5 poemas de Bendinho Freitas
GRUTA DO NZENZO
A melodia murmurante
das águas
transforma o silêncio da gruta
Brota harmoniosa
como um enigma molhado
apalpado pela sonoridade
ao trepar ouvidos desce
escorrendo por dentro
do ritmo transparente
como um segredo
hospedado na tua emoção
Lá fora
pássaros poisam nos ombros
das árvores
para contabilizar verdes nuvens
adestradas pelo vento
As mãos densas da floresta
escondem sardas luminosas
do rosto do céu
Teu semblante pintado de argila
reconhece a oração
em seu esplendor protector
Um dedo calado do Soba desliza
carregando a dimensão ritualística
do âmago Ambuíla:
Tua testa ungida fala
a linguagem da Gruta
Chove uma atmosfera sagrada
que liberta a essência
da beleza da vida no Nzenzo
*
CIRCO ABSTRATO DO MAR
Quando o luar chega de mansinho
espectros de tristezas desfalecem
onde a alegria se ergue.
Um lúgubre vazio se preenche
onde sons e luzes transcendem
o imaginário
Quando as águas assumem
proporções excitantes
é o circo do mar rebuscando
cenários desfeitos
pelo embalo atroz das calemas
Minhas mãos alcançam
as conversas das baleias da tua ânsia
Nossos olhares navegando
encalham num palco borbulhante:
A plateia sentada é um oceano azul
recriando cavalos-marinhos adestrados…
peixes-leões enjaulados na selva d’águas
rugindo como salvas de palmas
de anémonas-do-mar
A noite rapta os códigos das acrobacias
dos golfinhos
Mímicas explodem nos túneis
da alma do mar pintada
de peixes-palhaços
No quadro azul do universo marinho
absortas exibições de números ocultos
viajam nos trapézios
desenhando um traçado
de cardumes espalhados
no centro do prazer do circo
abstrato do mar
*
MAR DE EMOÇÕES NO MUSSULO
Um vento preguiçoso
canta nos braços das palmeiras
sem lágrimas na voz
para lavar as mágoas
do mar
dança serena
de olhos semicerrados
Eis que o sol se abre sorridente
exprimindo um silêncio balsâmico
como um sermão mudo derramado
sobre a ilha dos pássaros
O mar azul de Cazanga
destapa histórias misteriosas
de pescadores agarrados ao tempo
pálidos gemidos das águas
trocam impressões com a maresia
divagando entre folhagens
No Mussulo um mar de emoções
corre para os braços da praia
A magia da natureza
consagra o sol dos trópicos
*
FULGOR ETÉREO
1.
Do pranto infinito da dor
emerge um fulgor etéreo…
mesmo quando as páginas do livro
mar de sofrimento
se abrem de incertezas
e o parto do pão aborta
Mesmo quando um cágado
escala uma árvore
e o suor do trabalho se cala.
Nossos irmãos iluminados
comem onde estão amarrados
cuspindo mares de pretensões
sem plantar o amanhã:
Importam constelações
que brilham por uma noite
As sanzalas aguardam pelos sorrisos
como Kinguilas esperando
por bons ventos
fora da primeira grandeza
a paciências ganha raízes
De que vale importar constelações
de velhos mundos
quando a nossa terra
adormece na lista de espera?
*
CUNENE BEIJANDO O MAR
Havia um eco de maresia
nas tempestades d’areia
quando as mãos do vento
desenhavam seios
de mulheres Himba
nas dunas do deserto
Havia elos nos silêncios
das vozes deixadas
pelas pegadas
dos guelengues
Aridez nos contornos
dos assobios
tecidos pelas linhas do vento
Havia corvos-marinhos
conversando com a brisa
no horizonte vestido de azul
Era a corrente de água
transitando para o além
com um aroma abstrato
de welwitchias
Era um tratado de imagens
memorizadas no parto da água
Uma festa de hipopótamos
largando metáforas desmembradas
na água
Havia um desenlace do rio
abrindo fronteiras
com a língua de água doce:
Era o Cunene beijando o mar
Bendinho Freitas, nasceu a 25 de Maio de 1971 em Luanda. Jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto UAN e Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos, pela Católica-Lisbon School of Business and Economics e Universidade Católica de Angola. É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). Publicou os livros “A Pitoresca Etnia das Palavras”, poesia, edição da UEA 2016 e Silentes Vozes d’Árvores, poesia, edição da Mayamba Editora 2019. Para além de trabalhar a poesia, dedica-se, paralelamente à produção da prosa, com colaborações ocasionais nos jornais angolanos, onde publica crónicas, contos, ensaios e artigos de opiniões.












