10 poemas de José Carlos Marques
ENVELHECER – DEZ POEMAS PARA A MARGARIDA
1
Fiel da balança
Nessa sopa de tudo
que é o mundo e a vida,
és tu o sal e contudo
na exata medida.
E assim temperas,
dás o gosto e conservas
e através das eras
e de aromáticas ervas,
melhor que qualquer poesia,
és o fiel da balança,
a inteireza do dia
em nossa cósmica dança.
*
2
Semissoneto
Natal florido
Rosa de inverno
Ser dolorido
Interno externo
Sangue delido
Sombra de inferno
Ser combalido
Mesmo se terno
Nesse furor
Nessa incerteza
Nesse temor
A só firmeza
A só certeza
Do teu amor.
*
3
Rondó
Gela no frio o inverno os ossos
O teu calor salva-me e acolhe
Reluz em mim, longe os destroços
No inverno os ossos, no mar o molhe
Salva-me e acolhe o meu destino
Afasta destroços erguendo o hino
O teu calor salva-me e acolhe
Reluz em mim, longe os destroços
Batendo a vaga no duro molhe
Reluz em mim o doce olhar
Bem alto o hino ao céu erguendo
Pra longe dos ossos o rude mar
Vagas que assaltam entontecendo
E logo caem ao se arrastar
Mansos cordeiros do teu amor.
*
4
Triolete
A cada ano os anos passam
Passando e amando – e com eles nós.
Passam os dias – velozes traçam
A cada ano os anos. Passam
E com eles nós. Por mais que façam
Lentos os dias correm prà foz,
A cada ano os anos passam
E eles passando e amando nós.
*
5
Três Lustros
Belíssima resplendia no outono aquela árvore.
E a árvore dela nascida uniu-nos no abraço quente
da noite de inverno.
Lustro após lustro feitos de outonos algumas folhas secam.
Coberta de oiro parece ir secando.
Depois dorme.
E logo rebenta
e brota de novo.
No ciclo sempre vivo que nos traz abraçados.
*
6
Envelhecer
Envelhecer é ir a muitos funerais
É não poder ir a muitos funerais
A cada vez mais funerais Tantos
Que o coração enrijece
E já só vemos a alegria de estar vivos
Dos alegres vivos que encontramos nos funerais
A alegria de podermos cuidar dos vivos
De estarmos ainda vivos no meio deles
Não temos mais lágrimas para chorar os mortos
Nossos sacos lacrimais recusam-se ao trabalho
Exauridos
Mortos que amámos
Ou amámos por eles quanto com eles vivemos
Que agora nos fogem Nos deixam para trás
Vivendo e aguardando aquele grande rio Eufrates
Que em seu majestoso curso a todos nos contém
Vivos e mortos
E para o ignoto mar avança sempre
Sem nos pedir licença
Sem esperar por nós.
*
7
Primavera no início
Que há no horizonte além de futebóis e carnavais,
de emoções em tropel nas telenovelas,
de intrigas e bisbilhotices ah não! no feicebuque?
Sim, grandes horizontes – a taxa de juro,
a dívida astronómica, os esmerados inventivos
produtos financeiros. A corrupção impante temerária.
Onde o espaço para mais?
Só se forem os primeiros botõezinhos nos ramos
de onde sairá a abundante folhagem generosa.
Só se forem os tojos de um amarelo brilhante
reproduzindo o sol a uma taxa exponencial
fazendo empalidecer de inveja qualquer city
qualquer wall street ou até banco central.
*
8
Quietude
Irrompe subitamente a velha força ela que declinava
sem remédio. Força do sangue força da carne
força da ilusão
declinante sempre descendente sempre e sempre se iludindo
no espelho da sempre ilusória renovação.
Com pouco se move de muito se recorda do frio faz
uma fornalha onde o vento vadio a chama
ergue
incapaz já de levantar de novo o voo.
Ela a chama altiva a chama de um calor fonte de vida e do aconchego
que a vida mantém viva longe do frio.
O frio o frio do sangue o frio cortante do vento agreste o frio mais frio
quando um dia se tornar o frio imóvel
o frio que nos leva a voltarmos o rosto ao sol
que por trás da montanha quer enfim subir ao zénite e abrigar-nos.
Essa força que conheces ou de que apenas já te lembras
essa força que se oculta numa máscara súbito atravessada diante do teu olhar
essas brasas volvendo cinza
essas línguas de fogo amortecendo até ao abrigar da morte.
Ainda a vives na presença mas é já memória o que vives
e de facto não podes viver e não queres viver essa presença
incapaz já do tumulto do desassossego da irrequieta perturbação
trazida pelo sangue pela carne pela ilusão pela inquietação.
Sabes bem que é para a quietude que deves caminhar para lá vais
e lá te espera a quietude da quietude nascida no declínio
na travação da marcha cega
no aconchegares-te enrodilhado na quietude
na tranquila quietude esse fim que te acolherá
e livrando-te de todo o esforço te entregará ao repouso para onde caminhas
desde o teu primeiro dia.
*
9
Relicário
Nos seus noventa e muitos anos
rodeada de relicários sempre guardados
e lembranças de tantas décadas
e em poucos deles se demorara pelas escolas
mas muito aprendera nos da vida
permite-se agora inesperadamente um desabafo
ou um queixume ou um vago lamento
e nele exprime tudo o que milhares de páginas não lhe ensinaram
e nem Sartre lhe poderia ensinar a ela que o já sabia
somos uma paixão inútil
inútil como as vidas
nas palavras lhe perpassam em que acabara de evocar
tantas recordações
tantas biografias
com seus acidentes inexplicáveis
tanta neblina de caminhos cruzados
e perplexidades
Mas logo a chamam a uma outra vida não somente
útil
mas inquestionável
– seus dez bisnetos pipilando nas mudas fotografias
sorridentes
como pardalitos aninhados
seu presente nas fotografias já recordação
do que agora mesmo desabrocha
esse outro lado de viver num leve e alegre
bater de asas
e que sobre seus derradeiros anos declinantes
lança aquela luz que há de ficar
quando se extinguir a luz dos próprios olhos.
*
Almeirim/Águas Santas, 11 de outubro de 2016
Almeirim/Águas Santas, 30 de junho-1 de julho de 2017
Com um beijo de despedida
A Minha Tia Maria Luísa Silva Dias Faustino
Em memória de Minha Mãe Isaura, sua irmã
10
Velha Ceifeira
Ela ceifa pobre demente
Ceifa sempre e sem cantar
Que ceifa ela é tudo gente
Corta a direito e sem olhar.
Não corta erva não corta trigo
É tudo a eito sempre a rodar
Quem ela corta seu inimigo
Quem vivo está sempre a cantar.
Os vivos ceifa com seu gadanho
E ela nisso mui se compraz
Corta tudo num arreganho
E o meu amigo belo rapaz.
É tanta gente e vai tombando
Seus inimigos em nossa volta
Nossos amigos vão deslizando
Em suas mãos reviravolta.
Quem tem amigos que ela poupe
Como triunfa como se atreve
Tão bem cortar como ela o soube
A nossa vida – vida tão breve.
Nunca se cansa e nada a pára
Segura ela tem grande vitória
Vitória rara – é uma derrota
Será vencida na luz da Glória.
Saudade de Artur Castro Neves e
A tantos amigos queridos.
José Carlos Costa Marques nasceu no Porto, Portugal, em 1945. Editou em 2025 uma antologia da sua poesia, publicada e inédita, com o título Uma Só Pétala, que alude ao livro Flor de Um Dia, de 2009, no qual reuniu a sua poesia, a maior parte dela então inédita. Um dos quatro fundadores da DiVersos – Poesia e Tradução, de que é o atual editor. Os poemas aqui inseridos pertencem à secção Fornalha de Inverno, uma das três do livro inédito Três Em Um, que tenciona mandar imprimir em 2027. As outras duas secções intitulam-se A Tropeçar no Mundo – Vida Breve Poesia Breve (2014-2025) e Meninice (1959-1963).














