Entre som, ferida e espanto: A espessura humana do invisível em “Jugular Exposta”, de Rita Tormenta
“Este é um tempo de cegueira. Os homens não se vêem.”
Hilda Hilst
Os livros que verdadeiramente me agitam raramente permanecem apenas numa estante, entram na geografia dos meus dias, ganham temperatura, cheiro, circunstância, acabam por se confundir com os lugares onde os leio. Tornam-se uma forma de habitar, uma travessia que continua mesmo depois da leitura. O meu exemplar de Jugular Exposta chegou-me de Válega, onde a Rita Tormenta mo entregou em mão e onde tive o prazer de a conhecer pessoalmente. Durante algum tempo, acompanhou-me em várias viagens. Foi para Espinho, seguiu para Évora, passou por Lisboa, regressou ao Alentejo e acabou por atravessar a Península até Barcelona. Talvez por isso tenha hoje dificuldade em separar certos poemas das cidades por onde passaram comigo. Percebi-o aos poucos, precisamente por essa convivência em trânsito. Ao regressar a certos textos, comecei a sentir que Jugular Exposta dizia o mundo enquanto deslocava, em silêncio, o meu modo de o ver. A sua primeira força talvez resida aí: há livros que descrevem uma realidade; outros mexem nas condições da sua visibilidade. O livro de Rita Tormenta pertence a esta segunda linhagem. Mais do que representar uma realidade ferida, ensina-nos a reconhecer aquilo que a repetição dos dias foi tornando invisível.
Talvez por isso este texto também nasça dessa agitação, certa leituras dão-me uma vontade quase instintiva de escrever, um impulso febril de resposta. Este livro obrigou-me a regressar ao caderno, a tomar notas, a continuar a pensar depois da leitura. A sua poesia desloca a compreensão, interrompe os automatismos que regulam a experiência quotidiana, devolve estranheza ao familiar e espessura humana ao que parecia gasto. Desde Viktor Chklóvski, sabemos que a arte pode ferir o automatismo da percepção. Quando o mundo se torna demasiado familiar, vemos sem ver; a poesia devolve estranheza ao que o hábito tornou transparente e obriga-nos a reencontrar aquilo que julgávamos já saber. É contra essa erosão do olhar que a poesia da Rita Tormenta se insurge. O livro atravessa a precariedade, o abandono, a violência, a memória, o corpo, o desejo, a desigualdade, o quotidiano e a ferida social. A sua força reside menos na presença desses temas do que no modo como os faz passar pela linguagem. A realidade entra no poema já ferida, deslocada, ritmada, transfigurada por uma dicção que aproxima a aspereza do mundo da precisão da imagem.
Há em Jugular Exposta uma consciência muito nítida da materialidade da linguagem. O poema avança pelo significado, embora nunca abdique do ritmo, da repetição, da sonoridade e da pulsação do verso. Recorda a formulação de Paul Valéry segundo a qual o poema habita uma hesitação prolongada entre som e sentido. Rita Tormenta conhece bem essa hesitação. Muitas vezes, o verso demora-se na imagem, dobra-a, deixa que a palavra se torne corpo antes de se converter em explicação. Em “Preparado”, por exemplo, o poema é pensado como matéria que macera, como coisa trazida no corpo durante “dias, semanas, meses”. A escrita surge aí afastada da inspiração imediata e da eficácia produtiva. O poema exige espera, fermentação, envelhecimento. Sai-se para comprar batatas e pão escuro e regressa-se com flores roubadas e palavras que precisam de tempo. Há, nesta ars poetica discreta, uma ética da demora que atravessa todo o livro.
Em “Colecção privada de dores não amestradas”, Rita Tormenta constrói uma das cenas que melhor revela a singularidade desta obra. Um pequeno apartamento, três pessoas, os primeiros dias de 1974, o inverno, o vento forte nas traseiras da casa. A avó dorme. O tio dorme. A criança não consegue dormir. Todos dormem, excepto aquela que escuta. O vento atravessa a casa como atravessa a memória. Entre a frase antiga, “O povo diz que os loucos se afligem ao ouvirem o vento”, a infância e a insónia, o poema transforma um elemento atmosférico numa presença inquietante, quase familiar. “Tem medo e ninguém ouve o seu medo.” A frase encerra uma das obsessões centrais de Jugular Exposta. A família surge como uma caixa acústica onde convivem segredos, silêncios, vozes e ruídos que atravessam gerações. Aquilo que permaneceu por dizer regressa como vibração, perturbação no ar, uivo.
Pôr a linguagem em estado de excepção, suspender por instantes a ordem habitual das palavras, permitir que aquilo que julgávamos conhecer regresse até nós com a violência discreta de uma primeira vez.
A matéria quotidiana reaparece sob a forma de fragmentos, versões, lacunas e remendos. O passado regressa costurado. “As histórias privadas fornecem pistas para a compreensão do tempo, do lugar, dos modos e das gentes.” A frase tem valor programático. A história privada, aparentemente menor, torna-se uma forma de acesso ao tempo colectivo. A verdade surge menos como restituição do vivido do que como trabalho de montagem, versão que resiste entre muitas outras possíveis. A secção “As famílias felizes são todas iguais” aprofunda esse movimento. O título convoca Tolstói, trazendo-o para uma cena íntima, portuguesa, doméstica, quase fantasmática. A voz afirma gostar de olhar para as janelas iluminadas dos prédios e imaginar a vida dos seus moradores. Cresceu nos anos setenta, sempre gostou de inventar vidas e rotinas, incluindo a sua. Inventar a vida dos outros é também tentar dar forma à própria vida.
A força do texto acentua-se quando a voz enumera aquilo que havia e aquilo que faltava. Carcaças mornas com Planta e cevada com leite, a pequena liturgia das famílias que comem ao lanche, e depois a casa onde não se fazia empadão de arroz com restos de carne, onde não se partia o esparguete ao meio, onde não havia pudim Mandarim ao domingo, onde também não havia pai. A ausência é construída por meio de objectos concretos. A falta do pai surge entre alimentos, hábitos, sinais domésticos. A dor entra pela cozinha, pela mesa, pelo lanche, pela comparação com a casa dos outros. Esse modo de tornar a ferida legível através do comum reaparece noutros poemas. Em “Esperas”, a vida é reduzida a uma sucessão de adiamentos, espera-se o comboio, o último dia do mês, o reembolso do IRS, a iluminação divina, a encomenda, o pão nosso, a morte. O poema avança por acumulação, embora a enumeração nunca seja mero inventário. Cada espera acrescenta uma camada de precariedade metafísica e social. A existência torna-se uma paragem de autocarro, isto é, uma suspensão sem grandeza, um lugar de passagem onde a vida se gasta enquanto aguarda. Também em “Sou” a enumeração ganha uma força particular. O sujeito poético não se limita a afirmar uma identidade individual, absorve figuras, restos, classes, ruínas e violências. É a sopa aguada do lar da misericórdia, a moeda que cala a consciência, o olhar assustado do miúdo míope gozado pelos colegas, a lágrima do velho que confirma todos os meses se o telemóvel ainda funciona porque ninguém lhe liga há mais de um mês. A primeira pessoa singular torna-se coral, impura, socialmente atravessada. A voz diz “sou” para acolher aquilo que o mundo abandona. Aí se percebe a dimensão política do livro, cuja intensidade nasce do contacto com a matéria vulnerável da vida, longe da proclamação abstracta.
O desejo constitui outro dos centros mais fortes de Jugular Exposta. Em “Conselhos para a minha filha, para as mulheres que podiam ser minhas filhas e para mim como se fosse filha de mim mesma”, a poeta escreve contra a domesticação feminina do corpo e da vontade. “NÃO SUSSURRES O DESEJO.” A frase é um aviso, um gesto de transmissão e uma insurreição íntima. O poema recusa a educação da contenção, a pequena pedagogia social que ensina as mulheres a insinuar-se, a rir baixo, a desejar sem ocupar espaço. O desejo aparece como direito, fome, corpo em voz alta. A violência do vocábulo “puta” é devolvida ao seu mecanismo de controlo e desactivada pela própria enunciação. Nada disso fará de ti puta, diz o poema, porque o insulto é uma cerca antiga, erguida para vigiar o corpo feminino.
O verso de Hilda Hilst que escolho como epígrafe para esta leitura, “Este é um tempo de cegueira. Os homens não se veem”, ilumina uma das questões centrais que encontro em Jugular Exposta. O que significa ver? O que permanece invisível nas nossas formas habituais de atenção? A poesia da Rita Tormenta regressa a essa zona obscura onde os corpos cansados, a matéria íntima, os afectos interrompidos e as vidas precárias permanecem fora do campo de visão dominante.
Há pão, cevada, esparguete, pudim, janelas iluminadas, vento nas traseiras da casa, pacotes de leite antes do ordenado, velhos sem chamadas, mulheres ensinadas a reduzir o desejo, trabalhadores exangues, palavras feias expulsas do templo da correção. A ferida torna-se legível através de objectos comuns. A poesia devolve-lhes gravidade. A poeta olha para aquilo de que tantas vezes desviamos o olhar: os corpos cansados, as vidas adiadas, a solidão quotidiana, a violência infiltrada nas casas, nas ruas, nos gestos, na linguagem. A jugular exposta do título pode ser lida como imagem da ferida, da ameaça e da vulnerabilidade, e também como lugar de passagem da voz. Por ela circulam o risco e a fala, o sangue e a respiração. A poesia de Rita Tormenta parece escrever precisamente nesse ponto instável, onde a linguagem se aproxima da ferida e a ferida começa a ganhar dicção.
Daí que haja, neste livro, uma exposição da dor e do próprio poema ao risco de dizer. Há imagens que cortam. Há versos que recusam suavizar a experiência. Há momentos em que a beleza surge precisamente por conservar a violência do que mostra. Em Jugular Exposta, essa temperatura nasce muitas vezes do contraste entre brutalidade e delicadeza, fala popular e elaboração literária, memória privada e história colectiva, corpo ameaçado e imagem resistente, casa e mundo, segredo e som, silêncio e uivo.
Rita Tormenta escreve a partir dessa atenção. A sua poesia recusa o consolo fácil e a transformação da fragilidade em panaceia sentimental. O que encontramos em Jugular Exposta é uma ferida aberta que pensa, uma voz que observa sem desistir da complexidade, uma linguagem que se aproxima do real sabendo que o real nunca se entrega por inteiro. Entre som e sentido, corpo e imagem, denúncia e espanto, Jugular Exposta afirma-se pela atenção persistente ao que permanece fora do campo de visão dominante e pela capacidade de devolver espessura humana àquilo que o hábito tornou transparente. Talvez a poesia seja precisamente isso: pôr a linguagem em estado de excepção, suspender por instantes a ordem habitual das palavras, permitir que aquilo que julgávamos conhecer regresse até nós com a violência discreta de uma primeira vez.












