Um templo antigo numa cidade futurista I Ana Paula Jardim
Fotografia da autora por Vitorino Coragem.
No meio da noite, no cimo de uma ermida brilha uma igreja antiga. Tropeço nela, pela primeira vez, com os olhos nublados pela chuva torrencial que cai no pára-brisas. Os seus contornos aparecem deformados no vidro dianteiro do veículo onde as retinas tentam perscrutar algo de novo numa paisagem batida. Antigamente só reparava nas antenas dos telhados. O que é incompreensível. Erguida no cimo de um monte parece um Templo antigo desencaixada numa cidade futurista. Penso no tempo em que foi construída, quando ao redor só existiam terras e caminhos de poeira, virada para os campos de lezírias, de lamaçais e zonas de sapal. Húmidas e repelentes. E provavelmente os únicos fiéis que tinha eram gansos selvagens, mergulhões ou falcões-peregrinos. Muito embora as aves não se interessem pelas questões de Deus. A sua única religião é existir. Abrir asas rasgadas pela madrugada, voar a pique à procura da próxima vítima. Sem remorsos. Não sei por que razão não reparei naquela igreja que brilha como uma promessa. Tantos anos a correr a mesma estrada e os meus olhos sem bater nela. Não é possível ver tudo de uma vez. A sua luz é tão irradiante que faz lembrar uma tela. Engatamos a mudança de marcha-atrás na caixa de velocidades e vemos vultos. De capas litúrgicas medievais. Ecoam cânticos à mãe-natureza e parecem pássaros de estranhas plumas. São filhos de Alhandra pedindo o sustento ao Deus desconhecido que mora submerso nas águas. O passar dos anos haveria de semear, ao seu lado, outro Templo de tubos e argamassa que corre em cilindros metálicos. Férreo Adamastor devorador de homens. A escuridão realça a sua estrutura iluminada pelos potentes holofotes do capitalismo selvagem. Gruas ciclópicas com fios pendurados e tapetes rolantes por onde passam sacos com que selam as suas futuras sepulturas. Uma grande engrenagem fabril de humanos como replicantes. Amassam com mãos de calcário e argila os sonhos escavados na Pedreira do Bom Jesus. Que há ironias profundas que nem as palavras apagam. Caem em máquinas de esmagamentos de pedras transportadas num barco atracado no cais ou desaparecem em fornos, cozidos por areias a dois mil graus centígrados. Que há destinos que se cumprem mesmo com igrejas e terços ao final da tarde. Os seus corpos-cimento são os corvos da cidade.
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Hoje fiquei a olhar, de longe, a Serra dos Candeeiros. É austera e imponente e opera uma espécie de divisão geográfica e climática. Também emocional. Deixamos a planície e é como começar a trepar por uma enorme pedra. A vegetação é rasteira e tem várias tonalidades de verde. Algo que observei antes da uma da tarde. Ao princípio pensei que fosse o reflexo das nuvens, mas não. Fechei os olhos com força, a imaginação embalada. Quando os abri vi um gigante desenhado no cimo das montanhas. Encostado a Pás Eólicas que giram como versos-turbina. Moinhos Aerogeradores. Um bardo de camisa aberta e uns objetos nas mãos que faziam um ruído. Uma espécie de corrente elétrica. Ao seu redor palavras em letras descomunais escritas nas rochas da montanha e a voz a ecoar como um trovão. Frases e frases a rebolar pelas encostas. Cerrei as pálpebras com força para não ver. Subitamente enjoada como se estivesse embriagada. Uma música estridente a invadir-me os ouvidos. Sem conseguir decifrar um único signo cuspido pelo Gigante-Torre girando ininterruptamente. Sacerdote da Inquisição do Tribunal do Santo Ofício a quem os ventos obedecem. De microfone aberto. Grita sonetos hereges que batem nos vidros como balas.
Ana Paula Jardim é poeta, escritora e leitora. Nasceu em Coimbra e vive em Carcavelos.












