O homem segue hirto com o olhar no futuro incerto: Inez Andrade Paes sobre Flor desabilitada de José Carlos de Souza
O cavaleiro e o cavalo refrescam-se na essência corrida do prado quando no movimento os cascos raspam levantando matéria de séculos.
Só a água se afunda num plano mais abaixo.
A velocidade dos dois é dança na memória dos tempos.
O homem segue hirto com o olhar no futuro incerto, o cavalo arfa determinado e no dorso o movimento sincopado do cavaleiro, os cotovelos saídos e as mãos seguindo as rédeas até aos dentes do cavalo.
Nos pés, as flores coloridas arrancadas pelo galope e presas aos estribos como correias de inseparáveis almas.
A pulsação encontra-se entre os dois no galope, entre as pernas do cavaleiro o dorso do cavalo. Quando param, num salto o cavaleiro agarrado ao pescoço do cavalo. Encosta a orelha e escuta. Colado ao suor dos dois e entre eles a flor.
limpo os meus pés na borrasca
bebo o azul da prece
Assim é. Ser atravessado pelo poeta que de um fio da crina do cavalo reescreve a flor inteira dentro da sua orelha.
….
(flor desabilitada)
havia o cavalo
e uma flor desabilitada
transitando na orelha
o olhar desterrado
não lava as minhas mãos
limpo os meus pés na borrasca
bebo o azul da prece
José Carlos de Souza – 1962
Santo Antonio de Jesus, Bahia – Brasil
“Sou poeta e letrista. Vivo entre o tédio e o carnaval. Passeio pelo surreal. alma anarquista. Vez por outra zen. Quase sempre ‘dada’. Surto ao leve toque do banal, curto o som das estrelas e o ruído dos planetas. Apareço em algumas publicações: (Ruído Manifesto, Mallarmargens, Diversos Afins…). Neste ano publiquei Amanhecer dos Barcos e Vetiver (e-plaquette)”.
Inez Andrade Paes nasceu em Pemba, Moçambique. Tem sete livros publicados (poesia e prosa) e está representada em várias antologias e revistas literárias. Mantém o blog Contos de Fadas não de Reis. É coordenadora do Prémio Literário Glória de Sant’Anna desde a sua formação em 2012. É membro do Conselho Editorial da revista Quiasmo.












