“A mestiriosa fraqueza do rosto humano” I Poesia de Filipe Campos Melo
A mestiriosa fraqueza do rosto humano
Não compreenderás a misteriosa fraqueza (que te confronta)
Não reconhecerás sequer o rosto
Não distinguirás, em difusa bruma, nenhuma utopia (evidente)
Nem uma única aspiração
Entenderás que existes, existes apenas,
E que, brevemente, também essa existente continuidade cessará
Sentirás, então, que presságio algum te estava destinado
E que era a ti, somente, que incumbia determinar o caminho
(Exceptuando, talvez, os contornos dos atalhos incontornáveis)
Perceberás, tardiamente, a instabilidade do percurso que percorreste
Escutarás o progressivo ruir dos territórios (que não poderás deter)
A iminente insurgência de um tempo absurdo
Como Sartre, compreenderás a frágil existência do destino figurado
Ser Nada, senão a razão dialética de uma responsabilidade crítica
Recordarás, enternecido, a candura inaugural
E, por um brevíssimo momento, serás o tempo pleno
A remota idade, a vida remotamente feliz
A época precedente à divergência das faces
Perceberás, mais tarde, a debilidade do sonho humano
Sentirás o progressivo desfazer dos fragmentos (que não saberás reter)
O gradual elevar do rosto inanimado
O levantamento de um tempo onde nenhum regressivo caminhar Te poderá regressar
Da vergada silhueta que (unicamente) subsistirá
Não reconhecerás sequer o rosto
*
Ermos brandos e lápidos lírios brancos
Sobre os ventos incompletos
Sobre os sossegos agrestes
Sobre as metáforas inconcludentes
Obscuridades rubras e rumorosas intermitências
Sobre os sonhos ocultos
Sobre os percursos ocasionais
Sobre as convulsivas dissolvências
Ermos brandos e lápidos lírios brancos
Só vozes vazias sussurrando causal contradição
Só raízes dispersas enraizando tardias essências
Minha rara claridade
Minha tão breve lucidez
*
à i/mortalidade
Se fôssemos centro seríamos semente dentro
Seríamos certamente uma singularidade
Uma detonação circular irrompendo inesperada
Um suicídio quântico afrontando a probabilidade
E se essa singularidade nos unisse
Seríamos certamente o imprevisto evento
O clarão mais distante da uniformidade
Uma luz luminar irradiando do centro, dentro ensombrando a luz angular
Se fôssemos centro seríamos por dentro semente
Seríamos infindavelmente
Uma singularidade sobrevivendo à i/mortalidade
*
O TRAÇO VERT|CAL DE UM Círculo Inacabado
|Do tempo |vasto| a mais sucinta ilusão|
A ordem das coisas é catastrófica
E incógnita é | sua dispersa disposição
A causa das coisas evola-se em sua intangibilidade
Assim |insondável| permanece a procedência que causa
E assim permaneço |num cíclico ressurgimento
No traço |vertical| de um círculo inacabado
O pretérito é princípio | na incerta medida do passado que lhe sucede
|No antepassar da desordem |que |ordenadamente| o persegue
No interior de um círculo inacabado| concebe-se|circuncêntrica | uma irregular espiral
Numa dialéctica fragmentária|o tempo tangencial descreve-se numa infindável circunferência
|infinitamente fragmentada
|dubiamente tangente
|Do tempo |devastado| o mais longo rasto|
Procedo de uma idade procedente
Subsisto |num deslocamento inerte
Na perenidade |remota| de uma demora circular
No crítico reordenamento do tempo |inevitável|
*
Um outonal tremor de abandono
Havia do tempo uma idade uma secreta urgência uma ausência por habitar
Havia um passo estruturado percorrendo
Uma essência estrutural
Havia uma ideia
Uma utopia inebriada num lirismo de olhar
Depois vieram as chamas as farsas os dramas
A lírica tragédia de uma voz insana
Vieram os fogos os incêndios a combustão
Invariadamente vieram vezes vazias vazias várias vezes vieram
Onde havia um luminar andamento há agora um tropeçar
Medos arvoredos relevos
Densos penosos profundos
Uma colisão de destroços que fissura as ruínas de um mundo devassado
Fragmentos sombrios absurdos vítreos num quebrar de espelhos
Há uma descrença lenta que dentro adentra
Um outonal tremor de abandono
Um instável equilíbrio no desequilíbrio de um grito
Digo recolhimento num silenciar de tumultos e ascendo à lírica lucidez da loucura
Digo caminho num trilhar de palavras e descendo à fulgente insânia que me sustenta
Ao limite do poema
Se é sombra o que escrevo se negro é o tom do verso
Na sombra me inscrevo da escuridão me confesso se assim enegreci
Às vezes recuso às vezes refuto às vezes contesto
A labareda que cerca a insone lamúria o dolente infortúnio
A silenciosa indolência e a silente desistência
Este indigente perecimento ausente informulado inabitado
Recuso este impercetível alinhamento de proposições
Este esboço de linguagem onde me resto palavra
Inflexo poema que não endireita
Palavra-fronteira talvez território
Se de mim já não depende
Se de mim se escapa
Recuso principalmente este canto confuso e esta verve perturbada
Esta oração na pena fecundada
Este letárgico dissenso em melancólica dissensão
Este tempo dizendo
nada
*
Da certeza plana
Da certeza plena resta apenas a ignorância absoluta
A firme convicção de que somente a dúvida é ampla e extraordinária
(A incerteza é profundamente vasta, inteiramente enigmática, incertamente explicável)
Percorrendo demoradamente a negrura do tempo, questionando-o incertamente iluminado
Compreendo, talvez, o aparente desentendimento da existência angustiada
Sobre a certeza plana pairam fragmentos dúbios
Convencimentos ambíguos distorcendo o horizonte de um mundo imaginário
Desconstruindo a oblíqua arquitectura da realidade suposta
Da evidência plena sobra apenas a absoluta divergência
A concrecta demonstração de uma indeterminação abstracta
(Aparentemente compreensível, convenientemente inexacta, evidentemente inexplicável)
O entendimento provém da incerteza e da sua sistemática interrogação
Filipe Campos Melo, Nascido no Porto, Portugal. Impróprio Poeta, dele se diz cedo ter cedido ao mundo as madrugadas e à Poesia as sombras. Percorreu longas noites na Universidade de Coimbra. Consta ter editado e de tudo o mais se desconhece – é insondável a distância de um abismo que se mede numa escala de fissuras – Assim disse Mallarmé – nomear um Nome é banir a maior parte do prazer suscitado por um Autor porquanto esse prazer consiste num processo de revelação gradual…










