10 poemas de Abílio Guimarães
UM PAU DE DOIS BICOS
Um, toma o silêncio por ouro;
o outro, fecha-se em copas.
Um, quer a manilha de trunfo;
o outro, o ás de espadas.
Dos medos e desejos dos filhos
sabemos isto… e é um pau…
*
EU E A MINHA MÃE + O FUTURO DONO DA MORTE PAREDES MEIAS COM A NOSSA
– Somos vizinhos, disse-nos o futuro dono da morte
paredes meias com a nossa, ainda que + a norte.
– Somos vizinhos, campa com campa,
só nos falta pôr a tampa.
– Somos vizinhos, e disse-nos aquilo a sorrir,
o futuro dono da morte, como se ela a dormir.
– Somos vizinhos, jaz ali a sua morta,
putrefacta, não importa.
– Somos vizinhos, dito assim tão de repente,
tão chegado, tão a quente!…
– Somos vizinhos, à janela do fim maldito,
dar o dito por não hirto, mas na lousa: tenho dito.
– Somos vizinhos, disse a carne derriçada,
e ainda que + a norte nós também numa risada.
– Somos vizinhos, empresta-me aí essa jarra.
Ora essa, toma, agarra.
– Somos vizinhos, ia lá adivinhar,
+ a + que a vida eterna não se faz sem porfiar.
– Somos vizinhos, e eu dali a correr:
se ao menos estes versos me ajudassem a morrer!
*
DESPOESIA
Às vezes encontro poesia
onde menos se espera.
Nas fezes dos devotos – algo que mexe
lá dentro!
Em Tegucigalpa.
Pode parecer, mas não é a capital das tonturas.
Nos olhos dos viciados.
São olhos de vigiados.
No nervoso escondido
e na tosse escangalhada.
Apelemos ao ridículo.
Escrever para rimar testículo. Aí também.
Nos milagres operados
por obra e quem diz graça diz da cunha.
No vírus ébola. Estava mortinho
por infectar o poema.
Na palavra ELA, assim
nua da cinta para cima.
Também há livros de poetas consagrados
onde ela (ela, agora, é a poesia) não está.
Algures é um lugar no poema.
Perdão: algures é o lugar do poema.
*
PUNHADO DE SOL
Um punhado de sol entretido
no bolso
(para estancar o dia),
o calor a sair pelos olhos,
como quem pede
e da boca de um enfermo:
foram metáforas que explodiram.
Sobra-me um cheiro a esturro,
mas a poesia gosta de brincar
com o fogo.
Um punhado de sol entretido
no bolso
(para enganar a morte),
escrever antes a realidade:
foram metástases que explodiram,
tudo isto é matéria
que não acrescenta nada ao poema
e um dia vamos todos estar
mortos.
Um punhado de sol entretido
no bolso
ajuda,
mas não nos livra do pó.
Deito-me e tudo é já passado.
*
OBITUÁRIO
Vem esta entrada
a propósito
de uma prevenida,
já bem industriada
no comércio da morte,
que à saída do velório:
ia actualizando
de 2/2 anos
(por vezes de ano-a-ano)
a sua foto pessoal
para que no fim
não fosse parecer
uma de 90
com aquela carinha
de anjo aos 30.
Outra,
que ouvia: juntamente.
Eu,
poeta!:
noutro mundo.
A necessidade
de preservar o corpo
é delito respeitável.
O resto é conversa
fiada na dolosa
metáfora da morte.
Aliás, o comum dos mortais
sabe que os espíritos
ficam mal nas fotografias.
*
PECHISBEQUE
Aqui dentro sou um marginal.
Brigo
com as palavras, abro-as
à pedrada, parto-lhe
as vogais, rio-me,
choro-me – é consoante –
e nunca me é dado
cumprir.
Cumprido
é o morto,
o poeta contente,
palavreado e forçoso.
Também sou o que despreza.
O que no poema
busca
sem esperar alcançar,
o que descrê
da poesia,
essa lama imprevista,
que se aborrece
na perfeição
e se dá
à penosa arte
da fuga.
Sou o que não é.
Peça de pechisbeque,
porta
desaberta,
a figura de estilo
que nem metáfora
é.
*
VERSOS DE CAVALO CANSADO
uma cerveja, na pior das hipóteses,
é melhor do que uma hóstia.
em horas de revelia, cospe-a.
um bêbado no seu auge é só teses.
diga-se: não foge muito ao poema
– um mentiroso compulsivo,
sempre à cata de tema.
inconveniente, abusivo.
no velório atira: deitado de fresco.
em casa o cenário é dantesco.
daqui te arroto (ups!: exorto):
vê se cresces!
para começar, imploro-te que cesses
– fora um ou outro mais estilizado –
estes versos de cavalo cansado.
*
NÚMERO PRIVADO
Ligaram-me
– com aquela vozinha de merda,
aquela que vocês sabem –
a perguntar qualquer coisa, tipo:
o que é que deus pensará disto tudo?
Isto tudo, era a pandemia.
Eu – desassossegado –, que
graças a deus sou ateu,
mas deus, se calhar
– coitado, mortinho de trabalho –,
não deve ter sido avisado
de tamanha filhadaputice.
Porém, a gente às vezes precipita-se.
Pensando melhor, não teria sido
deus – o próprio – a ligar-me?
Infelizmente nunca o saberemos.
Era um desses números privados
que… deus me perdoe.
*
O LASTRO DO MEDO
O medo entra-te pelo cu dentro aos 50
e a partir daí é sempre a abrir.
Agora até tomas café a meio prazer
(vi-te há dias: só metade do pacote).
A aliviar a consciência num pacote!
Vais longe a negar assim o prazer.
E em troca de uma promessa!
Artérias outrora de truz a um triz
do pum fatal. Uma dor calada, outra
a morder-te. São insondáveis os caminhos
por onde te corre o medo. A vida
é um exercício contra o tempo. Corre,
corre, dá à perna, ainda és capaz de chegar
a tempo. Há dias quando abriste o envelope
das análises, com a boca seca e o coração
aos saltos, eu bem te vi:
foi como se o professor tivesse faltado
e tivesses direito a mais uns minutos de recreio.
*
O LEITOR
Lês-me
e parece que te desvendo
os pensamentos.
A adivinhar-te o ser,
a profanar-te,
a inquietar-te,
enfim, a ler-te.
Caminhas
aqui comigo no poema
de mão dada, embevecido,
mas isso passa-te.
Mais tarde ou mais cedo
a paixão far-se-á indiferença
e aí – juro-te – negarás o passado.
Mas isto é a minha palavra
contra a tua.
Abílio Guimarães é pediatra, escritor e poeta. Natural de Cesar, é também um apaixonado pela natureza e pelas atividades de montanha. Tem varias obras publicadas entre as quais Em nome do pai, Certos extractos da memória ou uma incerta autoabíliografia, A dor de poder ter sido outro, Bibliotecas, uma maratona de pessoas e livros e a antologia Trinta por uma Linha. É ainda autor de uma coleção de diários que conta actualmente com 8 volumes.












