3 poemas de Leonam Cunha e uma leitura de Rosa Alice Branco
Meta a linguagem
À poesia,
todas as grandes questões filosóficas.
À poesia todas as grandes questões filosóficas?
A poesia pertence ao mundo dos temas essenciais.
A poesia pertence ao mundo.
A poesia pertence ao mundo
dos que não têm mundo.
A poesia não pertence ao mundo.
Despertence.
(Me desperto para este fato: a poesia não pertence.)
A poesia pertence ao mundo de quem continua vivo.
A poesia pertence ao debate sobre a moral mitológica.
A poesia funde o debate e reinventa o debate.
A poesia é isso ou aquilo,
pertence a qualquer coisa.
A poesia pertence à pergunta de Borges sobre a morte.
Pertence ao morcego de Augusto dos Anjos.
Pertence às injúrias de Verlaine e Rimbaud.
Pertence ao Ulisses de Joyce e está fora dele.
Pertence ao túmulo sangrado de Akhmátova.
Ao sublinhado mofado de Dickinson.
Aos cantos cuspidos de Hilda Hilst.
Ao cuzinho azul de Gullar.
A poesia até pertence ao olho absurdo de Lorca.
Até pertence ao carimbo triste de Drummond.
E pertence ao gemido seco de Cátia de França
e ao ouvido absoluto de Hermeto Pascoal.
A poesia pertence a qualquer um que retorça o verbo,
que descabele as coisas, que chupe uma lâmpada
ou um objeto que é para ser cheirado ou um órgão
que em teoria é para produzir excrementos.
A poesia não pertence ao mundo.
Despertence.
Todo feito poético é fazer do que já é feito o mundo
algo que ele ainda não é.
Algo que não poderia ser.
A poesia poderia ser esquadrinhar a dor de um vulcão.
Poderia ser descrever a fragrância de uma peça de Boal.
Poderia ser o silêncio de uma mãe que prepara a cama
para um filho que a polícia já pôs para dormir.
*
Deontologia metalinguística
Eu quero um poema que me tire o sono.
Um poema que soe como uma multidão
de pétalas balbuciando no berço do meu filho.
Um gesto de oliveira adormecendo a tarde turbada de nuvens,
a sétima vida de um gato, a tristeza
que vive na ponta dos dedos ao tocar-se
uma ferida molhada de amor.
Um poema que seja mais ou menos como
o silêncio ante um discurso de Fidel.
Que seja como uma boca entreaberta
à espera de um beijo.
Eu quero um poema que dê causa a alardes.
Como pernas de um inseto dançando bachata sobre
a superfície de um lago.
Como ter os olhos traspassados pela voz de
Virgínia Rodrigues.
Como um infante acalmado pela canção
de fim de tarde, pelo cheiro de goiaba recém-desperta,
pela chuva de carcaças que denominamos porvir.
Eu quero um poema como a sombra da História
rindo migalhas, soletrando amanhãs.
*
Duas figuras
O poeta analisa a árvore sob um ângulo-pássaro.
Isto é, desanalisa, implementa quebras.
O filósofo questiona a resistência da árvore
e a compara com algum fato do passado,
explicando-se materialista histórico.
O filósofo estuda, vai implantando //////////////////////////////// barreiras.
O poeta sussurra que a árvore mais parece
uma mulher de corpo feroz e abatido
que tem a cabeça túrgida durante o carnaval.
O filósofo aprecia a dúvida mas quer remendá-la.
O poeta sequer tem problemas com a dúvida.
Ri com ela e lhe toma grande apego.
*
Leitura crítica por Rosa Alíce Branco
CORTAR AS SÍLABAS DO CORAÇÃO
Apesar de tudo, conseguimos ainda acrescentar peso como marca de insensibilidade e incompaixão: “Apesar de todo pesar, vamos passear com os cães mortos de frio”. Assim termina o poema que inaugura o livro de Leonam Cunha: Como escrever com os órgãos. A dedicatória a uma jovem indígena, Daiane Griá Sales, da etnia Kaingang, encontrada morta depois de ter sido vítima de crimes hediondos, faz-nos suspeitar de que a crueldade humana espreitará o correr deste livro, rapinará o corpo dos poemas. E faz-nos saber que a Ética e a empatia pelos vulneráveis serão tessitura dos poemas que Leonam Cunha nos oferece nas páginas a vir. A circunstância de o autor ter tido uma experiência cirúrgica faz pender a escrita deste livro de poemas para o registo do orgânico, em que o bisturi é o punctum, à maneira de Roland Barthes: o instrumento de que a matéria-prima é a corporalidade da escrita, através dos órgãos que a suscitam.
Os órgãos organizam-se como verbo estruturante do livro e, a um outro ritmo, constituem o título da maior parte dos poemas. Leonam Cunha escreve com os músculos, o baço, variadamente os olhos, o fígado, escreve com a garganta, punhos, etc., mas escreve também com a força da doçura: do que é dado e do que alcançará, porque o passado começa a escrever-se pelo devir. Nas últimas partes do livro, traz os seus solilóquios, “ou como escrever com a amígdala”. As únicas “razões” das amígdalas cerebrais são as do sistema límbico. Refazendo a descoberta de Damásio, expresso em O erro de Descartes, analisando as lesões na área pré-frontal do cérebro ficamos aptos a entender que a emoção está na base das decisões e, portanto, da razão (com o seu grilo-falante), contra todo o passado de perseguição à emoção e à imaginação, considerada “a louca da casa”. Este momento de inclusão da emoção no que, por direito, é imprescindível aos ditames das nossas acções e às sequelas destas na vida do outro, a saber, a decisão, está na base da transformação das nossas crenças, sentimento de empatia e modus vivendi.
Apropriemo-nos, pois, das “razões” da emoção e logo percebemos que não é de admirar que a Poesia exija um prévio desmantelamento do corpus existente. No poema “Com a língua (Meta a linguagem)”, que é, na verdade, uma Arte Poética, a poesia começa por afirmar a sua relação com os sistemas filosóficos, para logo ser interrogada, florescendo o que a Poesia não é, e a que não pertence. Diversamente, é a própria impossibilidade de ser, é o despertencer, o desfazer e o desarticular, que incessantemente forja o pertencer como a sua impossibilidade primeira. Por isso, a escolha cuidada de figuras do pertencer, como Drummond, Hilda Hilst, Verlaine, Rimbaud, Ferreira Gullar e o seu Poema Sujo, em que alguns versos fazem lembrar o verso de Éluard: “A terra é azul como uma laranja”. No “poema sujo” de Gullar, é evocado o azul do gato, do galo, da gengiva, do cu, etc. Assim, neste poema de Leonam Cunha, a Poesia pertence, entre outros objetos do (des)sentido,
Ao cuzinho azul de Gullar (…)
e ao ouvido absoluto de Hermeto Pascoal.
A poesia pertence a qualquer um que retorça o verbo,
que descabele as coisas.
O poema “Duas figuras” retoma o tema da dúvida por parte do sujeito poético, marcando de novo a diversidade de postura do filósofo e do poeta, embora a filosofia que se preza seja a arte de gerar boas questões, diferentemente das ciências que tentam provar as hipóteses, tanto quanto o princípio popperiano da falsificação permite. Leonam Cunha desvela poeticamente a imunidade do poeta relativamente ao registo em que a certeza é considerada e, mais ainda, levada a sério:
O poeta sequer tem problemas com a dúvida.
Ri com ela e lhe toma grande apego.
Sempre que penso no padecimento violento e insistente de Sylvia Plath, Virgínia Woolf, Mary Shelley e tantas outras que, ou se suicidaram, ou acolheram a oferenda da morte com o prazer que a vida não lhes concedeu, emociono-me com versos como estes de Leonam Cunha, quando ele escreve “com o fígado”:
Queria ser Sylvia Plath para devolver os eletrochoques
com um eletropoema que arrebenta o céu cor de tabaco.
(…)
Queria ser Sylvia Plath para maldizer o gênero,
embora não seja preciso ser Sylvia Plath para maldizer o gênero.
A insurgência contra o preconceito desperta no poemário inteiro. E na própria carreira académica de Leonam Cunha esta defesa do queer, do trans, sob o teto dos Direitos Humanos, é o seu traço diário. Aqueles que o sistema tenta fragilizar devem ser fortalecidos pelo direito que a liberdade e a empatia obrigam. Essa empatia é exaltada no poema do homem que passa na rua, se cruza todos os dias à mesma hora com o sujeito poético. Este homem deixa de ser o outro, passa a auferir o carinho de um “tu”, sujeito e preocupação, como magistralmente se lê nos excertos do poema “Caminho ou como escrever com os pés”:
O homem com quem cruzava
todos os dias pela rua,
a caminho do trabalho,
deixou de cruzar-se comigo.
(…)
Isso também nos conecta.
Não sei o seu nome.
Sei que o via todos os dias
e esse contato visual
que mantínhamos, esse
“tu me reconheces,
eu te reconheço”
de alguma maneira
me fez ter esta iminente
preocupação por dentro.
(…) E em caso de que
tenha mudado de endereço,
de cidade, de país, por que
não me comunicou
que se mudaria se nós
nos víamos todos os dias?
Uma procissão de órgãos é chamada à cena poética, à fala que dá testemunho, desde os genitais, à pélvis, ao córtex cerebral, e os poemas confluem na figura da empatia, em que o sujeito poético não pode deixar de se pôr na pele dos outros com o seu corpo “partilhável”, mesmo se a escolha for a elegância da morte em detrimento de um sofrimento maior:
Queria ser Sylvia Plath pra não mais escolher a dor.
Ter a elegância de deixar o gás ligado e deitar-me entre lençóis ralos
para então entrar num reino de sonhos perenes, profundos, perpétuos
com a dura consciência de não mais escolher a dor.
Morrer pode advir de uma interrupção no ritmo da vida, na sua sonoridade habitual, quando esta é uma sonoridade ontológica. Pode ser a “aposentação” inumana de todos os que são empurrados para fora do tom da melodia que tece as tardes, porque é “com os ouvidos” que os homens velhos se mantêm vivos.
A dureza da vida é sempre sublinhada a negro e todos podemos ser Sísifo “com as glândulas sudoríparas”, lixando as paredes, pintando e consertando o que, invariavelmente, necessitaremos de fazer de novo e sempre.
O sistema crucifica todos os dias os sem-abrigo, os homossexuais, os corpos dobrados pelo peso que trazem nas mãos, mas o sujeito poético acrescenta uma nota, depois do “Fim do poema” que se escreve “com a vesícula biliar”.
(…) a maior guerra foi perdida
quando aceitamos a coroa de espinhos.
We’re not a christ.
A poesia pode ser a criação da fala esquiva e impossível: “A poesia (…) / Poderia ser o silêncio de uma mãe que prepara a cama pra um filho / que a polícia já pôs pra dormir”. Desmontando o existente prosaico, aceitando a coexistência do incomensurável com a ignorância, “Todo feito poético é fazer do que já é feito o mundo / algo que ele ainda não é. / Algo que não poderia ser”. E então chegaremos à música absoluta do poema como se o nosso ouvido fosse o ouvido absoluto do bruxo Hermeto. Talvez este livro de Leonam Cunha seja o eletropoema. Talvez seja o eletropoema que arrebente o mundo das coisas fixadas à parede e do teto que lhe está sobre, para que o céu se deflagre em toda a liberdade de ser céu, e Hermeto Pascoal dê o seu ouvido ao homem em nome do amor: “O nome do amor é amparo”. Talvez seja um poema assim que se desdobre e acolha o corpo do outro na polifonia dos seus órgãos a entoarem bem alto que a coroa de espinhos é o instrumento deselegante de um sofrimento que não salva ninguém.
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