Dez poemas de Mariana Carrilho
Kauri
Guardar um kauri
é assinar a pertença
ao poder de outros tempos.
O que nem todos sabem
é ouvir
as suas respostas.
*
Luto
Hoje ergueu-se uma nova igreja.
E eu que pensava saber tudo
De uma ponta à outra
entendi que
saber-te perto é a única certeza.
Uma cruz a sete palmos,
tu no sétimo céu.
*
Maltrato
A insónia é um ente
que te levanta
quando desfaleces,
que te golpeia
quando pensas,
que te pisa
quando deitas.
Os meus olhos doridos já não sabem
se vêem o dia a nascer
ou as estrelas de uma nova pancada.
*
Solidão
Em casa pairava
a alquimia
da ausência.
As goiabas que já não estavam,
os pensamentos que passavam.
E então arrancava
alguns frutos silvestres
que não se podiam comer,
para a minha poção
Mágica…
Antes que alguém chegasse.
*
Estrangeiro
Sopro a areia
e cada grão entoa
uma fronteira.
Ténue linha que se impôs às minhas perdas.
Ganhei o equivalente.
*
Poema 9
Meu amor tem uma cicatriz na cara.
Outra na alma. E eu na barriga.
Só́ assim nos podemos amar.
*
Borboleta branca
A minha avó me visita
e a curandeira corrobora
Que ela sussurra em todas as borboletas
que voam à janela.
*
Incandescente
A alma é tão cristalina
que não sei se (a) vejo
Ou se tanto faz ver.
*
Independência
Hoje visitou-me um espírito
e o meu coração se deteve.
Desde que vieste
não parou de chover.
Não entendo nada do que escuto
e as horas são dias.
E os arrepios são brindes
que ressoam no corpo
E partem os copos
que se querem soltar.
O espumante transborda
e as ondas
ardem as feridas.
A minha alma cicatriza
Os gritos seculares
de quem alçou a mão
E pereceu na dúvida.
*
Longe de casa
A minha mão já não abre portas.
Forço as fechaduras com o corpo
e no limbo
o único conforto
é o tapete do portal.
Qual será a fórmula
dos que vejo correr
enquanto rumo lentamente às escadas?
O arco corrupto
dos sorrisos sádicos?
Ou os bolsos que rebentam
de fomes deturpadas?
Sofro de avulsão
por falta de pressa
levo comigo
mil vontades amputadas.
Subo com temor
e o corrimão esmorece.
Um degrau é uma eternidade
para um espírito que coxeia.
O Ocidente me adoeceu.
A minha mão já não abre portas.
♦
Da imponência à escalada vertical, na poesia de Mariana Carrilho, surgem vários triângulos de amor. De traços lineares mas com a identidade de uma escrita unida às fronteiras geográficas, essa poesia traz até nós o silêncio preso à terra da ancestralidade e as marcas do tempo no seu próprio corpo.
A casual interferência que possa ser vislumbrada nestes seus poemas é própria dos poetas que iniciam a mostra do que é seu mas não se expõem completamente. A leitura destes poemas é clara. A música estará sempre unida como ária que acompanhará a vitalidade da sua poesia.
Inez Andrade Paes
Mariana Carrilho é uma artista multidisciplinar e mezzo-soprano moçambicana que explora a voz como lugar de passagem para o invisível. O seu percurso une palcos emblemáticos – como o Palau de la Música Catalana ou o Théâtre de Bastia – a uma prática experimental moldada por residências como [RE]CANTOS (Iberescena) e UpCycles (Fundação Calouste Gulbenkian).
Distinguida em 2025 com a Bolsa de Mobilidade e Criação da Cooperação Suíça (Moçambique) pelo projecto Flor do Ibo, a sua obra transita entre a música, a poesia, o audiovisual e a performance.















