A finais de abril estréase en salas do estado español o filme do Pedro Pinho O riso e a faca, unha das obras maiores do cinema dos últimos anos. Esta escusa sérvenos para entrevistar o actor protagonista, Sérgio Coragem, a grande revelación do cinema de 2025. Esta primeira parte da conversa fala do seu labor teatral no seo da compañía auéééu. A segunda entrega, á volta do filme, será publicada nas próximas semanas.
A miña idea é falar de dous temas. Do filme [O riso e a faca, Pedro Pinho, 2025], mais antes de falar do filme, gostaría de falar máis do teatro. Do teu traballo no teatro, de como chegas ao teatro, e en particular da vosa compañía, que polo que percibo, tedes sempre unha orientación moi política nas obras que facedes.
O movimento politico da nossa companhia começa no primeiro pelo gesto, porque é um coletivo, sem hierarquias, e tentamos que o nosso trabalho seja o resultado de um conjunto de decisões que é tomado sempre com muita discussão, muita conversa, e em coletivo. E, portanto, avançamos um pouco em bloco, em todas as frentes. Na produção, na cenografia, na encenação, e vamos ajudando uns aos outros a construir os projetos de teatro e as encenações, muito a partir desse olhar próximo, um olhar pelo outro, quase uma solidariedade constante entre atores, de modo a conseguirmos alinhar aquilo que queremos fazer e de modo a conseguirmos decidir sempre com uma voz coletiva. Por exemplo, nós não acreditamos muito no voto, então não votamos nunca decisões, nunca há decisões por maioria. Pode haver uma decisão por desistência dos outros, ou por cedência dos outros, ou de nós, quando são mais difíceis de tomar, mas nunca votamos. O voto é um caminho muito curto, e muitas vezes, neste tipo de decisões, o voto pode ser precipitado também. Então, logo aí há uma série de gestos políticos que nós propomos a nós próprios, e depois nos espetáculos também, com o público. Desde logo gostamos de incluir o público nos processos de criação, porque abrimos conversas públicas durante o tempo de ensaios, e vamos conversando com o público também de uma forma a conseguir ter já um olhar exterior antes de apresentar o espetáculo. Usamos muitas vezes estas conversas como inspiração, para pensarmos também, além das nossas ideias pré-concebidas e das nossas cabeças, como elas funcionam, então o público começa cedo a fazer parte dos nossos projetos. E depois apresentamos um objeto, que muitas vezes é inacabado, cheio de falhas, com uma linguagem sempre à procura da experimentação. Acreditamos também nesse método de criação, que é a partir muito da experiência constante de novas propostas, no fundo, ideias que nos vêm, não temos uma linguagem, a nossa linguagem acaba por ser essa do erro assumido, do diálogo às vezes muito confuso entre nós, das nossas ideias que muitas vezes estão em conflito, porque como é óbvio somos todos diferentes, vimos de lugares diferentes, e portanto a nossa proposta é sempre um pouco assim.
En promedio, un ano típico, cantos proxectos conseguides armar?
Eu diria que em média um espetáculo. Às vezes conseguimos dois, mas tem a ver com uma questão de calendário, acaba por ficar no mesmo ano, mas vá de dez em dez meses que temos conseguido fazer um espetáculo grande. Depois existem outras atividades. As tais conversas públicas, por exemplo, já temos vindo a apresentar performances que também acompanham os projetos de criação como uma forma também de ir mostrando o laboratório às pessoas. Já fizemos na Casa do Comum, por exemplo, onde é o espaço da Ler Devagar, do Pedro Pinho e da Joana Pinho, que era do Zé Pinho, o pai. E também costumamos ter muitas reuniões privadas, fora do contexto público, durante o ano. Agora temos uma ideia de um projeto um pouco mais arrojado e maior no sentido de mudar também a nossa forma de trabalhar e também de viver. Há um projeto que agora estamos a tentar pensar para ocupar um lugar no Alentejo, perto da natureza, no interior de Portugal, e a partir daí desenvolver os nossos projetos, mas também viver onde nós vamos tentar trabalhar os nossos projetos. É claro que não sabemos se isso vai acontecer ou não, está muito no início, mas é um sonho.
E os proxectos, como agora a obra de teatro da Elfriede Jelinek, unha vez que estreades e están uns días no teatro, xa o dades por rematado ou os proxectos están sempre vivos e poden reaparecer un ano, outro ano, ou non?
Pode reaparecer. Quando estreamos um espetáculo, normalmente é por via de uma coprodução de um teatro grande. Depois dessa coprodução e depois de apresentar esse espetáculo nesse teatro, tentamos sempre ir a outros teatros fora de Lisboa. Nós, o ano passado, apresentámos um espetáculo que foi coproduzido pelo Teatro Nacional São João, no Porto, e agora vamos apresentá-lo este ano em Lisboa, em Aveiro, estivemos muito perto de ir ao Algarve, mas depois o projeto não foi escolhido, mas vamos tentando apresentar noutros lugares que possam fazer viver um pouco mais estes espetáculos, porque hoje em dia, como tu também deves saber, em Espanha deve ser parecido, os espetáculos têm pouca vida. E aqui é assim também.
O movimento político da nossa companhia começa primeiro pelo gesto, porque é um coletivo, sem hierarquias.
Porque fóra de Lisboa e Porto, que cidades teñen teatros máis ou menos activos, ou hai un público ou hai unha programación de teatro activa?
Sim, há várias cidades. As cidades mais importantes têm todos os teatros municipais, desde Braga, Guimarães… Braga e Guimarães são muito, muito grandes. São fortíssimos. Depois temos, mais no sul, no Algarve, há dois teatros muito bons também, com grande programação ou algum dinheiro, que é Loulé e Faro. Na zona de Lisboa, a Lisboa absorve muito da cultura da zona metropolitana de Lisboa, mas aqui no Seixal, onde eu vivo, está a voltar a ter muita dinâmica o teatro aqui no Seixal. Depois há a Guarda, grande teatro municipal. Torres Vedras também é muito bom. Santa Maria da Feira tem uma incrível produção de espetáculos e de programação. E nós vamos tentando, assim, alguns destes lugares para apresentar o nosso trabalho e continuarmos o nosso processo, que já leva, faz em maio deste ano, 12 anos que estamos juntos.
É fora de Portugal?
Sim, este ano 2026, quando terminar agora este espetáculo, vamos ter um bocadinho de tempo, vamos tentar investir na nossa primeira internacionalização. Acho que temos algum bom material para levar, por exemplo, à Espanha ou à França também. E vamos tentar a nossa sorte.
Que procuras cando vas ao teatro, como espectador?
Quando vou ao teatro, o que eu gosto de sentir é que eu estremeço por dentro. É como o amor, a pessoa estremece por dentro, mas eu no teatro vejo… Procuro muito algo que me faça mais pensar do que sentir. Que é uma coisa estranha, por exemplo, o cinema já é diferente. Porque o teatro é muito forte, é muito a presença, é muito potente, e isso já de si mexe muito com a pessoa que está a assistir. Comigo, por exemplo, às vezes até fico ofuscado, encandeado, porque estou a olhar há muito tempo ao mesmo sítio. Então começo a desfocar e eu quando começo a desfocar entre uma zona de pensamento que quando me faz estremer por dentro, quando me faz colocar muitas coisas que eu construí em dúvida da minha própria personalidade… é isso que eu gosto. E depois gosto de… de espetáculos com boas ideias. Eu gosto de boas ideias. Não sei qualificar muito melhor isto. Gosto muito do [Romeo] Castellucci, por exemplo, que é uma pessoa que tem um pensamento muito grande, elevado, e depois sabe mexer com muito dinheiro. E isso é uma arte também. É muito mais fácil fazer um bom espetáculo sem dinheiro.
Curioso iso que dis…
É claro que não é bem assim, mas quando há muito dinheiro é preciso ter muito boas ideias. Porque senão vamos ver uma coisa e dizemos assim: Ei, pá, então esta pessoa tem tanto dinheiro e apresenta isto? Mostra-nos isto? É preciso ter muito boas ideias. É preciso ter uma certa arte para trabalhar no teatro com muito dinheiro, então eu gosto muito do que ele [Castellucci] faz. E depois as imagens que ele provoca, eu gosto muito do efeito visual do teatro também. Ele tem uma estética muito avançada para a minha cabeça. E eu fico muito admirado.
Há outros projetos em Portugal. Por exemplo, eu gosto muito de alguns grupos que estão aqui mais da minha geração, porque eu acho que da minha geração e um pouco mais velhos conseguiram trazer uma frescura ao teatro que estava, a meu ver, um pouco a precisar de novas provocações. A seguir ao 25 de Abril houve uma grande revolução no teatro em Portugal e esses grupos, a Cornucópia, os Artistas Unidos, o Bando -O Bando, por exemplo, ainda produz espetáculos e são sempre grandiosos e bons-… esses grupos revolucionaram e agora acho que precisávamos de alguma frescura e ela está a aparecer. E, portanto, eu também gosto muito de ver algumas coisas aqui de grupos em Portugal. Claro que também gosto de dança; vou ver muito pouca dança mas também é algo que eu gosto de fazer. Cinema também. Estava-me a tentar lembrar de um encenador alemão que é o [Thomas] Ostermeier, que é outro também que sabe mexer com o dinheiro. São pessoas que têm uma cabeça, parece-me a mim, com uma grande amplitude. Têm muita visão. E os espetáculos são sempre muito bons. Eu vi aqui um Ricardo III do Ostermeier, assim, muito bom mesmo.
Falabas antes de que gostades de incorporar o público no proceso creativo, que facedes encontros, mesmo nos ensaios… mais como se organiza iso, como facedes iso?
Exato. Nós, quando estamos a ter uma ideia para um espetáculo, começamos por, muitas vezes, fazer uma pergunta dentro do grupo. Por exemplo, sei lá, o Miguel [Cunha]. Miguel, o que é que tu queres dizer? O que é que tu gostavas de dizer? Tens alguma coisa para dizer? Ou tens alguma pergunta para fazer? Começamos a conversa assim. O Miguel depois responde, depois perguntamos ao outro, depois aquilo já é uma conversa muito confusa. E chegamos, por exemplo, à ideia de que gostávamos de fazer um espetáculo sobre o conceito de trabalho. Aconteceu em 2015. Começámos este processo. Ok, vamos fazer um espetáculo sobre este conceito, o conceito de trabalho. O que é que é o trabalho? É um conceito? É uma ação? É o quê? E então começámos a pensar que podíamos fazer uma conversa com cinco sessões. Uma sessão por mês, imaginemos. Em que fazemos uma pergunta estúpida, básica. Sei lá. Por exemplo, lembro-me que no trabalho havia uma ou duas perguntas que ainda me lembro. Uma era: as férias libertam? Uma coisa assim. As férias libertam? Ok. Será que libertam? Vamos pensar nisto. Vamos buscar pessoas que nos ajudem a pensar nisto. E, por exemplo, nesse dia, para esse dia, convidámos um historiador que tinha algum trabalho literário sobre o trabalho. E convidámos o Pedro Pinho, e foi aí que eu o conheci, porque tinha acabado de estrear, em 2017, A Fábrica de Nada. E achámos que… Vimos o filme. Adorámos, ficámos assim, uau, que é isto? Brutal, filme incrível, com uma grande sessão de esclarecimento dentro do filme à mesa com uma conversa longuíssima que muito nos fez refletir. E dissemos, bora tentar falar com o Pedro Pinho e vamos convidá-lo para ele responder esta pergunta, de alguma maneira. E ele aceitou, reunimos, aceitou. Nós explicámos o que é que queríamos. E estas conversas tinham lugar na Livraria Ferin, na Rua Nova do Almada, ali em Lisboa, ao pé do Camões. E era ali na cave dessa livraria que nós tínhamos as conversas. Depois, a dinâmica da conversa é a seguinte. Nós, os auéééu, que é o nome do meu grupo de teatro, nós não temos intervenção nenhuma na conversa. Temos duas pessoas que trabalham há alguns anos connosco nesta parte mais teórica sobre o teatro, da filosofia, da literatura, da teoria, que são dois professores, um deles foi nosso professor desde 2011, tornou-se nosso amigo, é o David Antunes; e depois um outro que conhecemos uns anos mais tarde, que é o Francisco Luís Parreira, que também está muito ligado à literatura, fez muitas traduções, escreve para teatro e, pronto, é uma enciclopédia filosófica. Então, nós combinamos com eles, porque eles vão ser os mediadores desse conversa, com os convidados, e depois abrimos ao público e depois está toda a gente a falar o máximo possível na confusão, na maior confusão possível, porque quanto mais confusão, melhor também. Nesse ano, por acaso, nós até tivemos um apoio de um restaurante de Lisboa, que nos forneceu espumante e água para termos nas conversas, e depois ofereceu-nos o jantar aos convidados e aos mediadores. Então saímos dali, íamos para um restaurante, e era assim um momento muito bom, e nós ainda continuamos a fazer isso. Para este projeto não, o dos contratos, porque não tivemos tempo, tivemos o Woyzeck no Porto em outubro e este começou logo a ser trabalhado, não houve tempo, mas vamos continuar, sim. É assim que funciona.
Martin Pawley. Conversa por videoconferencia entre Galiza e Portugal o 10 de marzo de 2026, terza feira.





