Antes de nadar, todos aprendemos a boiar: Inez Andrade Paes sobre Poesia Insuflável de Paulo da Ponte
Entre as estrelas do firmamento e os vincos na face, glosas particulares e meridianos, conjugam a maré enchente e vazante. Salva-nos e salva-se o poeta de apanharmos tantas intempéries em terra, no mar e há uma (pausa na insuflação) requer aptidão arquitectónica para projectar esta pausa. Antes de nadar, todos aprendemos a boiar. Este é um verdadeiro manual de flutuação e navegação. Todos de barriga para o ar, para olharmos o céu. Preciosa ajuda para criar uma barreira cósmica.O poeta completa este pequeno livro, com cinquenta bóias.
Haverá ainda remendo para o pneumático da reedição?
Bóia quarta
A companhia aérea lamenta a falta de ar. Brevemente será
restabelecido o tráfego aéreo.
Bóia oitava
Depois da sétima bóia, numa tarde de calmaria, Jesus pregou aos peixes através do ecrã translúcido de uma anémona.
Bóia décima oitava
Ao terceiro poema, pousou a caneta, olhou em redor, levantou-se,
esboçou um esgar de partida, voltou a sentar-se e iniciou o quarto
poema.
Bóia vigésima quarta
A rapariga subiu a bordo do elevador. À sua espera, no quarto, estava
um marinheiro, de roupa imaculadamente alva, que aguardava a
abertura da repartição.
Bóia trigésima sétima
O alpinista, desorientado, caminhava em círculos cada vez mais
gelados.
(pausa na insuflação) este poema, como digo no texto acima, requer aptidão. Respira já: deitado sobre a cama, estreita, depois a viagem E antes das últimas, esta:
Bóia quadragésima sétima
Com o camaroeiro tentava apanhar o maior número possível de gotas de chuva.
Paulo Correia nasceu na Cova da Piedade em 1963. Editou entre outras obras Poesia insuflável (cinquenta bóias e uma pausa na insuflação), edição de autor, 2012, e Poesia insuflável 2, edição de autor, 2018, sob o pseudónimo Paulo da Ponte e com participação da fotógrafa Margarida Araújo. Participou na colectânea poética O Desejado – Robot Bimby (Companhia das Ilhas, 2015) e no fanzine NAU (diversos números, Caldas da Rainha). Fundou a revista literária Garanta (2017), tendo participado nos números 0 e 1. Escreve regularmente no Jornal de Monchique. Estreia-se na On y va com o livro de poesia Ornitologia.
Inez Andrade Paes nasceu em Pemba, Moçambique. Tem sete livros publicados (poesia e prosa) e está representada em várias antologias e revistas literárias. Mantém o blog Contos de Fadas não de Reis. É coordenadora do Prémio Literário Glória de Sant’Anna desde a sua formação em 2012. É membro do Conselho Editorial da revista Quiasmo.











