Entrevista (II) I Sérgio Coragem: “O trabalho do ator muitas vezes é associado ao discurso e às palavras, mas também há muito discurso sem as palavras”
Na segunda parte da conversa co actor Sérgio Coragem poñemos o foco na longametraxe “O riso e a faca” do Pedro Pinho, estreada na sección Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2025 con inmenso aplauso da crítica. Un filme en todos os sentidos monumental que lida con moitas cuestións fundamentais do noso tempo.
O filme tivo un proceso de produción moi extenso. En que momento Pedro Pinho che dixo “vou facer um filme e quero que ti esteas dentro do filme”?
Nós conhecemos, por ocasião dessas conversas, o Pedro Pinho em 2017 e, pronto, demos bem, o Pedro é uma pessoa espetacular, nós também somos fixe, e foi bom. E depois, passado um ano e tal, muito perto de 2019, ou já em 2019, a Joana Bravo, que na altura estava a trabalhar na produção do filme, na pré-produção, pré-pré, pediu-me a amizade no Facebook e mandou-me uma mensagem a dizer que o Pedro Pinho gostava muito de falar comigo, se eu tinha vontade de ter esse encontro. E eu disse obviamente que sim. Não pensei que fosse para uma audição do filme, pensei que fosse, sei lá, uma conversa sobre um assunto qualquer porque, como eu estou no teatro, se calhar ele queria saber alguma coisa ou se eu conhecia alguém; bem, não sei. O Pedro perguntou-me se eu podia encontrar com ele na Casa do Comum, quando estava ainda o edifício com a organização antiga, mas prestes a começar as obras. Eu fui lá, encontrei-me com ele e com o Tiago Espanha numa conversa filmada, filmaram-me a mim, a ter uma conversa sobre muitos assuntos. Lembro-me que a primeira coisa que ele me disse foi que ia ser uma conversa como se fosse uma audição. Depois pediu-me para eu descrever a minha vida em sete minutos (se calhar estou aqui a contar segredos que não devia, mas não faz mal, tenho todo o gosto em partilhar contigo e com o mundo inteiro). E depois de eu ter descrito a minha vida em sete minutos, começou-se a fazer uma conversa mais de pergunta e resposta. Lembro-me de termos falado sobre racismo, por exemplo, lembro-me de termos falado sobre família. No final dessa conversa, ele perguntou-me se eu tinha alguma coisa que me prendia a Portugal. E eu disse, depende, acho que não. Tem família, tem amigos, tem amores, tem uma vida, não é? Claro que há sempre coisas que nos prendem a Portugal, mas à partida, não, depende. Porquê? E ele disse-me, “é que o filme vai ter uma rodagem muito longa na Mauritânia e na Guiné-Bissau”. E eu disse-lhe, ah, OK, então esquece, porque eu tenho medo de andar de avião. Pronto, com muita pena minha, espero que o filme corra muito bem, que encontres a pessoa escolhida. Mas eu aviso-te já que eu não vou, porque eu tenho medo de andar de avião. Viajei muito pouco na minha vida até esse dia. Tinha ido uma vez para Londres em 2006, 2007, foi a passagem do ano. E tinha sido convidado ao Conservatório de Atores de Lyon e custou-me imenso, e portanto não tinha intenção nenhuma de voltar a enfiar-me dentro de um avião.
Para além de que também não gosto muito de fazer turismo, acho que é uma coisa que já não existe sequer e é uma perda de tempo e de muito esforço e muito stress. Então não sou muito fascinado por viagens. Isto estou a falar na altura, estou a falar antes de ter sido eu o escolhido.
Acho que eu ter dado esta resposta ao Pedro fez com que ele achasse que eu poderia mesmo ser esse personagem. Precisamente por causa dessa questão de “pouco mundo”. E isso era importante, acho eu, para o Pedro e para quem escreveu o filme e para quem estava a produzir o filme, porque a ideia era que o personagem fosse um pouco assoberbado por aquilo que via. Quase um olhar como escreveu o Vasco Câmara…
Virxe.
Sim, um olhar virginal. Então eu penso que a partir daí houve qualquer coisa no Pedro que disse “talvez seja esta pessoa”. Depois houve um processo muito longo de escolha da personagem, houve duas semanas intensivas de jogos teatrais com a Carla Galvão, atriz dele no filme A Fábrica de Nada, que coordenou essas sessões com vários atores que iam ser a minha personagem. Foram duas semanas incríveis, muita descoberta e de muita criação em tempo real de coisas que depois não serviram para nada, mas nesse sentido serviam muito para nos conhecermos, de interação, jogos de confiança, foi tudo muito interessante. E depois o Pedro, passado muitos meses, ligou-me a dizer que queria se encontrar comigo e disse-me pessoalmente que era eu. Fiquei muito assustado porque implicava as viagens todas e eu já estava cheio de medo do avião; depois implicava uma experiência num lugar onde eu tinha conhecimento nenhum, ou quase nenhum…
Nesa altura tiñas xa algunha sospeita de que o filme ía ser moi grande en termos de dimensións? Dixéranche que a rodaxe ía ser longa, mais tan, tan longa?
Sim, foi precisamente nessa conversa que ele me disse mais ou menos o programa da viagem, do tempo, do calendário e de algumas cenas mais complexas que portanto íamos ter de falar muito seriamente sobre isso. Falo das cenas de intimidade e de outras que tinham a ver com as ONGs, por exemplo, e sobretudo falámos desse pormenor que acabou por ser uma grande chave para o filme, que é a metodologia do Pedro e o facto de filmar o máximo possível sem grande construção de personagens, sem textos. Eu nunca tive o guião, por exemplo, nunca li o guião, nunca teve nas minhas mãos. Não tive noção nenhuma do que é que me esperava, apenas imaginei que fosse um desafio muito grande e fiquei um pouco assustado porque de repente eu vou ser a cara de um filme muito grande, de um projeto altamente complexo, com questões muito difíceis e depois as viagens e tudo… E eu pedi-lhe alguns dias para refletir porque eu sou muito cuidadoso com isso, gosto de ser honesto com as pessoas e pedi-lhe uma semana para pensar, falar com a minha família e com os meus amigos, refletir também eu no meu canto e depois bora, vamos.
Estaba a pensar que, por outro lado, o método de Pedro Pinho casa moi ben co método da vosa compañía. Ti estás máis exposto porque tes menos control sobre o filme e a produción, mais o método é parecido, non?
Sim, eu sinto-me mesmo muito à vontade com a forma como trabalhamos no filme, muito. O nosso trabalho tem sido muito desenvolvido a partir dessa ideia de explorar a falha e o erro e muitas vezes isso provoca uma verdade qualquer, é uma coisa que se vê. Foi um sonho para mim trabalhar assim, foi lindo. Conseguir também dialogar com o outro dessa forma, mesmo com a presença da câmera. Claro que a presença da câmera é sempre muito forte, é uma imposição, controla, vê-nos, observa-nos, examina e nós sabemos que ela lá está, isso não é possível ignorar, mas o que acontecia com o Pedro era que nós discutíamos previamente, uns momentos antes, o que é que iria ser a cena e o que é que ele estava a pensar, mas depois era muito importante que nós, os atores e aqueles com quem íamos fazer a cena, que muitas vezes eram atores pela primeira vez, conseguíssemos também introduzir o nosso discurso, o nosso pensamento. Ou a ausência de discurso também vale, e vale muito para o Pedro, vale muito para este filme, a questão do silêncio e da observação, porque esse olhar no fundo que eu tenho no filme é o grande objetivo do Pedro. Mais do que filmar o que se passa na Guiné e o que se passa na Mauritânia, o que se passa no deserto e na floresta, mais do que observar isso através dos olhos do Pedro, é observar como é que nós observamos.
Não havia assim tanta liberdade porque o cinema é uma máquina pesada. E depois era película, ainda torna menos flexível todo o manuseamento do material, mas a ideia era que a câmara pudesse seguir-nos, ir atrás de nós, nós levarmos a equipa connosco, mais do que o contrário. Ainda assim, mesmo sendo pesado, havia muita liberdade. A certa altura comecei a refletir bastante sobre essa ideia que era de estar sozinho do lado de cá, muito tempo sozinho, a ver montes de gente à minha frente, em barcos, na lama, na terra, ao Sol, debaixo de árvores, e eu do outro lado também. E de repente há qualquer coisa que começa a trabalhar, arranca, vai, e depois as conversas, as ações podem sair daquilo que é o previsto, e quanto mais isso acontecer, melhor, porque era essa a verdade que eu acho que o Pedro estava à procura.
“A minha personagem abre portas
sem nunca as fechar.”
Falabas de que máis ou menos foi nalgún momento de 2019 cando o Pedro che convida expresamente a facer o filme. Como foi despois o proceso? Porque entendo que a pandemia se cruzou no medio e aí houbo um longo parón, especialmente problemático para un filme destas dimensións. Como correron estes anos intermedios?
Nós deveríamos ter começado a rodagem no fim de 2019 e depois passar para 2020, e foi tudo adiado dois anos, primeiro por causa da pandemia e depois por causa também de outros problemas pessoais que aconteceram, mas principalmente por causa da pandemia. Houve muitas sessões de ensaios aqui em Lisboa, nas quais eu estive quase sempre, tive sessões de ensaios com a Cleo e o Jonathan, por exemplo, depois tive uma sessão de ensaios com o Bruno Zhu, que é a pessoa que aparece na versão longa, depois tive uma sessão de ensaios com o Nástio Mosquito, que é aquela figura que quer montar uma burguesia e fala muito dessas contradições, que é um pilar, a meu ver, do filme. Toda essa discussão é um dos pilares do filme. Tirando essa fase da pandemia, onde houve realmente uma estagnação, a seguir a essa fase começámos a fazer estas semanas assim. Muito interessantes porque eram sessões de conversas, de discussões sobre os temas mais críticos do filme, onde cada personagem tinha a sua participação. Então aí nós entrávamos mais concretamente eu, o Pedro, o Tiago, no pequeno mundo da outra personagem e fazíamos ali um trabalho quase a três com outras pessoas. A sessão com a Cléo e com o Jonathan já foi uma coisa mais de sermos um núcleo e o resto do pessoal de fora e nós ali explorarmos as possibilidades a nível de interação dos corpos, de interação dos discursos, de interação dos olhares… Lembro-me que pouco tempo antes de irmos para a Mauritânia fizemos um jantar com quase toda a gente da equipa que ia participar no filme aqui em Lisboa. Depois eu tinha de ir conhecer o edifício do Guggenheim por fora, porque sou fascinado pelo edifício, antes de ir [a África] porque não sabia o que é que ia acontecer. Então fui mais um amigo até Bilbao conhecer a cidade, ver o museu por fora, também fomos lá dentro, mas a minha cena era ver aquele edifício; foi em dezembro de 2021, estava um Covid terrível e havia muito pouca gente nos museus e foi incrível ver aquelas esculturas do Serra. E depois todo um mundo novo, diferente, estava à minha espera e não sabia mesmo o que é que me esperava porque nem sequer fui ceder à tentação de ver imagens, nem computadores, nem livros. Eu comprei um livro que o título é Guiné-Bissau aujourd’hui e eu só abri o livro depois daquela aventura toda.
Polo filme que é e pola túa participación no filme, entendo que ti estás traballando practicamente todos os días da rodaxe, non?
Sim, quase todos os dias em que houve rodagem eu estive. Quando não havia rodagem foi porque eu fiquei muito doente na Mauritânia e portanto tive uma semana em que ficou tudo parado…
Iso foi a princípio, foi case nada máis chegar. Contárasme en Valladolid que estiveches para morrer alí…
É pá, totalmente, totalmente. Estou-me a rir agora, estou-me a rir agora porque, bom, foi mesmo forte… E depois o Pedro também ficou bastante doente na Guiné então houve ali uns dias também que não trabalhámos e pronto, nas folgas, sim, mas quase todos os dias até ao último dia.
Unha cousa asombrosa que ten O riso e a faca é que dentro do filme están practicamente todos os temas importantes do mundo contemporáneo: a cuestión colonial e pos-colonial, o capitalismo, o coidado ambiental ou a desprotección do medio ambiente, as cuestións de xénero e de identidade de xénero… está todo no filme. Non deixa praticamente nada fóra e afronta todas as cuestións dunha maneira moi audaz, non dunha maneira discursiva, non dá solucións. É un filme que fai máis pensar que sentir.
É verdade, é um filme que deixa muito caminho para a reflexão e isso é uma coisa que se vê nas conversas que eu já tive com o público em vários locais, não só aqui na Europa, mas também na Ásia, porque fui lá apresentar o filme.
Xa superaches o medo ao avión, entón.
Superei, superei. Não gosto nada, tenho medo ainda, mas vou ali com o medo e vamos a falar um bocadinho. Como o filme não apresenta soluções, como tu disseste, as pessoas têm logo muita ansiedade nos Q&A de fazer perguntas muito diretas, muito concretas. “Qual é que é o resultado do relatório”, por exemplo, no final do filme e muitas outras coisas, mas houve uma que aconteceu duas vezes e na Alemanha. Tanto numa cidade como na outra, as pessoas não queriam parar o Q&A; depois de três horas e meia, ficámos mais uma hora e teve de vir a organização dizer “já chega”. Houve duas mulheres jovens que me disseram o seguinte, “durante metade do filme, eu achei que tu eras insuportável, e que era muito difícil suportar estar a olhar para a tua cara, mas depois o filme mostra um lado mais complexo que eu não estava à espera”. E no fim pergunta-me, “como é que nós devemos fazer?” E eu disse-lhe, eu não sei, mas acho que a primeira coisa que a gente deve fazer é pensar bem, pensar muito, porque são questões muito complexas. E ter muito cuidado com coisas, por exemplo, a ajuda humanitária, com a nossa posição no mundo. Quando somos maus somos horríveis, porque somos os destruidores do mundo, e quando achamos que somos bons, que estamos a fazer a coisa boa, nós também não estamos. E, portanto, é preciso continuar a pensar. Debater com nós próprios a nossa posição no mundo. Para mim um filme não tem que ter nenhuma missão na vida, nem no mundo, nem nas pessoas, não tem. Para além de não ter essa responsabilidade, não sei se tem essa capacidade, e, portanto, para mim já é incrível ver o quão interessantes podem ser as reflexões a partir deste filme.
Gosto moito do filme, por suposto, mais gosto moito de algo que, para min, representa moi ben o teu personaxe. O teu personaxe non é un heroe, mais tamén non é un antiheroe, é unha persoa normal, unha persoa que está nun espazo, cunha paisaxe, cunha xente que produce unha fascinación permanente sobre el. Hai unha atracción e un descoñecemento, unha incomprensión de todas as forzas que están á súa volta. Esa idea da confusión, mais tamén de certo grao de aceptación -nada vai ter solución, nada se vai resolver- acho que é unha das camadas máis complexas que ten o filme. E é moi valiosa e moi importante a forma como ti enfrentas o teu personaxe. No cinema segue dominando a noción dos autores, da política dos autores. Pedro Pinho é un xenial autor e hai moitos autores xeniais no cinema contemporáneo, mais tamén é momento de reivindicar que agora mesmo no presente hai grandes actores e actrices en todo o mundo e que hai filmes que non serían o que son se non fose por eses actores. O Agente Secreto do Kleber Mendoça Filho é un filme extraordinario porque Kleber é un xenio absoluto, mais Wagner Maura é esencial, é capital no filme, é imposíbel imaxinar ese filme sen Wagner Maura. Nos filmes do Christian Petzold, os actores, a Nina Hoss, a Paula Beer, o Franz Rogowski, están sempre perfectos e son presenzas extraordinarias nos filmes. Paréceme interesante iso, porque é certo que os filmes os asinan sobre todo os cineastas, e que no fondo un actor é unha ferramenta para un filme, mais esa ferramenta pode ser boa ou pode ser mala, e ás veces é boa, e cando é boa o filme é maior. Creo que xa cho dixen en Valladolid: para min ti es o actor do ano, no sentido de dicir “este filme non o podo imaxinar con outro rostro, con outro actor”, para min claramente un exemplo diso é O riso e a faca. Tamén polas súas características, é infrecuente ver un filme no que a presenza do actor é total durante 3, 4 ou 5 horas, mais o resultado é incríbel. Se eu fose cineasta ou produtor, despois de ver O riso e a faca ti estarías no top máis alto de actores cos que eu gostaría de traballar. Non sei se é o caso, non sei se te están chamando moito para facer filmes…
Martin, obrigado por essas palavras que são mesmo muito gratificantes de ouvir. Não tenho assim muito mais para te dizer, fico até, como se diz no Brasil, sem jeito. Foi um trabalho muito intenso e foi o trabalho da minha vida. Relativamente a estar a ser chamado, não. Não tenho tido grandes contactos, mas eu estou muito feliz assim também. Ou seja, eu estou a dizer isto só para tu saberes, eu não me estou a queixar. Estou mesmo muito feliz com tudo o que o filme já me proporcionou, tanto antes da rodagem, durante a rodagem e depois da rodagem. O filme proporcionou-me experiências muito boas e uma dessas grandes experiências que este filme proporcionou foi precisamente Valladolid. Não vou dizer nenhuma mentira se disser que foi um dos festivais onde eu me senti melhor, onde eu conheci pessoas mais queridas. Tive a oportunidade de conhecer o José (José Luís Cienfuegos, diretor do festival), que pouco tempo depois nos deixou. Para além de que ganhámos um grande prémio lá nesse festival, a melhor filme, e tive o grande privilégio e alegria de fazer uma viagem de carro com o Pedro e de ir receber aquele prémio ao palco e de deixar a minha frasezinha no final para os gorilas.
Mas sim, eu concordo contigo, o trabalho do ator também é um trabalho importante para um filme e muitas vezes pode fazer um filme ser um bocadinho melhor. Só posso ficar contente por ver que esta rodagem conseguiu tocar algumas pessoas e algumas pessoas conseguiram ver e reconhecer não só o trabalho que envolve todas as pessoas do filme, mas também, claro, que me sinto bem quando reconhecem tudo aquilo que eu dei.
Non che vou pedir que contes a túa vida en sete minutos, mais si que contes como é para ti o teu personaxe.
Eu tenho uma referência para falar um pouco sobre a minha personagem que vem de um livro que o Pedro me pediu para eu ler. Ele pediu-me para eu ler dois livros, e eu li, e um deles é O Coração das Trevas, do Joseph Conrad. E a versão que eu li, a tradução que eu li, foi de uma pessoa que também partiu esta semana, do António Lobo Antunes. Ele tem um prefácio muito curto, mas muito, muito bom, sobre o livro e sobre a personagem principal do livro. Ele diz que é uma personagem que vagueia por territórios desconhecidos, cuja função para o leitor, neste caso para o espectador, é a de abrir as portas, mas nunca as fechar. Eu olho para a minha personagem e vejo isso. Vejo uma certa serenidade também nesse percurso, e vejo também uma personagem que, através dos silêncios, consegue comunicar tantas coisas que eu próprio me fiquei surpreendido ao ver como isso no filme tem tanto impacto. E isso é difícil. É difícil de fazer. Não estou a fazer um autoelogio, estou só a dizer que o trabalho do ator muitas vezes é associado ao discurso e às palavras, mas também há muito discurso sem as palavras. E captar isso de uma forma que nos consegue prender ao ecrã é uma tarefa que exige muito risco, e a rodagem deste filme é risco todos os dias, todos os momentos, mas também muito saber, ao mesmo tempo, para tratar todas aquelas imagens. Porque há um percurso dos filmes que é determinante que é a montagem. E aí o filme, nessa montagem, não fica a dever nada àquilo que foi a rodagem, porque foi também um trabalho muito arriscado, mas também com muito pensamento, e pensamento do bom. Mas sim, voltando à minha personagem, é essa pessoa que faz um percurso mais ou menos sereno, que arrisca bastante, mas que mantém uma consistência qualquer emocional, que abre portas sem nunca as fechar e que desaparece, desaparece. Não se sabe o que é que sucede a seguir. É um espelho também, ao mesmo tempo, dos nossos pensamentos, da nossa história. E é também, por fim, uma personagem que está à procura de um amor humano, só que procurar esse amor é um conflito enorme, é muito duro. Como dizemos aqui, é trabalho de campo: é na terra, é mexer na merda, é mexer na natureza, é mexer em ti próprio, é mexer por dentro de ti, é arrancar a pele. É isto. E estás disposto a isso. Mas sempre com uma coisa que eu acho bonita, que é um olhar sereno e um olhar cheio de…
De empatia, non?
De empatia, é isso. De carinho.
Cal era o outro libro que che pediu ler Pedro Pinho?
Olha, não me lembro do título, mas era uma tese de doutoramento de um autor sueco que fez uma dissertação sobre as atrocidades da colonização belga, da colonização francesa também, e depois ele traz os seus pensamentos e as suas reflexões sobre esses factos históricos.










