O Livro de Percival | Noah Ross
O Livro de Percival
Tolo, assassino, linguagem por natureza e a aceitar
São estas as regras. Faz-te de tolo, sai de casa,
Aceita o Graal de bom grado
Até a floresta incerta, a Floresta Perigosa, cheia de lobos e texugos, e a gordura a manchar-te o
casaco esfarrapado
Ou a galgar a longa extensão, a maior parte do mundo é oceano, mesmo cheio de um miúdo punk, Pestanejo Assombrado, mesmo que
Deserto
Nem folhas a cair nem vento, ruído, céu, nada se ouvia através da água
Um pinheiro, e desapareceu
Longe de Chicago, nunca imaginei que todos os amores da minha vida amparassem cada escolha impossível que haveria de
fazer
Ondas atrás de ondas
* * *
Armadura impossível
Aberração e navio vergado a avançar, empurrando madeira ou alcatrão ou alguma recordação límpida, pátio, falésia, cabo
No porto, um sábio chamado Folha ou Chave ou Barra de Ouro não me combate de armadura
O Homem de Lata, tão enferrujado que já ninguém o reconhece, perplexo
Perguntou: tenta dar-me um nome, tenta dar-me um nome enquanto vivo, vivo dentro de mim
Enfureceu-se e fê-lo, ou não
Mais fundo
À procura atrás de mim ou da taça ou do prato ou do tolo que pesca no mesmo oceano, no fim de cuja
linha
Na ponta de cuja linha se pergunta ao perdedor errado, otário, limão
A perguntar às bagas-de-junho em Outubro, sentidas ou esquecidas, a morrer de fome
Rei Pescador, Pestanejo Assombrado
Tolo
* * *
Espadas a atravessar a noite ou uma faca a raspar nas bordas de um frasco de compota
Quem se atreve a arranjar uma briga fora dos grandes êxitos de bilheteira
Fora do deserto queimado pelo sol, nem castelo nem paisagem
Sem passar por estas portas, nem fogo nem bolas nem enigmas
A deitar água numa taça, nem queixosa nem expressiva nem criado de prata, nem um campo à esquerda dos autocarros
«Mais valia ir de carroça até à Lua»
Percy, Percy, seu tubarão
O Graal do queer de todos os dias: ouvir um homem empalhado falar, vê-lo fazer uma vénia e caminhar ao lado de uma moeda de vinte e cinco cêntimos caída
no chão
Cara para cima: a sorte foi parar a outro filho da puta
Que sorte para o Kansas
* * *
Ainda cercado e múltiplo, mensagem e congelamento, um malvado e perturbador, cuidado — ou,
Que escura era a floresta atrás deles
Perigosa como o mar dourado, hoje nem vasta nem verde, só verde como a State Market Liquor
Enquanto houver um coração a bater
Que romance, imenso como as garras da cegonha a cantar Rossini: «Tol-de-ri-de-oh»
Ou: «Não perguntes nada a ninguém, sobretudo nada que tenha significado»
Qualquer coisa como aquilo que vês
Percy, no meio do prado, alheado, selvagem e perdido, alheado e selvagem
Esperava melhor — uma resposta que não soubesse a vingança, mas diz lá:
Nem a travessa misteriosa, nem a cabeça de sabe-se lá que história de família, nem castigo como o das primeiras horas da manhã,
não te rales
Nem vales nem vale, nem a direito pelo meio, até ao lugar onde brilhava
Seu tolo, este peixe não é amigo nem resposta, apenas uma miserável não-pergunta
* * *
Tão perto, segurando aquele machado desde que ele enferrujou
Como o olhar precisa de um lugar onde pousar, apesar de toda esta merda de cavalo, desta música incómoda, destes
materiais arrancados à sua forma original (peixe frio e língua e fricção, nada mais, como se fosse possível
dar uma dentada)
Que grande perda, vós que mentis
Este —
Era alguém diferente, pertencia a outro
Otário perigoso
Espesso como uma demão de tinta fresca na megaigreja que louva a floresta, criatura bem-educada,
sem saber para onde nem por que razão
cavalga
Não é feito de lata nem de palha nem de Kansas nem de ramos secos e folhas mortas, não
Morria de medo de cair
Ou todo o ouro do mundo das relíquias, ou se se arrasta pelo meio
A diferença entre duas formas e o traseiro — traz isso:
Uma estátua não te erguerá o membro hirto, voz nenhuma
Nem hoje nem nunca será teu
Fim do Livro de Percival
Tradução do inglês por Tiago Alves Costa
Noah Ross é poeta e editor na região da Baía de São Francisco, na Califórnia. Entre as suas publicações mais recentes encontram-se The Holy Grail (Wry Press, 2025), The Dogs (Krupskaya, 2024) e Active Reception (Nightboat Books, 2021). Com Eric Sneathen, edita a SPUNK, uma editora dedicada a autores e obras queer, e, com Evan Kennedy, edita The Swan’s Rag, uma revista de literatura erótica.
Nota do tradutor
Conheci Noah Ross em São Francisco, por intermédio de Robert Glück. Durante esse encontro, Noah teve a gentileza de me oferecer um exemplar de The Holy Grail, um livro-fanzine que inclui o poema «The Book of Percival» («O Livro de Percival»). Foi dessa oferta, e da leitura que se seguiu, que nasceu a tradução que agora publicamos na Quiasmo, com a generosa autorização do autor.











