“Que o nosso dia seja inteiramente consagrado ao espanto” I 3 poemas de Rita Tormenta
Foto da autora: Vitorino Coragem
Ensaio para poema de amor
Hoje o sol está resplandecente, meu amor.
Da janela vejo pessoas de mãos dadas, sorriso franco e passada firme.
Nas árvores dezenas de avezinhas anunciam primaverazinhas precoces.
Um ancião gentil vai desejando bons dias a quem passa.
Um senhor bem posto agradece ao universo a sorte que lhe coube.
Uma mulher magra distribui pão quente.
Tudo isto só porque o dia está especialmente bonito e luminoso.
Acho que o efeito do analgésico está a passar…
Estamos em 2025, chove, talvez seja melhor não dizer mais nada, não quero alterar o título.
Arranja -me outro analgésico, mas desta vez traz-me um que seja mais forte, meu amor.
Inédito 2025
*
Ignoremos o mundo
Deixemos lá fora a feiura, a tempestade
As derrocadas e os derrotados.
Ignoremos o mundo hoje.
Que o nosso dia seja inteiramente consagrado ao espanto.
Eu dedicar-me-ei a contemplar o escanhoado irrepreensível da tua barba
E o vinco perfeito das tuas calças .
Tu, vislumbrarás sóis embrenhados no desalinho indomável do meu cabelo e comerás uma
a uma todas as minhas palavras.
Ignoremos o passeio matinal do fascista, o desfile vespertino do capitalista,
o osso entalado na garganta da ministra e a fome nocturna e inoportuna do sem- abrigo
Ignoremos pois o mundo.
Ébrios, lascivos e insones.
É chegada a hora de reprimir o vómito, silenciar a denúncia e evitar a revolta.
Redesenhar o corpo
Dos mapa mundi aos portulanos
Amanhã tudo regressará ao seu lugar
A feiura, a tempestade, a derrocada e a derrota
O vómito, o fascista, o capitalista, a ministra
E até o sem- abrigo.
o mundo voltará a ignorar-nos.
Por isso te peço
Só por hoje
Ignoremos o mundo
Inédito 2026
*
“hope is the thing with feathers”
Emily Dickinson
Tenho Fome de ti.
Banquete algum a saciará.
Fome da tua imprevisibilidade, fome do teu animal, fome do centro do teu corpo.
Estou cheia.
Cheia de Mundo.
Vomito-o em golfadas contra as esquinas sujas
da cidade.
Comer-te-ia como o pão de cada dia.
Comer-te-ia como se fosses poesia.
Metáfora a metáfora.
Vilancete por vilancete.
Até asfixiar a rima e domesticar a métrica.
Estou nauseada.
Sinto a longa noite a instalar-se ante a nossa indolente indiferença.
A nossa raiva doméstica, feroz como um caniche enroscado no meio das pantufas puídas do banqueiro demente.
Tenho Fome de ti.
Como-te ao sol, ao sal, ao medo, tártaro, em carne viva, mata adentro.
Até olvidar os ângulos da cidade, até anular o cheiro pútrido da capitulação dos inquietos.
Tenho fome de ti.
Dei o teu nome a todas as ruas em todas as cidades
Para me assegurar que te encontraria em todas as esquinas.
Tenho fome de ti.
Repasto algum a saciará.
Inédito 2025
*
Rita Tormenta, nasceu no Porto em Abril de 1970, cresceu em Lisboa e actualmente reside em Almada, é uma autora com formação em Teatro ( ESTC). Percurso diversificado que inclui vários anos e projectos de educação para a sensibilidade, organização de eventos e dinamização de tertúlias, hotelaria e análise de conteúdos. Estreou-se na escrita com Centrifugar Angústias a 1600rpm( Safe Space), em 2022, seguiu-se O Pequeníssimo Livro de ti, em 2023 e em 2025 Jugular Exposta ( The Poets and Dragons Society Está publicada em diversas revistas e colectâneas. Sobre a sua escrita disse António Cabrita, in Jornal Expresso “Uma poesia autoirónica que nasceu de uma ideia de beleza não domesticável”.














