Um dia de setembro I Everardo Norões
Argel. Setembro de 1973. Época marcada pela vaga da descolonização. Últimos dias para a Conferência dos Países não Aliados. Uniram-se, doze anos antes, para se contraporem à ideia de um mundo bipartido entre os Estados Unidos e a então União Soviética. Os mais de cem países haviam formado bloco buscando se firmarem no concerto das nações. A Argélia era um deles e dos mais importantes. Ex-colônia francesa, grandes reservas de gás, petróleo, minérios. Vasta dimensão territorial e uma localização estratégica na bacia do Mediterrâneo.
Lugar de inúmeras incursões estrangeiras no passado, a antiga Argel havia sido dominada pelos turcos. Época em que era conhecida como a capital de piratas. Miguel de Cervantes, autor do Dom Quixote, ali viveu cativo durante cinco anos, após ter sido capturado por corsários bérberes. Na ocasião, o autor do Dom Quixote estava de retorno da histórica batalha do Lepanto, travada entre católicos e muçulmanos na costa da Grécia. A Argélia havia sido colonizada pela França durante 130 anos. Até que o movimento de independência empreendeu uma luta que duraria de 1954 a 1962. Oito anos de guerra sangrenta, na qual militares franceses revelaram-se na tortura e matança a sangue-frio de prisioneiros.
Vários desses especialistas em técnicas de interrogatório e assassinatos foram, em seguida, “exportados” para a América Latina. Um dos mais notórios, Paul Aussaresses, ex-adido militar no Brasil durante a ditadura militar, findaria despojado da farda e de todas as honras pelo governo de seu país. Outros fatores levaram a Argélia a assumir papel de relevo frente ao grupo de nações que se tornaram independentes e faziam parte do então chamado Terceiro Mundo. À época, era presidida pelo coronel Houari Boumedienne, um dos comandantes da guerra de libertação frente à metrópole francesa. Conhecido como homem de extremo rigor e disciplina, inclusive na sua vida privada. Raramente era visto em público, a não ser em cerimônias oficiais.
Em junho de 1965, ele assumiu a presidência do Conselho Revolucionário após o golpe de estado que derrubou o então presidente Ben Bella. Boumedienne permaneceria à frente da Argélia até sua morte em 1978, aos 46 anos. O país se caracterizava pelo acolhimento a exilados e militantes de várias origens. Postura que às vezes contrariava governos com os quais mantinha relações diplomáticas. Caso do Brasil, época do governo João Goulart, um dos primeiros a reconhecer a independência argelina. Goulart, logo depois, seria deposto por força do golpe militar de 1964. Apesar dessa mudança de regime os dois países mantiveram relações diplomáticas. Mesmo assim, a Argélia oferecia guarida a políticos e militantes brasileiros perseguidos pela ditadura. Entre eles, Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco.
Na primavera de 1973, o país era sede da Conferência dos Países não Alinhados. Por medida de segurança alguns exilados foram encaminhados a lugares distantes de Argel. Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco, o matemático Bayard Boiteux e eu fomos levados a Hammam Righa, distante 100 km. da capital. Hammam significa água morna, em árabe. Righa, denominação de uma tribo da região. A cidade é encravada numa região conhecida desde a época da presença romana por suas águas termais.
Havia a expectativa da participação de Salvador Allende na Conferência. Circulavam informações sobre a movimentação de militares golpistas no Chile, de forças da extrema-direita e agentes dos Estados Unidos. Tudo a indicar a preparação de um golpe de Estado contra o governo aquele país. Entre os latino-americanos uns poucos consideravam a vinda de Allende possível. Outros já vislumbravam indicativos da iminente derrubada do governo da Unidade Popular.
Na pousada em que ficamos alojados passamos aqueles poucos dias entre leituras e conversas, acompanhando o desenrolar de episódios no Brasil e na América Latina. Tínhamos informações sobre o estreitamento, cada vez maior, entre a direita chilena e os serviços de inteligência do Brasil e dos Estados Unidos. Documentos secretos, somente revelados ao público anos depois, já comprovavam aquela estreita colaboração.
Era o 11 de setembro quando tomamos o trem de volta rumo a Argel. Sintonizamos o rádio de pilha. Escutamos a notícia do desenrolar do cerco do Palácio da Moeda, no Chile, que culminaria com a morte do presidente Salvador Allende, o grande ausente naquela Conferência dos Países não Alinhados. Entre nós, apreensão e silêncio.
O trem noturno atravessando o país de acolhida. Noite escura. O vagão do trem quase sem luz. E a certeza de que o Setembro estava a nos anunciar um exílio ainda mais longo.











