Dez poemas de Ricardo Marques
Fotografia do autor por Raquel Nobre Guerra.
WEATHER FORECAST
Acreditar na vida como
acreditamos no boletim
metereológico de todos os dias.
Apesar de todas as previsões,
profundamente científicas,
há sempre uma variável que não
controlamos. E por isso temos
esperança e desconfiamos. E tal
como toda a gente, aprendemos
que há que saber sair de casa
esquecendo deliberadamente o
guarda-chuva.
*
RECEITA AMOROSA
Disponha alguns elementos potencialmente
ígneos sobre a tábua colorida e porca da vida.
Lave-os e corte-os em polígonos próximos
da forma de um coração. Deixe repousar numa
noite de lua cheia e leve a cozer sobre o lume
brando dos amores, até reduzirem à sua essência
mais bela e precisa. Prove constantemente e caso
seja necessário adicione uma pitada de paixão,
moída na altura. Antes de servir, avise o parceiro
dos possíveis efeitos a longo prazo e decore
com promessas de futuro.
*
O CAMINHO DO TEMPO
Tenta sempre que o passado esteja em
todas as coisas que faças, ainda que
tenhas evoluído no único sentido possível:
A vida não tolera atrasos nem bruscos
avanços, e o bater do segundo é a sua face
mais visível. Procura lembrar-te das árvores
que plantaste na vida de alguém, das linhas
em que o teu coração se perdeu e das outras
que desenhaste racionalmente com a mão,
imitando o gesto criador inicial. Lembra-te
dos rostos que beijaste, dos aviões que tomaste,
dos risos e das lágrimas que verteste. Mas
mais importante que isso, ou depois de tudo
acondicionado no volátil espaço da memória,
lembra-te das decisões e das dádivas que
te permitiram escapar à morte de cada dia,
ela que sempre te esperou quando menos
esperavas num canto distraído das horas.
*
REGRAS PARA EVITAR QUALQUER CRISE DE NERVOS
É preciso lutar contra a folha de cálculo que elimina, que despede
é preciso trabalhar contra aquilo que nos põe sem trabalho
é preciso saudar a poesia, tirá-la da torre e cantá-la
é preciso abandonar o que nos aprisiona futilmente
é preciso montar a tenda sobre as possibilidades
é preciso libertar a liberdade com que se nasceu
é preciso lutar contra o medo, com ou sem ele
é preciso vigiar de perto o que se conquista
é preciso conquistar o lugar que nos cabe
é preciso rejeitar frases postas na boca
é preciso deixar de ser um número
é preciso fugir de rajada à rajada
é preciso mentir só à mentira
é preciso questionar
é preciso dizer não
é preciso duvidar
e amar – verdadeiramente.
*
DEFORMAÇÕES
Dizes que agora
falarás da forma,
mas de que forma?
De formações na rocha,
ou camadas geológicas
em vez das vozes
da memória?
Dos deuses dizes
a forma, anseias por ela
mas nunca a saberás –
falarás então da forma
mas só encontrarás
deformações.
*
DA METAMORFOSE
A vida pode assumir múltiplas formas,
e as formas podem assumir múltiplas vidas:
duas mãos entrelaçadas não são
já duas mãos isoladas, são
um troféu do Amor
um laço inquebrantável
uma fonte de beleza
ou outra qualquer metáfora cintilante
de natureza simples
escuta o que a energia te diz
para além da forma que tens
em frente:
enfrenta o que o silêncio, metáfora
eloquente, te diz do âmago das coisas.
*
DO AMOR PORTUGUÊS
Se todos os amores não morressem nunca
E eternamente buscasse e conseguisse
a perfeição de todos os torsos desejados
Transformar-se-ia o amador na cousa
amada por força de muito desejar
Teria em mim todos os sonhos do mundo
pois nada mais haveria a ansiar:
em mim teria a parte desejada.
Mas ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
não te vejo e já não sou
ver-te é como ter à minha frente
todo o tempo
Tropeçaria de amor por ti, adolescente
em todas as ruas onde te encontraria
em todas onde te perderia, amando-te
perdidamente sem sequer te ter tocado.
(Conheço, no entanto, tão bem o teu corpo
e vejo bem como o meu está mudado
e mudando espero o meu amigo velido
aquele que de mãos dadas vai com o perigo
porque os outros se mascararam e ele não)
Meu senhor
o que te dói e arde sem me veres
Em que pensar agora senão em ti?
*
DESIRE PATH
Para ir ao inferno de Dante
basta apanhar o autocarro
e atravessar a cidade
Por isso atravesso esta rua
pelo meu próprio pé
sigo o seu e o meu
turbulento caminho
Passo nas paragens
com o desvelo e o desapego
de quem procura o paraíso:
Ama o próximo
como te amas a ti mesmo
diz o letreiro
desde o início dos tempos
*
PRÉMIO DE POESIA
Não saberia como agradecer um prémio
Se é isso que se faz com um prémio
que se recebe
É que na breve vida que decorre
entre escrever e tê-lo merecido
decorrem por vezes eras geológicas
de que sou contemporâneo
e muito antigo
Uma camada sedimentar para a infância
onde areias e pós foram robustas pedras
e assim sucessivamente
na camada seguinte
Não sei saborear o sedimento merecido
pois o sabor é ao que já sucedeu
nunca é possível resgatar a mó e o moinho
nem sei onde os localizar
Recorto porém essa fatia do solo
onde me deito e analiso
A cama que fiz comigo e em que durmo
misturando assuntos
sorrindo
(O prémio será a vista de conjunto)
*
FALSO VILANCETE DO FORA DE JOGO
MOTE
A bola vem em defesa do que ainda
não foi escrito, em defesa do defesa
e do avançado, que do balneário
ao banco vieram em defesa do jogo.
VOLTAS
Sem grande penalidade à vista, a vida
poderia ser driblada com a força da mente
e como dança do corpo: o objectivo
seria o golo mas o importante é o jogo
que é trazido para dentro do campo.
Quem arbitra seria como nós, mas qual
de nós é mais humano? Por isso corro
contra o tempo que resta, por vezes
esqueço porque estou aqui, outras
descanso junto às linhas vermelhas
com que me coso, às outras em quem
me escrevo, ao outro. Não é propriamente
fora de jogo, há sempre quem esteja
mais avançado: apenas prefiro a margem
e o médio. Grito das bancadas, sou malcriado.
Nota
Dos dez poemas aqui reunidos, seis foram anteriormente incluídos em Eudaimonia (ed. autor, 2012), Didascálias (Do Lado Esquerdo, 2014) e Metamorphoses (não edições, 2015). São inéditos “Prémio de Poesia”, “Do Amor Português”, “Desire Path” e “Falso Vilancete do Fora de Jogo”.
Ricardo Marques (Sintra, 1983) é poeta e tradutor, tendo traduzido para português, entre dezenas de outros poetas, Anne Carson, Billy Collins e Patti Smith. Viveu até aos 23 anos entre o subúrbio de Sintra, seis anos de escola privada e seis de escola pública, e a zona de Abrantes, de onde vem a família materna e parte da família paterna. Doutorado em Estudos Portugueses pela FCSH-UNL (2010), onde desenvolveu pós-doutoramento no IELT sobre revistas literárias do Modernismo (2015-21). Depois de Na Teia do Poema: um percurso intertextual na Poesia de Nuno Júdice (2013), viu a primeira obra de poesia publicada no Brasil (Makar, Arqueria Editorial, 2014). Viveu em Londres entre 2011 e 2015. Tem poemas publicados em inglês e português. A primeira publicação em Inglaterra foi na antologia Europoe – an anthology of 21st century innovative European poetry (Kingston Univ. Press, 2019), a última foi a tradução do seu ensaio em poema, A Varanda/The Balcony, em 2024. Em 2019, foi co-coordenador do último Seminário de Tradução Colectiva da Casa de Mateus. Também nesse ano organizou uma antologia de poesia futurista europeia, com alguns poetas ainda não traduzidos em Portugal. Publicou em 2021 a antologia Já não dá para ser moderno (Vila do Conde, Flan de Tal), onde propõe a leitura de seis poetas portugueses de agora. Também nesta editora do norte do país organizou e fez publicar uma antologia comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, intitulada Direito de Resposta – 25 poetas nascidos depois do 25 de Abril conversam com poetas do passado. Em 2022 publicou Desiderio, uma antologia pessoal dos seus poemas éditos e inéditos sob o prisma do amor, da beleza e do desejo (Lisboa, não (edições), 2022). Em 2023 ganhou uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura para escrever um novo livro de poesia, que publicou em 2024, também na editora Flan de Tal, na colecção Elementário, denominado Chumbo, um essai poético sobre o ano de 1959 em Portugal e no mundo. Em 2025 saiu uma antologia de poesia gay europeia e o número 42 da revista Relâmpago, de que foi co-coordenador, com uma selecção de poetas portugueses de agora. Também tem desenvolvido actividade de pontilhista e colagista, tendo organizado várias exposições das suas colagens, escrito e pensado sobre elas.










