7 poemas de Adrià Targa
Nota do tradutor
O poeta catalão Adrià Targa confiou-me uma selecção ampla de 33 poemas, da qual nasceu a presente escolha, agora publicada na Quiasmo. Esta pequena mostra procura aproximar o leitor português de uma voz singular da poesia catalã contemporânea, cuja escrita entrelaça a filiação clássica, a tensão do desejo e a precisão verbal num fulgor contido, atento ao corpo, à forma e às zonas mais incandescentes da linguagem.
I. Aquele dia que há-de vir
Quando beijares uns lábios que não serão os meus,
quando amares a mulher que nunca pude ser,
apenas desejarei que sejas um desfiladeiro
para eu me entregar à morte, caindo aos teus pés.
Não te darás conta, mas terei apodrecido,
e já não valerá a pena que te preencha o oceano:
tu nadarás distante no mar do bem-estar,
e eu terei morrido por ti, lâmina do esquecimento.
Nunca te terei possuído. Tu nunca me terás sentido.
É bem triste a vida do mudo despojado
*
II. Sem ti
Houve um doce momento, durante a conversa,
em que ambos nos calámos. E os teus olhos
diziam-me mais do que nunca. Do mesmo modo,
eu tentava falar-te sem palavras.
E o silêncio absoluto do mundo, então,
enchia-se com o teu sorriso. De repente
soube que algo estava a acontecer,
algo simples. Como o amor.
Abraçaste-me e dei-te, sincero,
as pulsações do meu batimento nervoso,
esperando que se confundissem com o teu.
Queríamos um beijo, mas afinal
voltei ao quarto, conformado
com um adeus e um olhar demorado.
E não houve beijo. E o sentimento
veio parar todo a este poema:
os meus lábios a beijar-te sem ti.
*
XX. Os mortos
Por um momento, enquanto tomo duche,
passam-me pela cabeça os meus mortos: o Fran, a tia Carme.
Ele: um jovem poeta de trinta anos,
mal chegou a provar o néctar da vida.
Conheci-o assim, por acaso.
Era bonito como poucos. Inteligente. Tinha
humor e encanto. Toda a gente se teria apaixonado
por ele: um herói campestre, que só colhe flores.
A tia, uma grande vida desgraçada
levava-me em criança muitas vezes ao campo.
Íamos colher pequenas flores lilases,
campânulas, ou quem sabe que nome tinham:
para nós eram coelhinhos. À frente
da velha parcela abria-se um pequeno bosque,
e entrávamos por ele. Ela guiava-me até
a clareira onde cresciam flores lilases.
São duas mortes, nada têm a ver uma com a outra,
mas hoje, enquanto me lavo, assaltam-me, acometem-me,
e eu quero-os tanto, e não derramei lágrima alguma,
e quero-os tanto, e não tenho nada a dizer.
***
Que um dia alguém imagine o meu nome, um segundo apenas,
enquanto a chuva cálida ilumina o seu rosto,
que um dia eu me misture com outras percepções,
que um amigo, um sobrinho, me recorde, fugaz:
isso vale mais do que monumentos e templos.
Que uma mente me una em labirintos belíssimos
que nunca conhecerei: o seu cérebro obscuro.
Não era isso o que queríamos deixar? Se não, o que resta?
Tia, Fran: sois dois nomes num abismo estúpido.
Lá onde todos havemos de cair, chapinhai, antigos.
Um nome não diz quase nada do que fostes. Conheço
a hora terrível, não por mim, mas pelo que me contaram.
Quero fazer-vos uma grande homenagem, e as palavras
tornam-se pequenas como um brinquedo
que eu poderia engolir: não indicado a menores de três anos.
Pois bem, engolirei a garganta se for preciso.
Pois bem, hoje também era um dia para o amor.
Fez-se um dia esplêndido nas praias de Tàrraco.
Ao cair da tarde pensei em vós.
E segui com a vida, porque amanhã trabalho.
E esfolei as vossas duas existências
com a ajuda de cinco letras, ou de seis,
e ajudam-me a viver um bocadinho mais.
***
Ninguém sentirá a minha falta. Eu sabia-o
desde o momento em que vim a esta triste existência.
Habituamo-nos a uma pedra
no passeio de cada dia,
e habituamo-nos a uma não-pedra
num caminho por onde nunca passeámos.
Queria… Que queria? Ser recordado? Asneiras!
Queria que algum homem, a esta hora, tomasse duche já tarde,
que secasse o cabelo com uma toalha cor-de-rosa,
queria que pensasse: bem, hei-de fazer um poema,
dos meus mortos, dos meus vivos. Mais um gole de cava.
Queria que agora alcanças o cume das perfeições.
Quero-te a ti, morte viva: oh Fran, oh tia Carme.
*
XXX. Mel
Queria encher-te os lábios de mel branco,
o meu mel nos teus lábios que riem,
colocada ali como o dedo que diz: cala.
E beijar-te-ei, porque quero um pouco,
enquanto sorris (tens a boca de um anjo!)
e levantar-te-ei, como um homem que puxa
outro homem com os braços, e assim o salva
de si mesmo, do mar ou do abismo,
e acariciar-te-ei o cabelo, a face
esquerda, que é a direita de quem te olha,
que é como saber se um caminho sobe ou desce,
que é como saber se dois homens se amam.
*
XXVIII. Tam gratumst tibi
Se voltares a mim com o meu livro,
como não hei-de amá-lo? Se te venho à mente
e dizes: pois nunca tinha pensado nisso,
que tolice, mas agora
imagino a tua voz a ler
constantemente, e saber isso emociona-me:
que posso regressar a ti sempre que quiser.
Se dizes que as palavras ficarão,
irei a tua casa e tirar-te-ei o meu livro,
e talvez fosse melhor nunca o ter escrito,
e que de mim te fique apenas a carne,
e se a carne não puder ficar,
que te fique a ausência, pois não quero
consolar-te; porque, que farei eu
então, com esse estranho que te falará
como se fosse eu? Não o odiarei muito mais?
Quando os dias crescerem como as unhas de um morto,
quando há anos não dissermos palavras,
não te deixarei encontrar-me, nem sequer
nestes versos: tê-los-ei queimado
com o último beijo ou com a derradeira lágrima,
pois não quero invejar o meu maldito livro,
que ele fique contigo e eu fique sabe-se lá onde.
Devolve-me este poema quando o tiveres lido,
vem e queima-me as mãos e as artérias,
não serei eu quem fala, não sou eu este que fala,
não vês que é um engano, que este poema
que acabas de ler nunca existiu?
*
XXXI. Praça do Pedró
A minha testa, para ti, deve agora ser
como aproximar-se, de avião, do árido cenário da Ática,
sobrevoar
montanhas solitárias, alguma aldeia
que deve ser algo vivido por um estranho,
uma experiência, um amor,
onde nunca porás os pés.
o meu rosto, para ti, deve ser isso.
e para mim o teu, quando tiras os óculos
numa praça rodeada de pombos, numa tarde de abril
os olhos tornam-se-te grandes, grandes como duas luas
ou como dois bagos de uva negra.
para mim o teu rosto parece-me que nunca lá estive,
e que nunca lá irei, a esse lugar,
nem consigo imaginar como será chegar,
mas basta-me o teu rosto e,
enquanto falamos,
sobrevoo-te.
*
XXXIII. Sou este conjunto de circunstâncias…
Sou este conjunto de circunstâncias
que poderiam ter feito de mim um grande poeta.
Gastei nelas alguma palavrinha.
Alguma coisa, sim, vivi: as ânsias
de um amor (não sabia se chegava
ou se outra vez me enganava a pressa),
e soube que a vida se desarruma
por causa de uns olhos. Quis fazer poesia
quando entendi que a morte provoca
que me restam treze anos até aos cinquenta,
e isso não me diverte nada. Preocupa-me
que me tenham dado apenas esta boca
para beijar e para cantar, que seja tanta
a morte, que nenhum poema a ocupe.
Adrià Targa nasceu em Tarragona, em 1987. Passou a infância e a adolescência entre o bairro de Sant Pere i Sant Pau e Tarragona, onde frequentou as aulas de poesia de Lurdes Malgrat. Estudou Filologia Clássica na Universidade de Barcelona, enquanto trabalhava na organização das actividades culturais da residência Ramon Llull. Aos vinte e um anos publicou L’exili de Constança (2008), título inspirado no possível exílio imaginário de Ovídio. Seguiram-se Boques en calma (2010), Ícar (2015), Canviar de cel (2021), Acròpolis (2024) e Arnau (2024), este último uma novela em verso sobre o último dia de vida de um homem de trinta anos, assediado pelos fantasmas do sexo, da droga e da poesia. Recebeu prémios como o Gabriel Ferrater de Sant Cugat, o Vicent Andrés Estellés de Burjassot, os Jogos Florais de Barcelona e o Prémio da Crítica de Poesia Catalã (2024). Dedica-se ao ensino do grego e do latim.











