As funerárias nunca vão à falência I Ana Paula Jardim
As funerárias nunca vão à falência. O negócio da morte é sempre rentável porque os clientes não acabam. E há sempre fiador. Podemos fazer a mesma estrada vezes sem fim. Conhecer as lombas, os buracos, as descidas e colinas. E até o batuque das rodas no alcatrão a produzir uma melodia estranha. Debaixo dos nossos pés. Ver carros a passar ao lado. Aviões a descolar por cima dos nossos tejadilhos adormecidos. Somos livres e não somos. Que quando vimos ao mundo não é por decisão do próprio, mas alguém decidiu por nós. E depois nem sabemos o que fazer com isso. Pensei nisto enquanto olhava absorta pelas janelas. A ver rostos desenhados no horizonte. A dizer alguma coisa que não conseguia ouvir. Porque estava muito vento. Foi então que o insólito aconteceu: olhei para o lado e vi um carro funerário. Cortinas abertas. Vidros um pouco opacos. E lá dentro uma caixa com alguém estendido. Calado. Que onde circulam os vivos num frenesim constante também circulam os mortos já parados. Tudo misturado em faixas diferentes. O morto em marcha lenta porque não tem pressa de chegar a lado nenhum. Os vivos cheios de pressa para chegar a todo o lado. É isto. O mundo é uma imensa faixa de rodagem, de destino incerto e sem sinalização que nos salve do absurdo. Tudo a circular a ultrapassar a vociferar. Já o morto nem se dá ao trabalho de espreitar. Mais à frente passei por um camião cheio de suínos a caminho do matadouro. Para serem abatidos. E um cheiro a estrume no ar. Livres? Não creio…
Entras na mesma estrada do costume num regresso que conheces de cor. A luz é que é diferente. Vai desaparecendo por entre as colinas que avistas da janela fechada. É ainda dia sem o ser. Percorres um pequeno pedaço de quilómetros que vai desde a rotunda que fica perto da casa da tua infância até a um atalho que dá acesso à grande pista de alcatrão, com duas faixas e uma cancela que não abre se não retirares bilhete de uma máquina com uma voz mecanizada. A tua memória fica presa num carro que seguiu em frente, antes do desvio, quando ainda não pagavas as viagens e os teus olhos apenas viam as copas das árvores e lugares cujo nome não conhecias porque o banco era largo e o teu corpo pequeno não chegava ao tablier. Afundada no couro, levantavas a cabeça e olhavas como podias. Ias te entretendo a ver copas, ramos e bandos de aves que sempre cruzam os céus. Alguns parados em fios. Como sentinelas. Às vezes ficavas de joelhos e vias a paisagem a andar para trás. Essa era a estrada antiga. A que fazias sempre de costas para o futuro. Desconhecias que esta seria a viagem que irias repetir durante toda a tua vida. Num ir e voltar incessante só que em paralelas diferentes. Entras na A1 e deixas o IC2 que a nossa vida não é mais que alguns desvios que fazemos não por escolha, mas por necessidade. E no caso paga-se. Ficas rodeada de escuridão e de passageiros que rodam de faróis acessos e máximos ligados. É como uma corrida de cavalos em que chega primeiro o que tiver os cascos mais velozes. Olhas as sombras das árvores que ladeiam as bermas e imaginas pássaros noturnos que se escondem nos galhos. Sentes que nos observam por entre a folhagem à espera que o dia amanheça e o ruído cesse. Junto aos railes avistas marcas de derrapagens de pneus por excesso de velocidade. Debaixo do alcatrão ressuscitam lázaros, mortos por azar na hora errada. Caminham ao nosso lado como zombies, numa multidão de gente amputada e escavacada e erguem avisos aos vivos que os ignoram. De quando em vez há estações de serviço para abastecer o carro e o estômago. Têm nome de pássaro o que não se compreende. Os pássaros não morrem atropelados e os céus não tem sinais de trânsito. Quando muito são caçados ou caem a pique por cansaço. Uma chuva miudinha começa a cair, ficam os vidros molhados e a visão baça. Acendes um cigarro e abres a janela. O ar de dezembro gela-te o rosto. Reparas nos painéis luminosos pendurados em écrans e que no escuro se leem melhor. “Com chuva modere a velocidade”. Ninguém liga. Todos temos pressa de chegar para recomeçar o tédio e a rotina. Perto da grande urbe grandes painéis com promessas da terra prometida. Canaã Vã. Mulheres muito belas penduradas. Sorriem. Caladas. Postes de sinalização lançam luzes de navegação aos cavaleiros do apocalipse que invadem os céus. Pedem autorização de aterragem à torre onde se sentam os controladores aéreos. Um desassossego a circular em baixo e em cima. Cada um na sua rota para evitar colisões. No início da segunda circular a porta de entrada do aeroporto. Gigante e envidraçada onde estou, sozinha, à espera de fazer o Check-in num voo sem cartão de embarque.
Ana Paula Jardim é poeta, escritora e leitora. Nasceu em Coimbra e vive em Carcavelos.











