ato aparentemente trivial
quem dera fosse um domingo
de colecionismo de miniaturas
de carros fúnebres
um domingo tomando suco de laranja
toda a manhã
editando um pouco a vida
numa caminhada insólita
uma grandeza no útero
te faz contorcer
uma dor que não chega a doer:
são as pessoas que provocam
o que fere de verdade
um domingo de colecionismos de
mini sentimentos
que cabe em um google docs
você se acalma
quando alguém te diz
«te entendo»
*
distração
na xícara amarela a espuminha do chá verde: me vejo saindo de um mergulho rápido no Oceano Pacífico, escalando entre as pedras pois não havia praia. saí com pressa porque, vocês sabem, é o Pacífico, tem que estar atenta. ao lado da xícara repousa a bolsinha do chá molhando a mesa.
*
o envelope vazio
recebi um envelope com meu nome
ficou dias na mesa
e não tinha nada dentro
não sabia o que fazer
pensei em guardar dentro minhas três amarillis murchinhas
mereciam um lugar para secarem plenas
acabou que uma delas ainda estava molhada de vida
e a amarillis manchou o envelope
que manchou um poema que estava debaixo
que manchou a palavra quimera
cujo destinatário jamais vai ler
porque ele não lê poemas
ele se dedica a enviar envelopes vazios
às pessoas que gosta
de uma obviedade
mais cliché
que o poema não lido
*
mel da manhã
eu sempre rio
quando você diz tiburón
e a verdade é que
nunca tivemos um contexto
para dizer essa palavra
a gente gosta assim solta
algo nosso
o idioma inventado
por nós é o
tiburonés
raramente nos corrigimos
porque nossos erros
são bem-vindos como
neologismos:
a língua é para se divertir
e se se dá o caso
de ter que escrever bem
o faremos num
e-mail profissional
que nos obrigará a sair
da nossa academia torta
de arrepios na cintura
de imperativos maliciosos
e seremos lançados para fora
a cadência do nosso diálogo
se transformará
num Arial glacial
volta para a língua, volta
me implora sacanagens
eu direi que sim
com a boca cheia
você me dará
e receberá
o mel da manhã
está inaugurado
nosso império
de palavras
peço a benção
e você me diz
tiburón
*
o topo
«devagar
peça mais
e mais e
mais»
Ana C.
devagar caminha
por uma paisagem branca, sem fim
escreva uma palavra que não
será esquecida
calcule os quilômetros
de distância do pássaro
que não quer falar com você
respire o ar seco rasgando
a garganta
existem milhares de espécies em cada reino
e em cada um há infinitas linguagens
eu e você temos a nossa
desde que você nasceu
e agora
misturamos e observamos outros matizes
surgirá uma nova cor
algo parecido ao azul, mas tão novo
como o próprio azul quando foi nomeado
pela primeira vez
ou como Klein
quando fez o que fez
em silencio suba
a montanha mais alta
e veja
a antena que te aterra
deixe que sua amplitude
descanse sob a estrelas
quando chegar ao topo
é bem possível que entenda
os impulsos partidos
verá abaixo tudo o que foi inventado
por nós
você vai me enviar uma mensagem de voz
de onze segundos de silêncio
Mel Mustefaga (Brasília, 1986) é Melissa Mustefaga Guaraciaba. Vive em Barcelona há 14 anos. Escreve e publica poesia de forma independente e participa em recitais pela cidade há alguns anos. O quinto sonho é o seu primeiro livro.
Nota: Estes cinco poemas fazem parte da edição bilingue, em português e espanhol, do livro O quinto sonho / El quinto sueño.
Quem conhece a sua obra, incluindo a sua poesia, reencontrará essa capacidade de tocar o acontecimento pelo flanco. Everardo raramente coloca a revelação no centro da página. Prefere deixá-la aparecer através de um silêncio, de uma conversa interrompida, de uma memória que regressa quando já parecia esquecida. Há na sua escrita uma espécie de ciência da brevidade que o romance preserva: as secções possuem atmosfera própria, ritmo interno e desenlaces que raramente coincidem com uma verdadeira resolução. Vermelho Pitanga cresce a partir dessa lógica. Encontros, recordações, partidas e pequenas situações vão-se depositando umas sobre as outras até comporem uma cartografia de vidas em trânsito, marcadas pelo desejo, pela precariedade, pela idade, pelo trabalho e por aquilo que o tempo insiste em não apagar.





