“Lisboa dorme; os espaços debaixo da escada respiram como um pulmão” I Poesia de Erín Moure
Conheci Erín Moure em maio, na edição de 2026 do Rosalía en Camiño. Desse encontro ficou, quase de imediato, a vontade de traduzir alguns dos seus poemas para português; ou, talvez melhor, de acompanhar algumas dessas zonas de passagem entre poema, tradução, memória literária e invenção que a sua obra abre com tanta liberdade.
Erín teve a generosidade de me enviar este excerto de “The Fall”, incluído em O Cadoiro (House of Anansi, Toronto, 2007), escrito de forma muito singular a partir de Lisboa e em diálogo com as cantigas de amigo. O que aqui publicamos é também esse encontro: Lisboa vista por uma poeta canadiana profundamente atravessada pela Galiza, pela tradução e pela escuta das línguas.
A Queda
(excerto)
Lisboa dorme;
os espaços debaixo da escada respiram como
um pulmão.
A solidão dentro dos veículos puxados por cavalos
foi transferida para nós quando desapareceram.
A chuva cai no Tejo.
A reverência espera nas ruas
e nas telhas.
A cidade de Lisboa dorme.
A cidade fenícia dorme e a cidade romana dorme.
É domingo e a cidade de Lisboa
respira como um pulmão
respira como um pulmão
adormecida de lado
um cão adormecido de lado numa casa na Lapa
um lustre deitado de lado no Bairro Alto.
Pulmões verdadeiros viajaram até Lisboa.
Pulmões num casaco, chegando agora
a Lisboa.
Uma carruagem não basta para um pulmão.
Um rio basta para um pulmão!
Uma carruagem viajou para dentro de Lisboa,
olha, o pulmão voltou o rosto
e caminha.
O pulmão quer um rio ou nada.
O pulmão pode fazer o seu próprio rio e as suas próprias
coitas.
Que altivo o pulmão!
Algumas mãos cortam batatas na cozinha.
Estou sozinha nas ruas de Lisboa.
As pedras da calçada estão levantadas,
fraturadas, as mãos continuam a cortar batatas.
O jogador cai morto no campo;
por um instante, síncope da dor, depois nada!
As mãos na cozinha cortam batatas.
As batatas vêm da terra!
Terra distante. Terra por baixo de Lisboa.
Uma dor assim surpreende,
mas não dura.não dura muito.
Mar.
Pessoa: O mar (rabiscado.)… Que altivo o pulmão!
A boca do mar?
Uma boca de pulmões demasiado comum num mundo dorido.
Tantos antepassados vestiram as suas moléculas de outro modo
casacos
refeições, camisolas
enquanto o vento se levanta. Estarás lá?
Quando tens fome moves-te
tão depressa que trazes neve dentro de ti.
Há 50 anos que não
neva em Lisboa.
O vento na rua ao amanhecer
A rua venta e a alvorada alvorece
Pedaços de happiness
Quando a vejo, está aureolada de luz
Sonho, sonho
ela puxa a alvorada consigo
e com a alvorada, a luz do dia
e com a luz do dia, a ausência
que é minha.
Ou a colina poderia lavar-me o sonho da própria roupa?
Estavas comigo, foi o vento que me soltou a camisa?
E rasgou a luz até a escuridão soçobrar.
E rasgou a escuridão até vir a aalba!
Alba, alvorada. Estimo a tua primavera, a tua água.
[534] #569O Rei Dom Dinis
Não consigo dormir de pesar.
Não consigo dormir de saudade.
Não consigo dormir de tanto querer felicidade!
Mãe, como hei de viver.
Quem cantará um cântico?
A palavra aposento?
(Não consigo dormir, já não acredito no serviço
ao rei! O rei é traidor.
Vai matar aquilo que mais amo!)
[776] #833 [777] #834
Pero da Ponte
Um rato morto visto na Mouraria
na Costa do Castelo um rato morto visto
a cauda estendida para fora na calçada
(o meu coração com saudades tuas)
nas pedras da Mouraria tão lá no alto
vida indesejada que correu
correu até acabar esmagada correu até ficar sem tempo
(o meu coração com saudades tuas
a sua própria besta perde o ânimo)
Estricada ou atingida pelo caminho do dano
(o meu coração tem saudades tuas)
[ ] #1391
María Balteira
Um coração num canto.
Um coração de bolso?
Um registo elétrico: cefaloide.
Um coração como uma pinha para dentro da qual se pode ver.
Para dentro!
“Quando saí pela porta,…
≈
Que farias para capturar o verde?
Eu segui noutra direção.
Alguém também me deu a sua vela
Estou a desdobrá-la, hesitante
Há uma catarata no meu pulmão
Eu poderia navegar
pois não consigo navegar num mar!
(Eu queria falar e não ousei.
Queria apenas olhar para o teu ombro!)
Queria um pulmão novo, e um pente.
Ou um pulmão novo, e neve!
Ehrn Çihrij
onde Senhor é mundo e a minha vassalhagem é amor do mundo
25 de janeiro de 2004
de O Cadoiro
(House of Anansi, Toronto, 2007)
Nota do posfácio do livro: Em resposta [às cantigas de amigo], [a poeta] escreveu lamentos seus, encenando, misturando e fazendo eco, traduzindo apenas dois ou três poemas e encerrando-os entre outros de pura invenção, atribuindo impulsivamente os seus próprios poemas ao nome do trovador que estivesse mais próximo nos seus cadernos.
Erín Moure é uma poeta, tradutora e ensaísta canadiana que escreve em inglês. Frequentemente híbridos na forma, os seus livros exploram a possibilidade de uma cidadania queer, bem como as potencialidades da(s) língua(s). Desde 1979, publicou 19 livros de poesia e mais de 33 livros de outros autores, sobretudo poesia, traduzidos do galego, espanhol, francês, portunhol e português (Andrés Ajens, Louise Dupré, Chantal Neveu, François Turcot, Rosalía de Castro, Lupe Gómez, Uxío Novoneyra, Chus Pato, Wilson Bueno e Fernando Pessoa), bem como co-traduções do francês e do ucraniano (Nicole Brossard, Yuri Izdryk).
Da sua bibliografia fazem parte O Cidadán (Anansi, 2002), Insecession — uma reflexão sobre e com a sua tradução de Secession, de Chus Pato — (BookHug, 2014), o livro de ensaios My Beloved Wager: Essays from a Writing Practice (NeWest Press, 2009) e Planetary Noise: Selected Poetry of Erín Moure (Wesleyan University Press, EUA, 2017). O seu livro mais recente, Theophylline: an aporetic migration via the modernisms of Rukeyser, Bishop, Grimké (Anansi, 2023), é uma colectânea híbrida de ensaios/poemas, e a sua tradução mais recente é a do aclamado Sonora, de Chus Pato (Veliz Books, 2026).
Moure recebeu dois doutoramentos honoris causa de universidades no Canadá e em Espanha, foi Creative Fellow na Woodberry Poetry Room da Universidade de Harvard em 2017 e, em novembro de 2019, foi Tradutora Internacional Residente no The Queen’s College, Universidade de Oxford, Reino Unido. Vive em Montréal.










