5 poemas do livro «Victorianas» de Marília Miranda Lopes
1.
Elas escreviam à máquina na minha cabeça
A meio da noite, acordava com teclados
martelares contínuos. que quereis, perguntava
Não me diziam. amuavam nos seus olhos baixos
Transportavam-me na melodia mecânica dos corpos?
Seria percussão no que insistiam? porque não me
deixavam
no sono?
Victorianas, queriam bicicletas, deixar desmaios
romper urbes
firmar gaivotas.
Hoje escrevo com o arquivo delas na garganta
Não me engasgo com enciclopédias de enxovais
Regurgito as formas que me trazem vagabunda na
estrada
no romper de caminhos
Imberbe de pranto, ensurdeço. que mudas vós gritais
Que sempre fechados genitais
ao corpo deles, inquietos
Brame a flâmula. sou de vidro ainda cedo. as tardes
são cálidas nuvens chovendo cíclicas inspirações
Transpiro. vindes calar-me, agora sei: calar com o som
determinado a auscultar
o meu próprio batimento
Tremulamente me levanto da cama
onde pousam combinações de outrora
Rendadas me trazeis nas mãos. sinto-as na boca fechada
O meu silêncio é a vossa chama. um não dizer que bateis
sobre a secretária antiga.
2.
Convidais-me a descer a escada. o meu pé treme
Devagar desço – subo ao brilho dos vossos olhos
à meia – luz, dentro de um século
em ebulição no ventre opaco
Pronuncio o trilho
na vertigem dos degraus – volto
ao que me esqueci – aragem de chama, tremura de vela
Venta fortemente. urge fechar janelas, correr cortinas
Debruçada sobre o último parapeito, vislumbro
uma frincha na memória
?O que quereis que veja nesta névoa, se na calçada jaz
o pássaro ferido que se lançou da madressilva
e nos deixou, maternais, a salvar os frágeis da morte?
3.
A lua fotografa, como Flaubert, os olhares irreveláveis
Aqui, onde a árvore torneou a terra
com anfíbios grossos, submersos
Aguarda-se dentro
a mesa posta sem nódoa. o capturador
de olho no futuro, solicita compostura: vestidos
e fraques para a posteridade
Na quietude do retrato, antes da ceia, pedis que sinta
a contenção a preto e branco
o minuto irrespirável.
4.
A natureza reverbera-se no traço –
– Caudal de serpente prenhe
O vento parou. que estranha mudança de humor
vos acompanha os passos: dos quartos para as salas
das salas para os quartos
entre livros, bordados, rendas, armações de popelina
Que coisas recatadas de amor se contam
nas conversas embebidas em éter, tão contrárias
à fauna, à flora, sem pose ou etiqueta
As vossas flores, ali na jarra
apesar da linguagem que vos serve
sofrem, pouco imperiais
Em breve o rio
as tomará por cadáveres, esse que não distingue
as mulheres das flores, nem o significado
de cada braço
ou caule
na estática
melancolia.
5.
Brilhos, brocados, copos de cristal
pirilampos nos cabelos
Desenterrais-me o olhar
das vossas cabeleiras com pérolas
Junto à porta ainda sinto o sufoco
a carruagem desenfreada, rua fora
o baile dos vaga-lumes
nas cabeças
A noite avança
Cofiam-se bigodes fartos, já sem políticas cartolas
Trincha-se
leitão luzidio, morto na travessa
Há toda uma armação
uma dobradiça que vos acompanha
para que vos senteis, elegantes, à mesa
O animal fumega
A violeta de Parma exala dos colos
! Ó femmes fatales!
(Comentais, entre risos, que George Sand prefere
ouvir Chopin com patchouli)
Não ouvis, lá fora, os acordes do povo sufocado
As execuções carecem de âmbar ou baunilha
Cheiram a carne assada. devoram
a liberdade absoluta.
Marília Miranda Lopes é uma escritora e cantautora portuguesa. Até ao momento publicou as seguintes obras: Framboesas (Teatro para a infância, ed. de autor,1996), Geometria (Poesia, Ed. Autor, 1998); Templo (Poesia, Colecção Tellus, nº10, 2003); Duendouro – Era uma vez um rio… (Teatro – Edições Afrontamento – livro incluído no Plano Nacional de Leitura, 2007), Castas (Poesia, Ed. Cadernos Q de Vien de A Porta Verde do Sétimo Andar, Galiza, 2012), Victorianas (Poesia, Editora Labirinto de Letras, 2015), Castas – 2ª edição (Poesia, Ianua Editora, Madrid, 2019), Procura a Ática (Poesia, Ed. Labirinto, 2020) e Os electrões também devem ter alma (Poesia, Ed. Exclamação, 2021, com ilustração do Arquitecto Álvaro Siza Vieira). Encontra-se representada em antologias e revistas literárias. MML é sócia da Sociedade Portuguesa de Autores e do P.E.N Clube Português. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses) pela F.L.U.P. É professora de Língua Portuguesa do 3º Ciclo e do Ensino Secundário, autora de canções em diversas peças para a infância, levadas à cena pela Filandorra-Teatro do Nordeste e compositora/intérprete na banda Destinatus Obdura.
Nota editorial: Estes 5 textos fazem parte do livro «Victorianas» que teve recentemente a sua segunda edição bilingue (ISBN: 979-13-88040-), com tradução para espanhol do poeta Javier Díaz Gil.











