pela pele. O invisível encontra-se na própria espessura do mundo. É por isso que o título do livro se revela tão exacto. A hipnose corresponde aqui a uma alteração da atenção, a uma perturbação daquilo que aprendemos a reconhecer como realidade. E é uma hipnose encarnada. O corpo constitui o lugar dessa passagem. Quanto mais profundamente os poemas entram na matéria, mais instáveis se tornam as fronteiras entre interior e exterior, humano e animal, consciência e paisagem, erotismo e conhecimento.
«Somos reféns deste mistério» (pag. 13), lê-se num dos poemas. O sujeito deixa de ocupar a posição segura de quem observa ou domina aquilo que procura conhecer. Expõe-se. Conhecer significa entrar em contacto, aceitar que o tacto, a respiração, o desejo e a imaginação participem desse saber. Há qualquer coisa de profundamente física nessa relação com o desconhecido: o mistério atravessa o corpo antes de poder transformar-se em pensamento.
É também aqui que tradições aparentemente distantes começam a tocar-se. A experiência mística e a aventura das vanguardas partilham, por caminhos distintos, uma desconfiança perante uma realidade demasiado segura de si. A primeira procurou atravessar a aparência; as segundas perturbaram as formas que domesticavam a percepção. De Rimbaud e a exigência de alterar o regime dos sentidos até à expansão surrealista do sonho, do desejo, do inconsciente e do acaso, uma parte decisiva da poesia moderna procurou alargar o campo do real. Ver passou também a significar perturbar as condições do próprio olhar.
Talvez seja essa a verdadeira hipnose proposta por Ramiro Torres: despertar aquilo que a realidade quotidiana mantém adormecido.
Hipnose Encarnada trabalha nessa tensão entre uma memória arcaica e uma pulsão de vanguarda. Terra, fogo, água, astro, animal, carne, os elementos reaparecem como se transportassem consigo um saber anterior à sua domesticação conceptual. «Regressa a fogueira / ao imo do pensável», escreve Ramiro Torres. O fogo regressa ao próprio pensamento, contaminando-o, obrigando-o a recuperar uma intensidade que a razão tende a domesticar. As ilustrações, da autoria de Mónica Montero Parcero e Alba Torres Ferreiro, que acompanham o livro, participam desse mesmo movimento.
A sua iconografia arcaizante — corpos híbridos, espirais, formas lunares, animais, cavidades, figuras simultaneamente humanas e cósmicas — resiste a uma leitura unívoca. Interessa mais a continuidade que nelas se pressente: um mundo em que o corpo ainda comunica com a terra, o humano com o animal, a matéria com aquilo a que, por falta de palavra melhor, poderíamos chamar espírito. Visualmente, realizam o que os poemas procuram fazer com a linguagem: suspender por instantes as classificações que tornaram o mundo demasiado reconhecível.
É talvez aí que a secção “Terra Hipnótica” encontra uma das suas forças particulares. A terra transforma-se em matriz, corpo, matéria pulsante. O resplendor de um lobo pode impregnar os amantes; a fogueira regressa ao pensamento; o corpo prolonga-se no astro. O arcaico surge como uma reserva de continuidade, a possibilidade de restabelecer ligações que a experiência moderna fragmentou. Aquilo que vem de muito longe reaparece, afinal, como uma energia ainda activa no presente. Essa continuidade alcança uma das suas expressões mais intensas em “Amantes no Único”. Os amantes excedem o espaço de uma intimidade privada. Neles, a separação entre os seres começa a desfazer-se. O abraço, o beijo e o desejo tornam-se formas de conhecimento; amar significa participar de uma realidade mais extensa do que aquela que cabe nos limites de um indivíduo. Há aqui uma dimensão afectiva decisiva: o acesso ao mundo passa também pela experiência do outro.
A própria linguagem adquire então uma materialidade particular. Língua significa simultaneamente órgão e palavra; «alfabetos» tornam-se «transparentados na carne»; olhos, bocas, sexos e vísceras entram na construção de um saber inseparável do corpo. A imagem torna-se agente de transmutação. O fogo converte-se em conhecimento, a língua em matéria celeste, o corpo em paisagem, o amante em cosmos. Cada coisa parece guardar a possibilidade de abandonar momentaneamente a forma que lhe foi atribuída. É nessa capacidade de metamorfose que o livro encontra uma relação profunda com uma longa tradição visionária da poesia. Da mística às rupturas da modernidade, persiste a ideia de que a palavra poética pode fazer mais do que descrever. Pode alterar as condições da percepção. O poema deixa de falar simplesmente sobre o vivido e procura tornar-se ele próprio experiência, intensidade, acontecimento.
A recorrência de palavras como fulgor, fogo, luz, mistério, real, origem ou infinito participa desse movimento quase litânico. A sua repetição pertence à própria lógica hipnótica da escrita: as palavras regressam, insistem, reaparecem sob novas combinações, até começarem a desprender-se do uso quotidiano e a adquirir outra ressonância. Em Hipnose Encarnada, essa intensidade encontra muitas vezes uma imagem capaz de lhe dar corpo: os «cavalos / dormidos nos espelhos», os «alfabetos / transparentados na carne», a «polpa do real». A linguagem ganha então peso, textura, temperatura. A dimensão espiritual do livro deixa de poder separar-se da sua materialidade.
Talvez seja essa a verdadeira hipnose proposta por Ramiro Torres: acordar aquilo que a realidade quotidiana mantém adormecido. A poesia torna-se uma abertura no regime habitual das coisas, um breve rasgão no véu. Por essa abertura entrevemos uma vida mais extensa do que a sua superfície visível, atravessada pelo corpo, pelos afectos, pela imaginação e por esse fundo de mistério que a linguagem, em estado de excepção, consegue por instantes tornar sensível.












