Premência I Adriano Espíndola Santos
A cadeira vazia ainda te espera (coitada da minha sua inocência) – não posso, não devo colocar alguém no seu lugar. Quando você sentava ao meu lado, tudo era céu, suas luzes e constelações; todo o infinito. O tempo é cruel e faz de mim o seu maior inimigo. Se eu vou durar, para quê? Tanto faz. Já não tenho mais com o que me preocupar. Não tenho filho pequeno, ou coisa que o valha. Minha vida é só solidão. Espero ser chamado à sala do médico, no sexto andar – a atendente me avisa que pode demorar um pouco, e a minha impaciência e ansiedade aumentam, porque estou a fazer o que não quero. Qualquer tratamento que faço tem a ver com o dedo firme de nossa filha, Augusta, ela não me deixa em paz; simplesmente morrer em paz. Devo revelar: acho muito bonito os casais que morrem pela falta do parceiro ou parceira de vida. Vi no jornal da tarde, um dia desses, que um casal, internado no mesmo hospital, morreu com diferença de horas. As filhas testemunharam que eram muito felizes e amorosos um com o outro. Isso tudo se passou nos Estados Unidos, um país de pouca empatia, veja só. Poderia já ter ido embora daqui, desse mundo sem sentido, onde a política da roubalheira me enfastia, onde a falta de amor me desilude; não faço empenho de ficar… Foram cinquenta anos ao seu lado, e mesmo cinco anos após a sua partida não sei o que fazer com isso que é a vida. Sou chamado ao médico, de supetão, quando estava flutuando em pensamentos. A atendente, muito bondosa, por sinal, tocou o meu ombro, me deixando pelo menos permanecer na aura leve – essa moça, decerto, terá muito tempo de vida, com dignidade e amor. Agradeci e me dirigi ao consultório. Subi para fazer um tal de check-up no coração. Uma ruma de aparelhos foi conectada ao meu corpo febril – de nervosismo. Eu, sinceramente, estava me lixando para o resultado. Aliás, torci que estivesse mal, a ponto de morrer, para ser encaminhado ao hospital mais próximo e convalescer uma morte tranquila, quiçá. Minha família é propensa a morrer de infarto. Meu pai morreu de infarto. Meu tio Zeca morreu do mesmo mal: súbito. Uma tia avô, inclusive, fez várias cirurgias durante a vida, no coração, para permanecer em pé, mas morreu muito jovem, aos quarenta anos, como sempre dizia, aos prantos, a minha mãe. Por que não fui mais um? No final das contas, o médico disse que eu tenho um coração de menino. Puta merda, nada feito. Mostrei-lhe, com toda a certeza, uma cara de descontentamento; e disse-lhe, meio mal-educado, que não tinha por que comemorar – ele ficou sem entender a minha indigestão. Augusta já vem me buscar – avisa de instante em instante, “Estou chegando, painho!”. Vai ficar animadíssima com a notícia. Eu a amo, claro, mas ficarei feliz por ela? Devo confessar que não.
Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo”, “Arraia-ralé” e “Inutilidades”. Escritor. Psicanalista. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/











