Para arejar as mágoas e a humidade I Ana Paula Jardim
Poliamor. Uma palavra vazia que não diz nada. Ouvi-a um dia destes numa dessas conversas que apanhamos na sala ao lado enquanto olhamos para o ecrã do computador. É extraordinário o que se aprende ouvindo pessoas e os seus diálogos. É todo um dicionário novo que despejam como uma verborreia. Que vivemos na era do não pensamento e das palavras gastas. E convém estar atualizado nesta nova semântica do século de frenesim constante. Levantei-me e fui fumar um cigarro à janela e olhei a estrada descendente cheia de carros em fila que existir é uma via de sentido único cheia de engarrafamentos. E ninguém sabe bem porque a desce. Pensei que o amor é o serviço de chá que o meu pai ofereceu à minha mãe quando ela tinha quinze anos. De fina porcelana de uma fábrica que já fechou. As chávenas são de uma elegância extrema, com umas asas brancas e rosas ilustradas. Que as verdadeiras foram plantadas em frente do jardim da nossa casa. Eram colocadas na mesa todas as Páscoas. Como um tesouro guardado para os dias de festa. Enfeitaram o dia do meu aniversário quando celebrei três anos de idade. Com o tempo ficaram fechadas na cristaleira da entrada. A ganhar pó. Hoje vivem nas prateleiras do meu móvel da sala. De cerejeira. De vez em quando lavo todo o serviço: as chávenas, o bule, a manteigueira, o prato das torradas e volto a guardar tudo, alinhado como uma montra. Lembrei-me, de repente, que nunca o usei. Não sei porquê.
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Descobri os meus vestidos de verão num fundo do cesto de roupa por passar a ferro. Por falta de tempo e por uma preguiça estranha fui deixando ficar. Hoje, ao abrir a porta do armário, resolvi passá-los. Montei a tábua, liguei o ferro e demorei um tempo infindo a alisar o tecido. Alguns compridos, com flores falsas. E no meio dessas flores alaranjadas, letras que ficaram incrustadas como orações de um não lugar branco. No fundo do decote a marca de um terço arrumado, mais uma vez, numa caixa de tecido. Embrulhado e completamente engelhado, um vestido azul e branco, com uma franja, exalava um odor a peixe e ainda tinha restos de areia que brilhavam como Troia renascida do fundo do mar. Senti-me como uma dessas mulheres banais da cidade sitiada. Saqueada, violada e jogada como arraia miúda às gaivotas. Perfumei-os com uma fragância que encontrei, por acaso, numa loja de artigos para casa e cujo nome fixei: Poetic mind. Pendurei-os no meu armário estupidamente ordenado, como um ritual, numas cruzetas de plástico, baratas, daquelas que nos dão nas lavandarias, para arejar as mágoas e a humidade. Fiquei a olhar para eles, todos alinhados, a pensar que nunca mais compro vestidos novos, especialmente quando a Primavera chegar. Que vou usá-los e gastá-los até ao fim, até serem velhos. Que a minha vida sempre foi como estes vestidos pendurados em cruzetas de plástico, sem as medidas certas para o meu corpo, que visto sabendo que não me servem em lado nenhum.
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Passar, a meio da tarde, com o sol a bater de frente e um vestido lavanda que se abre com os teus passos pesados, por uma mulher negra, sentada no canto de um banco, a olhar para o chão, a mão apoiada na cabeça coberta por uma espécie de turbante, fez-te sentir uma estranha cumplicidade. Um instante de silêncio partilhado. Um pensamento coincidente. Ela com as ideias paradas, despejadas no vazio da calçada. Eu com as ideias sem direção. A baloiçar todas dentro de mim num barulho sem sentido. A trocar-me os pés. De fuga para a frente. Indiferentes. São extraordinárias as frases que se podem trocar, de forma casual, com uma mulher negra sentada no meio do nosso caminho. E não tem importância nenhuma que seja uma tarde quente de abril que o calendário e o nome dos meses é só uma invenção humana. Por breves momentos o nosso silêncio misturou-se e o que dissemos ficou perdido nesse instante. Continuei a andar com a certeza de que o sentido é só uma palavra vazia e que agora não encontro nenhum.
Ana Paula Jardim é poeta, escritora e leitora. Nasceu em Coimbra e vive em Carcavelos.
Fotografia da autora: Vitorino Coragem.











