10 poemas de Maria João Cantinho
Fotografia da autora por Vitorino Coragem.
Deixa que o vento escreva a luz
Deixa que o vento escreva a luz
por dentro dos ramos das árvores
e os teus gestos leves
dancem no fogo da tarde
repetindo a caligrafia destas sílabas
de vento, fazendo oscilar a folhagem
não olhes para trás nem em volta
concentra-te na dança invisível
na música fulgurante que há
no deslizar dos dias.
*
Navegando
É quando se acende o desejo
que a nossa loucura recomeça,
e a tua urgência, meu amor,
desaba sobre o meu corpo.
As tuas mãos, meu amor,
que me procuram, sôfregas,
e me fazem navegar,
esse sortilégio
que me leva ao êxtase.
Sigo-te, nesta viagem
pelo avesso da ternura
e digo-te palavras enlouquecidas,
canto o tempo, canto a noite,
meu amor,
desaguando nesta enseada infinita.
Lá fora, o rumor quieto do mundo.
*
Espero-te
Espero-te.
E a noite desliza mansamente
por dentro dos sons
aguardo o relâmpago
das tuas palavras
atravessando a escuridão.
Sonho, enquanto te espero.
A vida acontece
em vibração contida
no movimento lento do desejo.
Canto-o.
*
Escrevo ainda
Escrevo ainda
para te dizer a irisada luz
neste turbilhão que nos arrasta
as palavras no vento
e os sons no secreto rio.
Nomeio as coisas
no silêncio de fogo.
na ânsia de tocar-te.
E chamo-te
no avesso da noite
que nos separa.
Falo do tempo,
das coisas que são nele
do que se escoa
e retorna
como as ondas.
Somos nós, na filigrana dos dias
em voo altíssimo, solene.
*
A luz da manhã varre a casa
A luz da manhã varre a casa
como um incêndio, percorre o chão
as prateleiras, dando-lhes vida,
lá fora é o rumor da vida que emerge
os sons do quotidiano
que também entram neste poema.
E vejo-me diante da página
que não o é exactamente,
mas o écran vivo onde escrevo.
E todos os sons reclamam o sentido
A luz reconfigura as breves sombras
As estrofes trazem para dentro de si
O caos, a angústia, o desfazer da noite
E o milagre da beleza
Que atravessa esta manhã de julho.
*
Um sul mais ao sul
Ouvir a respiração das areias
e saber que nada nos é dado
a não ser esta porção de terra
que nos serve e nos é raiz.
Seguir o rasto dourado
do deserto que se recorta
contra o azul do céu,
e caminhar
na senda dos grandes viajantes.
Perdermo-nos por querermos
compreender
o que nos canta a vastidão
deste mundo em que sonhámos
abolir as fronteiras.
Viajar como se fosse
o último desígnio
seguindo sempre o Sul
como o derradeiro sortilégio.
*
Apesar de tudo
Na verdade poucas são as coisas que importam
ou as palavras que ficam
após teres desaparecido
parecia tudo muito e urgente
nessa pressa com que me olhavas
o riso tornou-se marmóreo com o tempo
e a ironia desfez-se
como a poeira da tarde
apesar de tudo
ainda te vejo
e penso como tudo
deixou de ser importante
nem sequer o monte de destroços
que ficou
à tua passagem
a memória tem esse condão
de reduzir as coisas
à sua dimensão exacta
nem mais nem menos
simplesmente apagável
como um vendaval
que deixa o silêncio atrás de si.
*
Dai-me a sombra
Dai-me a sombra
de uma árvore antiga
em que eu possa
encostar-me às suas raízes
trazendo até mim
o roçagar da infância
dai-me um claro rio
de seixos macios
onde possa mergulhar
e encontrar o fundo
trazendo no meu corpo
a ampla liberdade
dai-me o som de uma harpa
onde o deus do vento se esconde
e faz cantar o dia
até que a sombra da árvore
se dissipe na escuridão
lembrando-me a passagem das estações
e a casa longínqua.
*
Na verdade, são poucas as coisas que contam
Na verdade, são poucas as coisas que contam
no amor a guerra termina
e as cicatrizes fecham-se
transformando-se em passado longínquo.
As palavras que se disseram
perdem o seu fulgor
e tudo se nivela
na passagem entre os amantes,
tudo devém mais ou menos igual.
Não lamentes nada
nessa passagem do tempo
tudo é como um rio
lavando as margens
e procurando o mar.
*
Tom Waits
Tom Waits (de António Pinho Vargas)
Escutar-te, na madrugada
leva-me ao coração do dia,
desfiando Closing Time
e Rain Birds.
Bastam-me as tuas notas
para celebrar o meu dia,
ainda antes do cheiro
do pão amanhecido.
E detenho-me
nas tuas mãos
percorrendo as teclas,
a manhã devém fulgor.
Maria João Cantinho nasceu em Lisboa, em 1963. Viveu em Angola durante a infância e retornou a Portugal após o 25 de Abril de 1974. Estudou filosofia na Universidade Nova de Lisboa, onde defendeu tese de doutoramento em Filosofia Contemporânea. Publicou vários livros de ensaio, poesia, dois de ficção, destacando-se «Do Ínfimo» (Coisas de Ler, 2016), que ganhou o Prémio de Poesia Glória de Sant’Anna em 2017 e foi nomeado finalista do Prémio PEN de Poesia. Em 2020 foi galardoada, em ex-aequo com João Barrento, com o Prémio PEN Ensaio pelo livro «Walter Benjamin: Melancolia e Revolução» (Editora Exclamação, 2019). Tem publicado artigos de crítica literária em diversas revistas e jornais, com destaque para a Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, e JL. A sua poesia está traduzida em França, Espanha, Roménia, Hungria e tem sido convidada em vários festivais nacionais e internacionais de poesia. É membro da DIrecção da APCL (Associação Portuguesa de Críticos Literários) e da Associação PEN Portugal.
Nota: Estes poemas fazem parte do livro «Geografia da Sombra», no prelo.
A Quiasmo cresce com os seus leitores.











