Hamlet e Ulisses: Contra o Império da Pressa
«O passado é transformado pelo presente tanto quanto o presente é orientado pelo passado.»
— T. S. Eliot
Entre os meus alunos, noto algo que me inquieta e, ao mesmo tempo, me dá esperança: muitos parecem cansados antes mesmo de terem começado. Cresceram dentro da hiperconexão, da auto-imagem projectada e de uma vigilância afectiva quase contínua. Conhecem intimamente a tecnologia e começam a procurar, talvez sem saber ainda como, formas de suspender o seu domínio. Querem tempo, querem uma experiência que não nasça já convertida em imagem.
Talvez por isso, falar-lhes de literatura e, em particular, dos textos clássicos tenha adquirido uma ressonância inesperada. Nesses encontros, a escuta parece mudar de qualidade, como se, entre o ruído dos feeds e a ansiedade do desempenho, intuíssem que ainda é possível respirar de outro modo.
É aí que os clássicos deixam de ser património imóvel e recuperam a sua urgência.
Vivemos sob um regime de exposição contínua, no qual a identidade parece exigir uma revisão permanente. Actualizamo-nos, corrigimo-nos, mostramos o que fazemos e observamo-nos a fazê-lo. A intimidade adquiriu uma dimensão cénica; cada experiência corre o risco de surgir já acompanhada pela imagem que poderá produzir, pela reacção que despertará, pelo modo como será recebida. A vida parece pedir uma edição constante de si mesma.
Neste contexto, Hamlet e Ulisses oferecem duas formas de interrogar o presente através de uma memória mais lenta. Condensam modos radicalmente distintos de estar no mundo: a hesitação e o deslocamento, a consciência e a astúcia, a paralisia e o regresso. São figuras antigas e estranhamente próximas, contemporâneas talvez no sentido de Agamben: capazes de reconhecer a obscuridade do seu próprio tempo e de nos ensinar a olhar a nossa. Continuam a nomear inquietações que atravessaram os séculos sem perder a sua força.
Ulisses é aquele que se perde para poder regressar. A sua errância ultrapassa a geografia: cada demora transforma a relação entre desejo, perigo e memória. Perante o deslocamento vazio do scroll infinito, a sua viagem recorda-nos que nem todo o movimento constitui uma experiência. Há percursos que apenas dispersam e outros que nos obrigam a voltar de maneira diferente.
Ulisses resiste à dispersão porque transforma o percurso em narrativa e a narrativa em possibilidade de regresso. A sua viagem não acumula simplesmente episódios: dá forma ao tempo, reúne aquilo que a errância ameaça separar e conserva a memória de uma casa cuja existência depende também da capacidade de a narrar.
Revisitar Hamlet e A Odisseia
é um acto de resistência imaginativa.
Hamlet, por sua vez, é o herói ferido pelo excesso de consciência. Encena, desconfia, observa, hesita. Na cultura da hipervisibilidade, funciona como um espelho inquietante: precisa de agir e suspeita da acção; sabe que cada decisão ocorre já dentro de uma cena e sob o olhar de alguém. O excesso de consciência impede qualquer gesto de permanecer inocente.
Entre Ulisses e Hamlet desenha-se uma tensão decisiva para o nosso presente. Um transforma-se no movimento; o outro detém-se perante o peso do pensamento. Um atravessa o mundo para regressar a casa; o outro descobre que o mundo inteiro se tornou uma cena difícil de habitar. Entre o espectro e o regresso, entre o teatro da consciência e a epopeia da viagem, ambos procuram resistir à redução da vida a eficácia, rendimento e resposta imediata.
Regressar a estas obras permite devolver espessura às perguntas que a aceleração tende a simplificar: quem somos, como agir, o que significa regressar, que fazer quando o mundo se torna quase inabitável? Os clássicos não respondem por nós. Conservam as perguntas abertas e obrigam cada época a medir-se com elas.
A literatura funciona, nesse sentido, como um sismógrafo: regista movimentos que uma época ainda não sabe nomear. Hamlet e Ulisses continuam a falar-nos porque as suas contradições permanecem por resolver. Reconhecemo-nos na errância de um e na hesitação do outro, no desejo de regressar e na dificuldade de agir, na procura de uma forma narrativa capaz de reunir aquilo que o presente dispersa.
Para Italo Calvino, um clássico é um livro que nunca acaba de dizer aquilo que tem para dizer. Regressar a Hamlet e à Odisseia, no meio do vértigo digital, ultrapassa a escolha estética ou erudita: é uma forma de escuta. Escutar o que ainda vibra no já dito e aquilo que permanece quando quase tudo parece destinado a passar de largo.
Se a velocidade fragmenta, os clássicos interrompem. Perante a dispersão, obrigam-nos a permanecer. A sua subversão reside talvez nessa lentidão: suspendem por instantes a urgência de responder e devolvem-nos a possibilidade de habitar uma pergunta.
Ler Hamlet e Ulisses hoje é aceitar que aquilo que nos inquieta vem de longe, embora assuma em cada época novas formas. A tecnologia alterou a cena, a velocidade e os dispositivos de exposição; permanece a velha dificuldade de habitar uma vida com sentido. Talvez seja essa a dádiva maior dos clássicos: deixam as respostas em aberto e oferecem-nos uma linguagem onde ainda é possível perguntar sem urgência.
E talvez por isso, numa sala de aula, um silêncio um pouco mais longo do que o habitual possa continuar a ser uma forma de pensamento.












