7 poemas de Sholeh Wolpé
Poemas de Sholeh Wolpé
Tradução do inglês/espanhol por Tiago Alves Costa
Seleção de poemas de Abacus of Loss: A Memoir in Verse (University of Arkansas Press) e Ábaco de la pérdida (Visor Libros).
CONTO III
Todas as sextas-feiras o avô leva-nos, a mim e aos meus irmãos, a um circo cheio de tigres, elefantes, cavalos e homens de torso nu com collants reluzentes. Há mulheres mais pequenas do que o meu corpo de menina, animais maiores do que o meu quarto. Tudo é extremamente divertido até aparecer o gigante de quatro caras. Os meus braços começam a tremer. Arrepios percorrem-me até à ponta dos dedos. O avô toca-me no ombro e diz: É apenas uma máscara na cabeça dele.
Mas eu sei que não
porque tudo o que se ama
— um belo dia com o avô
naquele circo de Teerão,
o algodão-doce pegajoso
derretendo a sua canção rosada na minha boca,
os meus irmãos, travessos,
com dentes de alegria —
arde sempre em direção
a um futuro ainda por chegar,
fogo-de-artifício na minha mente,
faíscas soldadas a cada memória.
*
CONTO VI
Sete prazeres:
- Escapulir para o terraço quando todos dormem
e bronzear-me sob as estrelas, em roupa interior,
enquanto falo com Deus. - Urinar no canal quando passa Ahmad, o valentão.
Ele merece até à última gota. - Espiar pelo olho da fechadura em qualquer momento
e em qualquer lugar. O que há do outro lado é sempre mais interessante. - Procurar nos armários altos da cozinha
as bolachas de passas que a mãe compra
na padaria Imperial da rua Amir Abad. - Dançar numa mesquita.
E estar pronta para morrer logo depois. - Ao cumprimentar o rapaz de quem gosto,
deslizar o meu número de telefone
para a sua mão suada. - Dizer não quando tudo o que eles querem
é um sim.
CONTO I
O lar é um dente que nos falta.
A língua procura
rigidez,
mas só encontra
ausência.
*
CONTO III
Querida América,
costumavas entrar de mansinho no meu quarto,
lembras-te?
Eu tinha onze anos e tu vinhas,
noite após noite, a Teerão; deslizavas
da velha rádio da minha secretária,
passavas pela pilha dos deveres de matemática,
sobre o gasto tapete persa,
e investias contra mim
com os teus golpes de rock and roll.
Amava-te mais do que a um chiclete,
mais do que às bananas importadas
que vendiam na rua por um olho da cara.
Pensava que eras azul, América,
como o vestido novo da mãe,
e kumquats,
e laranja, céu e papoilas.
Sonhava contigo, América, sonhava
contigo todas as noites
com a ferocidade de uma criança perdida
até te tornares real
como a carne.
E quando cheguei,
investiste contra mim
como uma gargalhada.
*
CONTO II
Somos todos árvores erguidas,
dirigindo-nos para o inverno.
Perder as folhas
é o nosso maldito destino.
*
CONTO IV
Um carro de cartão pintado
dá passagem
a um palhaço após outro.
Como os amores:
o soldado, o ladrão,
o trapaceiro,
o advogado psicopata.
*
CONTO IV
Digo que Deus não passa de um vagabundo
que vende bombas e espadas
e o pai diz que não voltará a falar comigo.
A tia telefona e discursa durante horas.
Os meus irmãos abanam a cabeça, incrédulos.
Perguntam-me porquê, mas respondo
numa língua que eles rejeitam,
impressa numa bandeira que não reconhecem.
Um monte de pontos de interrogação
deixa passar mais oxigénio
do que pontos finais
e pontos de exclamação.
Digo à mãe:
Olha, estou banhada em luz.
Ela diz:
Não, querida, é Deus que abandona a tua alma.
*
Sholeh Wolpé é uma poeta, escritora e libretista iraniano-americana. A sua obra literária inclui sete livros de poesia, várias peças de teatro, cinco livros de tradução e três antologias, além de textos e libretos para coro e ópera. Entre os seus trabalhos mais recentes encontram-se The Invisible Sun – Attar (HarperCollins), Abacus of Loss: A Memoir in Verse (University of Arkansas Press) e Ábaco de Pérdida (Visor Libros, Espanha). É Writer-in-Residence na University of California, Irvine, e vive entre Barcelona e a Califórnia.













