Cremação I Luiza Nilo Nunes
CREMAÇÃO
Mãe que evaporaste no bocejo dos mortos,
circundada de roseiras nesse esquife embrionário,
mãe esquálida no leito dos lençóis hospitalares.
Mãe que sobes lentamente numa árvore de esferas,
em coágulos antigos, em linhagens de giestas
e atravessas os meus tímpanos num timbre
tumular, um magnífico estertor de pratas
sujas, de metais,
surpreendente exalação de ossos leves que evolam:
cinzas roxas pelas praias, pó ardente no areal,
elegantíssimo esqueleto em sua caixa celestina
como um barco a incendiar-se até ao fim do desespero.
Ouves agora o delicado sopro acústico das águas?
Das marés escurecidas, dos meus olhos
as torrentes, desses rios onde mergulhas os cordões
umbilicais, as frias poças
afogando o belo parto da criança?
Coroaste a minha fronte com teus laços de senhora,
as tuas lívidas agulhas de caveira magistral,
a mãe-caveira em cujos dedos há dedais
ambivalentes, há navalhas de rubis
e velhos halos de poda:
essa destreza de mulher rasgando os linhos da morte,
as roupas húmidas do feto, a frágil
pele das placentas,
as vermelhas epidermes levedadas da cria.
Em que caixotes de cetim hei de selar a tua sombra?
Não há urnas de cristal,
não há campânulas de ouro,
nem baús onde enterrar o flash forte do teu riso
e mausoléus florescerão se ali pousarmos
elegias: porque foste a alegria e o vinho
fresco do velório,
aritmética de sílabas riscando-se nos quadros,
giz arguto com que abriste os meus cadernos
no princípio, essa voraz caligrafia dos disparos
maternais.
Redijo notas e missivas sob a lâmpada da casa
para ouvires o balido de uma funda invocação.
Porque aprendi a língua azul, o dialeto
dos defuntos
e o meu corpo abriu o cerco
às dissolutas litanias,
o meu berço rendilhado de ave branca apodreceu,
mas o cadáver da criança aspira ainda os teus perfumes:
aros fortes de sandálias, couro
fúnebre de mar, a cabeleira circundada
de cravinhos e relâmpagos, os pontos
de uma rosa aberta em moscas sobre a carne.
Escuta os berros e as traqueias abatidas das garotas,
as donzelas do teu ventre em eloquências
ilegíveis,
estão loucas como cães nos arcos
negros dos templos: lírios órfãos às golfadas
nos portões dos cemitérios, luto aceso
como círios nas cabeças prepotentes.
Estão vivas, mas plagiam os teus gestos para sempre.
Luiza Nilo Nunes nasceu em 1989, em Porto Alegre, e vive em Portugal desde a infância. É licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Mestre em Estudos Editoriais pelo Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. Criou e dirigiu a revista literária Tlön e a editora Anjo Terrível. Traduziu e publicou, pela primeira vez em Portugal, a poeta anarco-feminista Teresa Wilms Montt e Eunice Odio. Tem poemas publicados em diversas revistas e antologiais nacionais e internacionais, entre as quais se destacam Tras los claves – 35 poetas portuguesas (Garvum Ediciones, 2022), A boca no ouvido de alguém (Através Editora, 2023) e O livro do verso vivo (Outra Margem, 2023). Publicou a novela Levanta-me das águas profundas (Urutau, 2024).











