Miúdos à Sombra do Palma I Lígia Reyes
Sentámo-nos na escada já demasiado bêbados para notar a chuva miúda. Lisboa parecia correr, numa espécie de luz que nos incendiava o peito. Tínhamos 17 anos e conhecíamos demasiado bem o conforto da rua. Ele ligou o o Ipod e pôs um phone no meu ouvido. “A dependência é uma besta que dá cabo do desejo e a liberdade uma maluca que sabe quanto vale um beijo”. Olhei-o de súbito e vi o carinho nos olhos do meu amigo. E a vontade de me beijar outra vez. Num assomo das milhões de coisas que lhe queria dizer dei mais um trago no whiskey e acendi um cigarro. Queria ter a certeza que ele compreendia a dimensão do que estava a acontecer ali. Então desenlacei finalmente o pensamento:
– Para mim a grande música do Palma é o Junto à Ponte.
– Sabes que essa música é sobre uma prostituta… – disse ele num trejeito que era só seu.
– Não, não é… Essa música é sobre uma mulher que está tão sozinha, mas tão sozinha, que procurou o amor em todos os homens que encontrou – respondi, com os olhos embaciados.
Foi o momento em que o meu amigo acendeu o seu próprio cigarro, como se preparasse para mais um longo pensamento que iria pôr em palavras. Primeiro, contextualizou aquilo que iria dizer, e falou sobre como se poderiam definir as qualidades de um texto poético, e claro, todas as interpretações, mesmo as mais livres, eram válidas. No entanto, aqui, o assunto era demasiado obsceno e tão pouco metafórico que apenas poderíamos olhar para o poema exatamente como ele era. Essa mulher na música do Palma era, sem dúvida alguma, uma prostituta. Pois esperava Junto à Ponte, e porque comprava o dia com pouco dinheiro – pois a única coisa que ela podia vender era o seu corpo e não o seu amor. Se fosse o contrário, talvez esta mulher pudesse ter outro destino. Talvez esperasse por alguém ao fim da tarde, porque na realidade, aquela era a hora marcada para ela própria estar no seu ponto de trabalho. E por todos estes motivos, segundo o meu amigo, o Jorge Palma havia escrito exatamente sobre uma prostituta. Uma daquelas que já não conseguem distinguir a amizade de um homem das intenções de um cliente. E claro, o Palma, trouxe a sua própria melancolia sobre o destino dessa mulher, como se em algum momento pudesse conseguir fazê-la compreender o seu próprio afecto.
Pensávamos nisto com fervor, uma forma de não pensar no beijo dado uma hora antes, ou de adiar os nossos próprios corpos. E eu, mais do que ninguém, precisava de defender e proteger a mulher do Junto à Ponte. Como se fizesse uma declaração sobre a minha própria tristeza. Para que lhe pudesse falar sobre esse assunto difícil que era o amor. Essa chama que de súbito estava entre nós. Procurei as palavras com exatidão. Sim, era verdade que estavam lá todos os sentidos para descrever uma prostituta, mas tínhamos que prestar mais atenção. Olhar para a coisa de dentro para fora, como se fosse possível ver com o coração. Se muitos homens haviam usado o corpo desta mulher, desde não sei já que idade, então esse começo estaria mais próximo do abuso e não da prostituição. Talvez nesse passado distante alguém tenha devassado o seu corpo a tal ponto, que haveria de, para sempre, manchar a sua alma. A seguir a esse se sucederiam mais homens, como uma busca incansável para encontrar aquele que finalmente a poderia curar do impossível. E aqui, o poema era claro, o seu amor não era pago – literalmente. Por um acaso, uma coincidência terrível do universo, ela não encontra esse homem, ao invés, o homem é que a encontra. Um desespero semelhante, duas almas apenas reconhecíveis pelo inferno que carregam. Por isso, ele duvida da verdade dela. Está incapaz de acreditar que ela possa ser diferente de todos os desencontros, traições, e é por isso que os seus beijos o amedrontam. Ela fará a única coisa que é capaz de fazer: esperar por um homem. Pois já não existe uma diferença singular entre esperar pelo homem que a ama, ou esperar qualquer outro. A indiferença é só o resultado de todas as vezes que foi abandonada – como se já não houvesse qualquer esperança para o amor. E a ponte seria, para mim, a grande metáfora deste poema. Como se fosse possível viver no limbo, no espaço que une os lugares do real. Um sítio no qual ela está indefinidamente à espera, como uma imagem de melancolia, assomo. Um rio que passa, a possibilidade da morte auto-infligida e a decisão de se manter ali para que pudesse viver um pouco mais de tempo.
O meu amigo olhou para mim, pousou o seu braço nos meus ombros, como quem tenta dizer num gesto que me compreendia. Pôs a música a tocar no iPod e esperou um pouco mais. Dois miúdos a beberem juntos a solidão de um trago, perfeitamente cientes de como os beijos amedrontam. Sem saberem que estavam já no dia de amanhã, ao final da tarde, junto à ponte.
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A 30 de agosto de 1990, enquanto um incêndio consumia a encosta da Serra da Estrela, nascia Lígia Reyes. Do quarto via-se o lume, como se o mundo ardesse num prenúncio. Entre a criação e a destruição da sua obra literária vai um pequeno passo. Alguns dos escritos que se salvaram foram publicados em revistas e antologia literárias (Apócrifa — PLEC 8; Türkiye Dil ve Edebiyat Derneği; TRAS LOS CLAVELES – 35 Poetas Portuguesas do pós-25 de Abril; Revista Independente Tlön…). Publicou o seu primeiro livro de poesia, Amor Peixe e Outras Loucuras, pela Editora Urutau em 2019, seguido do Amantes Ocasionais em 2022. Foi convidada a apresentar a sua obra em diversos festivais e espaços, como o Young Writers Meeting (Turquia) ou o Festival Literário de Óbidos. Criou os eventos literários Multiverses, Poets Wanted e Immersive Writing Sessions que tiveram lugar na Polónia e em Portugal. Em 2025 ganha o Prémio Poesia Oeiras, Categoria Revelação, com a obra O Êxodo das Sementes de Estrela. Trabalha como copywriter, content writer e tradutora.










