O que fazemos hoje que não sirva para nada?
Nota da redação
Este ensaio foi originalmente publicado na revista espanhola Ethic. A Quiasmo publica agora uma versão portuguesa revista pelo autor, Tiago Alves Costa, por considerar que a reflexão sobre a utilidade, o tempo e a conversa gratuita se tornou particularmente urgente num presente cada vez mais governado por métricas, desempenho e visibilidade.
“A lentidão, o silêncio, a conversa sem objetivo, a contemplação, todos esses gestos «improdutivos» devolvem-nos uma forma de dignidade. Não porque sejam moralmente superiores, mas porque nos recordam que existir nem sempre implica produzir.”
Tiago Alves Costa
Vivemos numa época obcecada pela utilidade. Tudo deve servir para alguma coisa, gerar um resultado, acumular méritos, gostos ou produtividade. Até o lazer foi domesticado pela lógica do rendimento. Já não descansamos, «recarregamos». Já não falamos, «partilhamos conteúdo». Neste tempo performativo, onde cada gesto se converte numa exibição de si mesmo, o inútil tornou-se quase indecente.
Há pouco tempo, ao fazer scroll nas redes, encontrei uma frase de Annie Ernaux. «A conversa é inútil no melhor sentido.» Tão simples, tão certeira. Repeti-a em voz baixa, como quem redescobre algo esquecido há muito tempo. Uma intuição leve, mas exata. O reconhecimento de um gesto que não se impõe, não exige, não performa, apenas permanece. Conversar sem pressa. Sem utilidade. Sem objetivo. Pelo simples prazer de estar com o outro.
Há algo radical, e profundamente poético,
em sentar-se com outro ser humano sem esperar nada.
Foi nesse momento que me perguntei: o que fazemos hoje que não sirva para nada? Não para vender, mostrar ou justificar, mas simplesmente para ser, como quem habita um intervalo. Num mundo que exige eficiência, rendimento e capitalização de tudo, inclusive do afeto, a conversa gratuita surge como uma relíquia de resistência. Não gera lucro. Não serve a um propósito claro. Não monetiza o tempo. É, nas palavras de Ernaux, «anticapitalista», porque não produz valor material, apenas um vínculo efémero e partilhado. Um tempo suspenso, uma pausa sem função.
De algum modo nesse gesto há algo radical e profundamente poético, em sentar-se com outro ser humano sem esperar nada. Conversar é um ato de desobediência. É recuperar uma das funções primeiras da palavra. Não convencer, não vender, não performar, mas partilhar. Walter Benjamin escreveu que cada conversa casual pode conter uma centelha de verdade. Marcel Proust recordou, por sua vez, que o tempo recobrado nasce menos do desejo de dominar o mundo produtivista do que da escuta atenta das suas variações. Talvez tenhamos desaprendido essa escuta. Talvez a tenhamos substituído pela gestão constante da atenção e da resposta.
Escutar alguém sem apressar respostas, divagar sem rumo, interromper-se, perder o fio, rir, partilhar um silêncio entre duas frases. Quem ainda se permite esse luxo? O algoritmo não o recompensa, apenas o extrai. A pressa não o tolera. Mas talvez a imaginação, essa faculdade esquecida de tocar o invisível, encontre aí um refúgio contra a aridez do mundo. Os sufis diziam que há formas de saber que não se aprendem, que chegam através do silêncio, da escuta demorada, daquilo que não se conclui. Conhecer, para eles, era também demorar-se.
Nesse horizonte, o inútil, nesse sentido, não é ausência de sentido, mas outra forma de o habitar. A inutilidade não nega a ação, liberta-a. É o que faz a arte quando se recusa a ser mercadoria. É o que faz a amizade quando deixa de contabilizar favores. É o que faz o pensamento quando não procura utilidade imediata. Talvez o inútil seja a última forma de beleza possível num mundo saturado de fins. Pensar, criar ou conversar sem finalidade aparente é desafiar a lógica produtivista cujo pulso nos transforma em gestores da nossa própria existência. O artista que pinta sem expectativa de sucesso, o músico que improvisa sem gravar, o leitor que se perde num livro sem intenção de o comentar nas redes. Todos eles exercem uma forma de resistência silenciosa. Na sua aparente ineficácia reside uma ética, a de permanecer fiel ao tempo interior.
Talvez o inútil seja a última forma de resistência
possível num mundo saturado de fins.
Vivemos num presente que mede tudo em termos de impacto e rendimento. Até o compromisso social ou a sensibilidade ecológica parecem exigir uma rentabilidade simbólica. Mas há um tipo de gesto, pequeno, invisível, inútil, que escapa a essas métricas. Preparar uma refeição sem a fotografar. Cuidar de alguém sem o publicar. Falar com um desconhecido sem trocar contactos. Gestos que não deixam rasto digital, mas deixam rasto humano.
Talvez o inútil seja a última forma de beleza possível num mundo saturado de fins. A lentidão, o silêncio, a conversa sem objetivo, a contemplação, todos esses atos «improdutivos» devolvem-nos uma forma de dignidade. Não porque sejam moralmente superiores, mas porque nos recordam que existir nem sempre implica produzir. Como escreveu Simone Weil, «a atenção pura é oração». Talvez escutar o outro, sem pretender corrigi-lo nem melhorá-lo, seja a forma contemporânea dessa oração.
É precisamente neste tempo acelerado, em que tudo deve tornar-se conteúdo, impacto ou resultado, a conversa inútil, no seu melhor sentido, oferece outra possibilidade. A de não servir. A de permanecer entre. Entre um corpo e outro, entre duas vozes que se procuram, entre pausas que não pedem ser preenchidas. Talvez seja aí que começa a verdadeira subversão. Ou talvez o gesto mais antigo do mundo. Olhar alguém, escutá-lo e simplesmente estar. Um intervalo sem cobiça. Uma presença sem finalidade. E se fosse aí, nesse gesto mínimo e esquecido, que começasse, afinal, a verdadeira revolução?
Texto originalmente publicado na revista Ethic.
Tiago Alves Costa é escritor e professor universitário.











