Dois poemas de Camille Roy, do livro “Sherwood Forest”
INSTRUÇÃO DE NEVE
(Snow Instruction)
Ao amanhecer, as suas listas azuis e negras deslizaram para fora da aldeia
num borrão extremo: treino.
Uma a uma, olhos fechados, a cair pela calha,
segundo estas instruções:
—// Manter cada grão à vista até ele derreter na bomba.
—// Em prontidão enquanto os corações carimbam ou prendem a neve.
—// Fazer vapor do fôlego exausto.
. . . Eu senti fios porque as raparigas eram neve. Afinal!
De cada ninho, na nuvem surreal da nossa casa-rapariga,
cada abraço de velocidade fazia náusea pipi pipi.
Ó anseio em chumaços,
deslizámos por baluartes,
as raparigas-bala da melancolia que me germinaram o rosto.
O nosso colapso, mas doce
Doce—//
balas de melancolia
Planando—
Ondas azuis—
teias de gelo cintilantes milhares
Abismos orlados de pó quebradiço.
(Uma luva corporal preta
emborrachada nas pontas)
A minha expandiu-se, vasta e oleosa. A banha de corredora dela—
uma gostosura tão pura & tão sumada!
Sem vergonha, rasgando
encosta abaixo.
Chegou a uma aldeia—// a neve
colapsou ali.
Eu segurava-lhe os espelhos a pingar.
O bafo do seu ventre fez vapor na sala.
Qual é a diferença, perguntei, entre o que tu fazes e o que todos nós
fazemos, secretamente, juntos—ela contraiu-se & disse—
“uma rapariga é um pequeno ídolo aninhado no corpo. Nodoso a arrefecer-lhe os dentes—”
*
SANGRAR O LAGARTO
(Bleeding the lizard)
Mastigando a boca de não dizer nada,
à maneira disso,
não consigo prender o meu sentir às suas circunstâncias.
Mostro ao Bob o poema novo (aquele com amantes X & Y) e ele inquieta-se.
Quer que eles sejam situados, em relação, com nomes reais, essa qualidade
flutuante é inquietante, ou talvez apenas não seja “suficientemente articulada”. Mas
pode-se empolar as zonas doridas com amor pantanoso. Eu acredito nisso.
Então porque escrevo eu histórias como buracos erodidos?
Espreitar através
ver o mundo . . .
Um buraco representacional: triste sarjeta na garganta.
O meu pesadelo fita os caules da idealização
por isso, se eu não me mexer, talvez me lembre do êxtase sexual.
(Como ela me fez ficar quieta,
o que me deixou tão quente que eu mal aguentava — senti-me devastada pelo amor.)
Encerrando o pequeno amor sem eco,
Raspo a vulva até me vir. Flores amarelas mais brilhantes do que limões.
Bancos de fragrância.
Depois és tu outra vez, tu, ratinho.
Não há miséria maior do que encontrar a tua igual!
*
Tradução para de português Tiago Alves Costa.
♦
Camille Roy (San Francisco) é escritora de ficção, poesia e teatro. A sua colectânea de contos Honey Mine foi publicada pela Nightboat em 2021. Entre os livros anteriores contam-se Sherwood Forest, poesia e prosa editadas pela Futurepoem, bem como Swarm (ficção, Black Star Series). Co-editou, entre outros, com Robert Glück, Biting the Error: Writers Explore Narrative (Coach House), uma colectânea de ensaios em que autores reflectem sobre as suas próprias práticas experimentais. O seu trabalho tem sido publicado em numerosas antologias, incluindo Pathetic Literature (org. Eileen Myles, Grove Press) e Writers Who Love Too Much: New Narrative 1977–1997 (orgs. Dodie Bellamy e Kevin Killian, Nightboat). Mais informações em https://www.camilleroy.me/.
Nota do tradutor:
Estes dois poemas integram Sherwood Forest, exemplar gentilmente oferecido pela autora numa visita à sua casa em San Francisco.











