Publicar pouco, com critério e cuidado
Partilhamos hoje a nota à edição que acompanha este primeiro livro do nosso catálogo. Mais do que uma apresentação, trata-se de uma breve declaração de intenções sobre o que desejamos publicar, como desejamos fazê-lo e o lugar que ainda acreditamos que o livro pode ocupar no nosso tempo.
A Quiasmo Edições nasce em 2026 com uma decisão simples e difícil, publicar pouco, com critério e cuidado. Num tempo em que tudo acelera e em que o próprio livro parece ter de justificar a sua existência, quisemos regressar ao essencial, à demora, à atenção, à responsabilidade material e literária. Que o primeiro título seja CODA diz tanto do texto como da confiança necessária para o pôr de pé. Steven Seidenberg aceitou inaugurar esta casa connosco sem hesitar, um acto de confiança raro, que nos responsabiliza e define, desde já, a fasquia do catálogo.
Importa sublinhar que esta edição resulta de uma coincidência de tarefas que aqui não quisemos separar. No meu caso, a mesma pessoa que edita é a que traduz, e isso obriga a uma disciplina dupla, por vezes severa, quase ascética. Como editor, coube-me criar as condições para que este livro chegasse ao leitor com o apuro que exige, na forma, no papel, na composição, na cadência visual da página, nessa promessa silenciosa de permanência que um livro sustém sem proclamar. Como tradutor, coube-me responder à pressão do texto, procurando em português uma respiração que lhe fosse fiel, cujo nervo não se perdesse no polimento nem se dissolvesse numa ideia de fluência que CODA recusa por princípio. A tradução, para mim, tem sido muitas vezes a passagem de uma margem para outra, com a atenção de quem atravessa sem alarde um rio cuja corrente não se deixa negociar. CODA exige outro tipo de atravessamento, porque a linguagem é matéria, obstáculo e método. A frase enrola-se, corrige-se, recomeça, encena a própria clareza e a sua falha, avança por parataxes, refluxos e espirais, e faz do excesso uma forma de precisão.
Este trabalho prolonga um diálogo que comecei com Steven em Plain Sight, que traduzi para português em 2022. Há continuidades evidentes, a mesma tensão entre pensamento e corpo, a mesma ironia áspera, a mesma recusa de uma narrativa confortável, como se a voz, subterrânea e vigilante, desconfiasse de toda a facilidade. No entanto, CODA empurra mais longe a experiência, testa o alcance do que pode dizer e do que já não pode ser dito, insiste nesse ponto em que o sentido vacila sem ceder. E se, por vezes, a opacidade se impõe, surge como condição do próprio gesto, como o preço de uma lucidez que evita simplificar o real para o tornar mais vendável.
Se este livro é também uma prova, é-o em dois sentidos, o da linguagem e o da leitura. Sendo este o primeiro título da Quiasmo Edições, pareceu-me justo começar assim, com um livro que oferece uma intensidade rara, daquelas cuja recompensa dificilmente coincide com o conforto. Um leitor audaz, atento ao que treme e ao que resiste, reconhecerá aqui uma espécie de exactidão inquieta, a forma como o texto pensa enquanto avança, sem pedir licença.
Tiago Alves Costa
Barcelona, 2026.












