Morte a conta-gotas I Adriano Espíndola Santos
Marieta não para de me matar. Todo dia é um acinte, um vexame; pecado atrás de pecado – rogo pragas; rogamos pragas. Ela quer a minha morte lenta e sofrida, agonizante. Adoeço só de pensar na malvadeza. Mulher sem coração. Trabalha na base da brutalidade. Estou acamado há seis anos, completados na última terça – lembro-me porque é a pior tragédia por que já passei; a partir daí, tudo desandou. Perdi o controle da minha vida, dos meus sonhos. Sou tetraplégico, por um acidente de moto; um ônibus atravessou a minha preferencial, me pegando em cheio; quase morri (e poderia, aí, ser um alento, você vai entender). Marieta, que já não gostava muito de mim, pensando só em posses e dinheiro, fazendo com que eu trabalhasse que nem um cachorro para bancar os seus luxos, passou a me maltratar, como se eu fosse culpado da desdita de nossas vidas. Ela me deixa com sede, com fome, e não sobrou ninguém para me socorrer. Por causa dela, logo de início, perdi o contato com minha família. Ela os odiava, sem nem os conhecer. E, aos poucos, fui perdendo o contato com meu pai e minha mãe. Minha irmã Mazinha ainda tenta me ligar, me visitar, mas toda vida Marieta arranja um jeito de me escantear; inventa dores, idas ao hospital, o caralho a quatro. Coitada da minha mãezinha, que também está doente. Se saudável fosse, daria um jeito de me tirar daqui. Marieta me alimenta com gosmas pegajosas, como sendo papa de neném, sem gosto algum, e diz que é para me fartar. Penso que ela só me mantém vivo por conta da minha aposentadoria. A pior hora é a do banho. Na verdade, não é bem um banho, mas uma limpeza com pano molhado, sendo eu uma espécie de móvel, propriamente um criado-mudo, rebolado de um canto para o outro. É um deus nos acuda, mas pelo menos isso acontece três vezes por semana. Ouvi na televisão, por acaso, que uma nova proteína pode devolver os movimentos aos tetraplégicos ou paraplégicos. Uma certa alegria tomou conta de mim, mas logo veio o desânimo, porque não consigo quase falar, por conta da traqueia perfurada. Senão, daria um jeito de gritar para alguém me acudir dessa masmorra. Acho que morrerei assim, largado, abandonado. E eu que acreditei tanto no amor, tinha Marieta como minha deusa, hoje vejo que foi tudo ilusão, fantasiei uma mulher que não existia – talvez carente, atraído por sua beleza. Marieta, várias vezes, sai e me deixa só em casa. Choro desesperado, porque preciso de cuidados mínimos e necessários, constantemente. Penso que não tenho mais saída. Peço a Deus para me levar todo dia – como se acreditasse em Deus; se existisse, já teria me socorrido há tempos. E tenho ódio de não poder me matar; nem essa merda posso fazer. Nunca fui depressivo, mas agora tenho uma bruta depressão, que me assola o peito e arranca o meu coração. Porque não sei do meu futuro. Porque não sei o que pode acontecer. Porque não tenho meios de me curar. Sou um estorvo, vivo ainda por conta da aposentadoria, como contei. Só essa merreca me mantém vivo. Foda-se! Não fosse isso, Marieta teria me largado. O que ela quer mesmo é me matar, me trucidar, me transformar num objetinho inservível, como de fato já sou e não tenho nenhuma importância para ela. Nem lembro a última vez que ela disse que me amava. Faz, talvez, uma década. Não tivemos filhos – e hoje considero isso um milagre. Não queria que meus filhos me vissem nesse estado ou sofressem pelo descaso da mãe. É tudo uma grande suposição. Prefiro não pensar. Rezar para quê? A vida já me contaminou.
Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo”, “Arraia-ralé” e “Inutilidades”. Escritor. Psicanalista. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/












