II (O Espelho)
Sou de uma espécie
que tem código postal selvagem,
garganta sem número fiscal.
Nunca fui infiel aos vulcões.
Tenho na laringe
uma projecção de lava genuína
e é nos alvéolos do bosque
que arquitecto a embolia da faca.
Na cidade,
os homens,
lenda carbonizada
onde se fabrica a vénia.
Vão florindo os patrões,
inquilinos do Mein Kampf.
O amor industrializado.
As suas mecânicas glaciares.
Os ambulantes úteros
escrevendo múltiplos cometas.
O sexo,
condomínio moderno
que respira
os mesmos rombos
da Idade Média.
Estão longe os dias
que flutuavam no peito
as tonalidades de Malevich.
A infância,
cume no verde epitélio de tudo.
As artérias
escoltando dicionários inabitáveis.
O decote do pólen.
A maternal equação
que caducava fantasmas.
Mais tarde,
a montanha em burnout.
Persigo as paisagens sonoras
de Arseny Tarkovsky:
A alma já está farta
De ficar confinada dentro
De uma caixa, com orelhas e olhos
Do tamanho de moedas,
Feita de pele – só cicatrizes –
Cobrindo um esqueleto.
Pela córnea ela voa
Para a cúpula do céu,
Sobre um raio gélido,
Até uma rodopiante revoada de pássaros,
E ouve pelas grades
Da sua prisão viva
O crepitar de florestas e milharais,
O troar dos sete mares.
Uma alma sem corpo é pecaminosa
Como um corpo sem camisa:
Nenhuma intenção, nem um verso.
Somos a estirpe
que se alumia de gaiolas.
*
I (Nostalgia)
Há muito tempo
que afoguei o e-mail de Deus.
O meu corpo,
sete longas-metragens.
Tenho agora
um realizador nos pulmões
e o oxigénio
com a democracia na cave.
Sou de uma nação
onde o livre-arbítrio
está cercado de melanomas.
Offshores em todos os tentáculos.
Os tribunais,
bouquet de recursos.
E a fraude,
réptil que prescreveu.
Sou nómada,
clima semântico
que não admite cifoses.
Atravesso os catálogos regressivos
com a laringe na insónia.
A garganta,
sniper do totalitarismo.
O caudal austero das ditaduras
quer uma farmacologia
de mentes inócuas
que fiquem sitiadas.
As células,
cancerígena matéria
a leiloar a avalanche.
O exílio é um roedor
e foi em Tonino Guerra
que li a melhor triagem do aluimento.
Quando visitaram a casa, no velho quarteirão da cidade,
encontraram Shirikawa já morto de fome, no seu quarto de dormir.
O apartamento tinha ainda dois outros aposentos. Ambos sem mobília (…)
Na terceira sala, o pavimento apresentava-se coberto
por um manto de arroz muito branco.
Shirikawa nascera em Chichibu, uma aldeia no Norte do Japão (…)
Quando o levaram com a liteira, alguém experimentou deitar-se na cama (…)
Com a cabeça pousada sobre o travesseiro, para além do corredor,
viu o quarto com o pavimento de arroz. Saboreou a doce contemplação
da neve pousada e, até a cor de cinza da parede do fundo
parecia inverter-se para formar um céu frio e invernal (…)
Shirikawa, desde há alguns anos, sofria com saudades da neve.
Aquele era um lugar onde nunca nevava.
Mesmo proscrito,
recusa que a Nostalgia
desmantele qualquer desfiladeiro
para obteres sândalo
com a amplitude
da Nona Sinfonia de Beethoven.
Quem tutela as metástases do tempo?
Não há catedral
que contorne infinitamente a morfina.
*
III (Nostalgia)
O amor
no seu passo longínquo
move-se nas veias
como uma raposa.
A dopamina
constrói perímetros insanos
e transporta
o furor meteorológico
de um comboio.
O lapso,
pensar que as garras
estavam subnutridas.
O sublime respira
em brônquios enevoados.
E a claridade
precisa de cheirar
uma biografia escura.
Tudo o que aspira à elevação
tem de tremer profundamente.
Os olhos já foram
pauta de Prokofiev.
Eram inúmeros os instrumentos
a caminhar no indecifrável.
Partiam da garganta hospícios
que floriam em todas as coisas.
A mulher procurava
um animal em extinção.
Alguém com ritmos frondosos
que não licitasse gaiolas no peito.
O homem punha o ego em contraluz
para se emancipar das futilidades.
De súbito,
a mulher ampliada de astros.
O homem,
cometa escoltado
por uma magnólia convicta.
A língua
na galeria auricular
recitando uma avalanche azul.
Os ombros,
átrio de um templo.
As pupilas
fazendo parapente
entre montanhas.
E os gestos
sem orações daninhas
anunciavam
a derradeira tournée à intimidade.
Depois o promontório.
Logo abaixo,
Museu Pushkin.
O homem
percorria vagarosamente
os corredores
até que a mulher
o deixasse observar
um quadro húmido.
Em seguida,
o arco-íris sem franquia.
A mente,
hábil camaleão.
Respira o junco
em tudo o que foi divino.
O homem não soube administrar
o fluxo do seu piano
mergulhado numa assoalhada distante.
Tem agora
a música interior decrépita
uivando por uma ligadura.
Se tivesse ouvido
a sentença de Blanca Varela,
sabia:
a eternidade é a obscura dobradiça que cede
ao mínimo estalido na noite da carne.
No fim,
o corpo depondo
pulsa num tribunal vazio.
Consegues citar uma obra de arte
que não tenha vento no interior?
*
V (Nostalgia)
O silêncio,
erógena corrente
de imagens precárias.
Disseram que Agosto
era ave a ilustrar
candelabros nos dias.
E o corpo,
enredo de harpas
na truculenta
luz das fábulas.
A garganta
que se pensava
definição de arte
não entende
a imobilidade dos lábios.
Galeria de constelações,
a língua,
onde em tempos,
além dos astros
e da Madonna del Parto,
os pianos
não tinham sido raptados.
Pronunciar Verdi,
Stravinsky,
Bach,
era lacre
na literacia dos poços.
Contigo vieram as montanhas
e a boca aprendeu
pólen sobre as aréolas.
As mãos a cheirarem
os sismos pelos flancos.
Nos olhos a chuva inaugural
ou o Volga,
nunca soubemos.
O amor,
insónia cravada
no perfume.
As flores no útero.
A límpida manhã interior.
Labaredas.
Algo de íngreme.
Espaço onde se podiam
citar magnólias
ou o semblante do gengibre.
De que magma são feitos os tendões dos lírios?
De súbito,
a beleza,
turístico fôlego
a caminho do terror.
A pele forrada
pela retórica das catedrais
que migraram.
Horas
vestidas de negro
como gôndolas
ao redor do ego.
A queda,
bailado urdido pelo vento
nas vértebras da clorofila.
No fim,
ser ainda
uma declamação botânica
no design da cinza.
Ter por pacemaker um bosque.
E se vier o aneurisma
que tenha pássaros.
*
VII (O Sacrifício)
Sê a paisagem
que a cada alento dos pulmões
está reconciliada
com a consciência da morte.
Não rezes
no momento em que o projéctil
ao evadir-se do domicílio
procura a trigonometria do miocárdio.
Um lugar tem sempre
a fruição de duas panorâmicas.
A Ponte de Mirabeau
serviu versos a Apollinaire,
as cordas vocais de Léo Ferré,
mas concebeu em Celan
o último planar do corpo
quando não suportava mais
a delinquência do escuro.
Somos estilhaços
de uma máscara que o tempo alveja.
O discernimento habita sempre
o tórax de um fósforo.
♦
Alberto Pereira nasceu em Lisboa. Licenciado em Enfermagem. Pós-graduado na área Forense. Membro do PEN Clube Português. Publicou doze livros. A sua obra encontra-se traduzida em onze idiomas. Foi distinguido com vários prémios dos quais se destacam: Prémio Literário Conto por Conto (2011); Prémio Literário Agostinho Gomes (2013); Prémio Literário Manuel António Pina (2013); Prémio Internacional Cesar Vallejo (2021); Prémio de Literatura Clarice Lispector (2022) e Prémio Ulysses (2023).
Estes poemas foram escritos ao abrigo da antiga ortografia.

5 poemas do livro “TARKOVSKY” de Alberto Pereira, galardoado com o Prémio Ulysses 2024 e Menção Honrosa no Prémio Literário Glória de Sant’Anna 2024