10 poemas de Lauren Mendinueta
5 poemas de Viver tão por dentro (Poets and Dragon Society, 2024). Trad. Nuno Júdice.
A MINHA VIZINHA
A minha vizinha é poeta e vive só.
As paredes que nos separam
são finas como folhas de papel.
Cada manhã ouço-a caminhar
pelo seu longo corredor
arrastando versos mudos,
quase consigo ouvir o gesto de sua mão
quando a colherinha dá voltas no café.
Durante a tarde a minha vizinha levita sobre o seu longo corredor.
Consigo ouvir a gravidade do seu corpo,
os gestos da sua mão
enquanto escreve um poema iluminado.
Nunca vi o seu rosto,
está sempre sepultado num manuscrito.
Na outra noite bati à sua porta com o meu punho fechado.
Várias vezes bati imitando o pulsar de um coração.
Vagarosa abriu-me a porta
e via-a transformar-se em estátua no fundo do corredor.
Não quis perturbar o seu sonho de compaixão.
Às escuras e em bicos de pés, limpei o pó da sua casa,
purifiquei o seu banho, dei brilho à sua cozinha, pus a sua mesa.
Depois fechei com delicadeza a porta
e regressei ao meu livro.
*
A MINHA PRIMEIRA BICICLETA
Tinha ouvido histórias.
As mulheres da minha família não sabem andar de bicicleta.
A minha mãe tentou até à idade adulta, mas nunca o conseguiu,
caía como uma criança
e punha-se a chorar como se lhe importasse o que no lhe importava nada.
Minhas tias não sabem andar de bicicleta,
minha irmã tampouco, são verdadeiras mulheres da minha família,
com a sua falta de equilíbrio respeitaram lealdades secretas,
conseguiram manter a aprovação de nossos antepassados.
Eu, ao invés, aprendi aos oitos anos.
Uma tarde montei a fera e lançei-me encosta abaixo.
Agarrei-me com força aos cornos, mantive a cabeça alta
e pedalei como se alguém me esperasse do outro lado do mundo,
como si não fosse necessário travar alguma vez.
O estrondo da minha queda foi tremendo. Não chorei.
Voltei a subir a encosta
e lancei-me tantas vezes que no final aprendi a dominar os travões.
Aquele acto de rebeldia tive de o pagar com sangue,
ossos partidos e o olhar acusador do meu clã:
as bicicletas são coisa de homens na minha família.
*
NOSTALGIA DO PAÍS DOS RATOS
País meu tão distante.
A teu favor nada digo,
não te defendo.
Que sinto na tua ausência?
Saudades de ti? Não.
Saudades de mim em ti,
talvez.
Minha avó dizia:
«Ama os teus ratos como a ti mesma».
«Não os posso amar»,
respondia eu».
«Perseguir-te-ão»,
sentenciava ela.
País meu,
dos meus ratos.
Tu me esqueceste
e eu aceitei-o.
Decidida a ganhar-te,
esqueci-te.
Em terra estrangeira
a voz de minha avó persiste:
«Ama os teus ratos como a ti mesma».
Quantas vezes chorei
por no saber amá-los?
País meu,
de meus ratos.
Ratos meus,
companheiros de viagem.
*
PEDI DESCANSO
Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica:
O amor, a fome, o átomo, o câncer.
Hilda Hilst
Minha mãe dizia que eu cansava,
que era difícil falar comigo
porque eu só sabia falar em poemas.
Nunca aprendi a outra língua.
Já adulta tentei uma linguagem prosaica para salvar relações,
mas abria a boca e saíam-me silêncios longuíssimos,
que também cansavam.
Minha mãe não gosta dos meus poemas.
Suspeita que não são inocentes,
teme que eu perca a minha alma por escrever versos.
Pedi descanso a minha mãe.
Separam-nos um oceano e um cristal de rocha.
A mulher que vejo do outro lado está cansada
de tudo o que cansa e mortifica.
*
UM MUNDO NOVO
Antes. Depois. Agora. Quando?
Vou caminhando entre cadáveres.
Não foi fácil habituar-me a viver.
Rodeio-os com meus braços e escapam-me.
Tinham nomes de família,
méritos, sonhos,
fizeram planos para o próximo verão,
possuíam o talento das tormentas,
a sua vida.
À minha volta, nus no solo,
meus amigos e amigas vivem o seu sono eterno.
Estamos reunidos, a festa começa.
É tempo de ressuscitar.
Hoje é o novo dia.
Hoje é o mundo novo.
A algaravia dos sinos fúnebres
não é sonho,
o seu som fora do real
acorda os ciprestes profundamente adormecidos.
Estou sentada no meio desta desordem de corpos.
No coro da igreja os eunucos cantam jubilosos
o mistério da ressurreição da carne.
Gosto da melodia, mas não da letra da canção,
e finalmente enforcou-se Judas,
cantam os eunucos com voz aflautada.
A quem culparemos pela nossa fragilidade?
O mundo agoniza.
Deixei a máscara no altar.
Vesti o meu traje vermelho-escuro de poeta.
Calcei as sandálias de pele de cordeiro.
Bailar,
bailar,
bailar.
Ainda ficamos com tempo para a algaravia e o luto.
A morte chama com os seus sinos.
Havia um velho deus no mundo antigo.
Havia um novo deus no mundo novo.
Devem ter morrido ambos e não o soubemos.
5 poemas de Un osso quase invisível (Poets and Dragon Society, 2025). Trad. Luís Filipe Sarmento
UM OSSO QUASE INVISÍVEL
Astros remotos.
Será que a terra que pisamos perdura?
Será esta a mesma terra
que pisamos?
Nós, mulheres,
feliz transparência,
cansadas de vibrar
enquanto a vasta noite
extingue a luz
e a voz.
Com as nossas mãos
desenterramos
o osso estribo do Pai.
Aquele osso canta.
Aquele osso
tem a plumagem das águias
e brilha.
Pai de todas nós,
olha para as nossas mãos.
Desenterramos-te
e dói.
Sente o longo beijo
no teu osso estribo.
A língua que não te pertence,
Pai, penetra
no teu osso estribo.
Também nós seremos osso,
osso semilunar,
estribo e o resto.
Mas primeiro demos-te à luz
e o embate do parto
foi brutal.
Será que ainda brotarás da terra
para nos silenciar?
Tudo em ti é osso esculpido.
Tudo em ti repele e acolhe,
distância invertida.
Do teu osso estribo
faremos um archote.
*
HISTÓRIA DO MARFIM
Ouvimos o pulsar do marfim
solto do seu corpo.
O osso livre foi pedra viva,
foi outro
na sua forma suave,
dulcíssima,
agora luto.
Presas brancas
em que a curva suave
acusava o céu
de indiferente.
Luto,
diz-me o marfim.
Espuma,
forma branca,
barro.
Tu,
no barro,
eu,
mulher de barro
no barro.
Naquela região serena
onde uma vez
fomos iguais.
O marfim
ainda brilhante
longe,
longe da vida
e nas tuas mãos.
*
NA TEMPESTADE
Quando ouvires o trovão, lembrar-te-ás de mim
e talvez penses que adorava a tempestade…
Anna Akhmatova
Na tempestade temo pela árvore.
O vento açoita-a sem misericórdia,
o raio aponta diretamente ao seu coração.
Não quero morrer, grita a árvore,
e a tempestade surda flagela-a.
Vi um pássaro a carregar um elefante
nas suas costas.
Era um pouco grotesco,
mas eu queria ver.
Não conhecia esses pássaros extraordinários,
alguém os tinha apagado dos livros,
mas aquele continuava ali,
com o seu elefante.
Uma imagem
ou um estado de alma?
A tempestade, a árvore e aquele pássaro.
A casa não albergava a felicidade,
permanecia impávida perante a tempestade.
Nem sequer ficava um pouco molhada,
demasiado rígida.
E aquela janela, para ver o interior.
Queria ver,
mas tinha medo de ver.
*
A FALÉSIA
A casa estava ancorada
à beira da falésia
mais alta do mundo.
Durante as tempestades
o vento empurrava-a
para a garganta do mar.
O abismo habitava
junto das nossas camas,
aberto, húmido e insaciável
como a minha fome de amor,
como a minha sede de terra firme.
As noites eram longas
para a costureira insone,
a jovem mulher de costas dobradas,
cabeça cravada no tecido
e os olhos cansados
à luz de uma vela quase eterna.
Essa jovem costureira era a minha mãe,
a mesma que coseu com o seu fio de voz
o meu vestido de poeta.
*
AS NOSSAS COISAS
A minha mãe cosia para fora.
Tudo o que as suas mãos cosiam
ia-se.
Toda a sua vida foi costurar para a rua.
De tudo aquilo
pouco ficava em casa.
Retalhos,
milhares de retalhos dos outros
que ela voltava a costurar
para fazer as nossas coisas.
Demorei quase meio século a compreender
que o seu ofício e o meu
não são assim tão diferentes.
Sentada em frente da minha máquina,
ponho em acção o mecanismo:
ligar palavras alheiras
para criar o que é meu
enquanto remendo,
meço, faço,
desfaço e corto.
Tal como a minha mãe,
ainda que trabalhe sem descanso,
pouco ou quase nada
me pertence.
Lauren Mendinueta (Colômbia, 1977). Poeta, tradutora e professora universitária luso-colombiana. É considerada uma das poetas mais prestigiadas da língua espanhola. Autora de doze livros, e quatro antologias pessoais, traduzidos e publicados em seis países. Ganhou quatro prémios nacionais de poesia na Colômbia e o Prémio Nacional de Ensaio e Crítica de Arte do Ministério da Cultura da Colômbia. Em Espanha recebeu os prémios internacionais César Simón por Del tiempo, un paso e Martín García Ramos por A Vocação Suspendida. Sobre ela escreveu Nuno Júdice, «a poesia de Lauren Mendinueta combina duas características que, à partida, parecem opostas: a clareza da sua linguagem e a complexidade das questões que nos coloca”. Os livros de Mendinueta são editados em Portugal pela Poets and Dragons Society.
Fotografia da autora por Olivier Perrin.












