O que fazemos hoje que não sirva para nada?
Nota da redação
Este ensaio foi originalmente publicado na revista espanhola Ethic. A Quiasmo publica agora uma versão portuguesa revista pelo autor, Tiago Alves Costa, por considerar que a reflexão sobre a utilidade, o tempo e a conversa gratuita se tornou particularmente urgente num presente cada vez mais governado por métricas, desempenho e visibilidade.
**
Vivemos numa época obcecada pela utilidade. Tudo deve servir para alguma coisa, gerar um resultado, acumular méritos, gostos, produtividade. Até o descanso foi atravessado pelo vocabulário da eficiência, como se a pausa precisasse de justificar-se pelo rendimento que virá depois. A conversa, esse antigo luxo sem escopo, foi sendo empurrada para o regime da exposição, do comentário, da reacção, da pequena prova pública de presença. Neste tempo performativo, em que quase tudo se vê convocado a demonstrar a sua utilidade, o inútil tornou-se quase indecente.
Um dia destes, ao atravessar distraidamente as redes, encontrei uma frase de Annie Ernaux: «A conversa é inútil no melhor sentido.» Fiquei algum tempo nessa formulação, talvez porque ela dizia com inesperada limpidez aquilo que quase já não sabemos defender. A conversa como resto livre, como tempo sem contabilidade. Como gesto que não precisa de provar imediatamente a sua relevância. Havia naquela frase uma espécie de evidência esquecida. O reconhecimento de uma prática antiga, quase doméstica, que não se impõe nem se anuncia, não exige rendimento, não pede testemunhas. Apenas acontece entre duas pessoas que aceitam permanecer ali, sem outro escopo além da própria presença. Falar, escutar, perder o fio, voltar a ele ou deixá-lo cair. Estar com o outro sem transformar esse encontro numa pequena demonstração de nós mesmos.
Há algo radical, e profundamente poético,
em sentar-se com outro ser humano sem esperar nada.
Foi nesse momento que me perguntei que gestos ainda praticamos sem necessidade de justificação. Que fazemos hoje sem intenção de vender, mostrar, contabilizar ou converter em narrativa pessoal? Num mundo que exige eficiência, rendimento e capitalização de tudo, inclusive do afecto, a conversa gratuita surge como uma espécie de proposta de resistência. Não gera lucro. Não obedece a um propósito claro. Não monetiza o tempo. É, nas palavras de Ernaux, «anticapitalista», porque suspende por instantes a obrigação de produzir valor material e permite apenas o aparecimento de um vínculo efémero, partilhado, quase diáfano. Um tempo sem função aparente, uma pausa que não pede autorização ao mundo.
Nesse gesto há qualquer coisa de radical e profundamente poético. Sentar-se com alguém sem esperar nada talvez seja hoje uma das formas mais discretas de desobediência. Conversar é recuperar uma das funções primeiras da palavra, a partilha. Antes da persuasão, antes da venda, antes da performance, existia esse movimento elementar de colocar a voz diante de outra voz e aceitar a sua imprevisibilidade. Walter Benjamin escreveu que cada conversa casual pode conter uma centelha de verdade. Marcel Proust recordou, por sua vez, que o tempo recobrado nasce menos do domínio do mundo produtivo do que da escuta minuciosa das suas variações. Desaprendemos essa escuta. Substituímo-la pela gestão constante da atenção, da resposta, da imagem que devolvemos aos outros.
Escutar alguém sem apressar respostas, divagar sem rumo, interromper-se, perder o fio, rir, partilhar um silêncio entre duas frases. Quem ainda se permite esse luxo? A pressa não o tolera. Tudo o que não deixa rasto parece hoje condenado a uma forma discreta de inexistência. A imaginação, essa faculdade esquecida de tocar o invisível, talvez encontre aí um refrigério contra a aridez ubíqua do mundo. Os sufis diziam que há formas de saber que não se aprendem, que chegam através do silêncio, da escuta demorada, daquilo que não se conclui. Conhecer, para eles, também significava demorar-se.
O inútil, nesse sentido, não corresponde à ausência de sentido. A inutilidade liberta a acção da sua obrigação de resultado. É o que faz a arte quando se recusa a existir apenas como mercadoria. É o que faz a amizade quando deixa de contabilizar favores. É o que faz o pensamento quando abandona a necessidade de justificar imediatamente a sua presença. Talvez o inútil seja uma das últimas formas de beleza disponíveis num mundo saturado de fins. Pensar, criar ou conversar sem finalidade aparente desafia a lógica produtivista cujo pulso nos transforma em gestores da nossa própria existência. O artista que pinta sem expectativa de sucesso, o músico que improvisa sem gravar, o leitor que se perde num livro sem intenção de o comentar nas redes. Todos eles exercem uma forma silenciosa de resistência. Na sua aparente ineficácia reside uma ética, a de permanecer fiel ao tempo interior.
Talvez o inútil seja a última forma de beleza
possível num mundo saturado de fins.
Vivemos num presente que mede tudo em termos de impacto e rendimento. Até o compromisso social ou a sensibilidade ecológica parecem exigir uma rentabilidade simbólica, uma espécie de glosa pública da virtude. Ainda assim, há gestos pequenos, invisíveis, inúteis, que escapam a essas métricas. Preparar uma refeição sem a fotografar. Cuidar de alguém sem o publicar. Falar com um desconhecido sem trocar contactos. São gestos sem rasto digital, cuja força pertence ao domínio mais frágil e mais persistente do humano
Há também uma aporia no coração desta época. Nunca tivemos tantos meios para comunicar e raramente parecemos tão incapazes de permanecer numa conversa sem escopo. A comunicação tornou-se ubíqua, veloz, mensurável, mas perdeu muitas vezes o seu eflúvio mais simples, essa delicada vibração que nasce quando duas pessoas se encontram sem programa. Falamos muito, respondemos depressa, reagimos, mas a presença verdadeira continua a exigir uma lentidão quase impopular. Talvez por isso a conversa inútil pareça hoje um gesto polissémico. É descanso, atenção, recusa, disponibilidade, pequena insubordinação contra o letargo produtivo que nos ocupa por dentro.
A lentidão, o silêncio, a conversa sem objectivo, a contemplação, todos esses actos improdutivos devolvem-nos uma forma de dignidade. Como escreveu Simone Weil, «a atenção pura é oração». Escutar o outro, sem o corrigir, sem o melhorar, sem o conduzir a uma conclusão útil, aproxima-se dessa forma rarefeita de atenção. Um lenitivo mínimo contra a crispação do mundo, contra o proselitismo da eficácia, contra a crença de que tudo o que existe deve apresentar prova imediata do seu valor.
Neste tempo acelerado, em que quase tudo se converte em conteúdo, impacto ou resultado, a conversa inútil, no seu melhor sentido, abre uma pequena zona de indeterminação. Entre um corpo e outro, entre duas vozes que se procuram, entre pausas que não pedem ser preenchidas, alguma coisa resiste à captura. Pode ser apenas o gesto mais antigo do mundo: olhar alguém, escutá-lo e permanecer. Um intervalo sem cobiça, ou até mesmo uma presença sem finalidade. Talvez aí, nessa demora sem cálculo, nessa paralaxe discreta entre o que somos e o que ainda ignoramos de nós, comece uma forma menos ruidosa de revolução.
Texto originalmente publicado na revista Ethic.
Tiago Alves Costa é escritor e professor universitário.












