“Os Jurados” — Mauricio Vieira
Alberto – Quanta honra em ser chamado para ser jurado deste prêmio literário tão renomado, o Poça d’Água, com grande premiação, e muito nome no jornal, e vendas, pois as pessoas só compram o livro que apareceu no jornal e ganhou prêmio, claro, e eu, reles pastor, que nem sou homem doido nem estou doente dos olhos, apenas de todo o resto, me deparo com este livro, este autor, um senhor chamado Fernando,…Fernando, é, vejamos, Pessoa, pseudónimo de certeza, deve ter por nome real Hortêncio ou Amâncio qualquer coisa, bem, este senhor, que concorre com este livro ao prêmio Caixa d’Água, ou Poça de Lama, já não me recordo, e tanto faz, este senhor com certeza deseja a fama, a glória, a notoriedade, a imortalidade, como todos aqueles que se submetem a prêmios literários, para que suas obras, e por extensão eles também, como artistas, sejam julgados por nós, os jurado, pastores de obras, que as conduzimos a campos verdejantes de premiação e celebridade ou a áridos inóspitos desertos de esquecimento, e deste poemário, do qual nada percebo a mensagem, imagino que deva ser bom, ou ótimo, como é boa a natureza, que nada diz, apenas é, e talvez este livro seja assim, nada diz, nada quer dizer, apenas é, como eu, que não tenho ambições nem desejos, mas este senhor Fernando deve os ter, coitado, justo ele, em cujos versos leio uma grande tristeza, que ele nunca disse bem que tinha, talvez por nunca ter tido prémio à sua altura, o reconhecimento, verdadeira recompensa, mas eu já tenho a minha, pois a recompensa de não existir é estar sempre presente.
Bernardo – Lindos como o luar estes poemas, de alguém só e sozinho como eu, mas se são do Senhor Fernando Pessoa, que detesto como pessoa embora dos versos não desgoste, tenho dificuldade em dar minha aprovação, Nenhum prémio certo tem a virtude, nenhum castigo certo o pecado. Nem seria justo que houvesse tal prémio ou tal castigo. Virtude ou pecado são manifestações inevitáveis de organismos condenados a um ou a outro, servindo a pena de serem bons ou a pena de serem maus. Detesto a leitura. Tenho um tédio antecipado das páginas desconhecidas. Sou capaz de ler só o que já conheço. O meu livro de cabeceira é A Retórica do Padre Figueiredo, logo detesto ter de ler estes livros todos que competem ao prêmio, uns piores do que os outros, e seus autores uns mais ambiciosos e mais hábeis no estrelato do que outros, e todos acham suas obras magníficas, mas Fazer uma obra e reconhecê-la má depois de feita é uma das tragédias da alma. Sobretudo é grande quando se reconhece que essa obra é a melhor que se podia fazer. Mas ao ir escrever uma obra, saber de antemão que ela tem de ser imperfeita e falhada; ao está-la escrevendo estar vendo que ela é imperfeita e falhada — isto é o máximo da tortura e da humilhação do espírito. Não só dos versos que escrevo sinto que me não satisfazem, mas sei que os versos que estou para escrever me não satisfarão, também. Sei-o tanto filosoficamente, como carnalmente, por uma entrevisão obscura e gladiolada. Por que escrevo então? Porque, pregador que sou da renúncia, não aprendi ainda a executá-la plenamente. Não aprendi a abdicar da tendência para o verso e a prosa. Tenho de escrever como cumprindo um castigo. E o maior castigo é o de saber que o que escrevo resulta inteiramente fútil, falhado e incerto. Em criança escrevia já versos. Então escrevia versos muito maus, mas julgava-os perfeitos. Nunca mais tornarei a ter o prazer falso de produzir obra perfeita. O que escrevo hoje é muito melhor. É melhor, mesmo, do que o que poderiam escrever os melhores. Mas está infinitamente abaixo daquilo que eu, não sei porquê, sinto, que podia — ou talvez seja, que devia — escrever. Choro sobre os meus versos maus da infância como sobre uma criança morta, um filho morto, uma última esperança que se fosse, Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo isso ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, ante o filho, e estes que escrevem e acham que são gênios, dignos de prêmios e mais prêmios, será que os prêmios são feitos para eles, enquanto que eu, que sei que o sou, prêmio algum me bastaria?
Ricardo – Que horror, quanta mediocridade nestes versos banais, sem métrica nobre, que não bebe nos clássicos, não vai a Horácio, não sabe o que são odes, e este sentimentozinho nefasto, o nacionalismo, Prefiro rosas, meu amor, à pátria, E antes magnólias amo Que a glória e a virtude, Que importa àquele a quem já nada importa Que um perca e outro vença, a voz paternalista ao povo, como um paizinho, ou pior, um avozinho, ó tempora, ó mores, A cada qual, como a estatura, é dada A justiça: uns faz altos O fado, outros felizes. Nada é prémio: sucede o que acontece. Nada, Lídia, devemos Ao fado, senão tê-lo. Sim, sei bem Que nunca serei alguém, Sei de sobra, Que nunca terei uma obra, mas tu Lídia, és meu prêmio literário, bocas roxas de vinho, testas brancas sob rosas, nus, brancos antebraços, Do que quero renego, se o querê-lo Me pesa na vontade. Nada que haja Vale que lhe concedamos Uma atenção que doa. Somos contos contando contos, nada. O que levamos desta vida inútil Tanto vale se é A glória; a fama, o prêmio literário… mas embora pense isto do livro, e do autor, vou dar-lhe nota máxima, pois não quero que o livro daquele outro fulano ganhe o premio de forma alguma, pois aquele sim detesto com todas as vísceras, assim como amo Lídia com todas as vértebras…
Álvaro – A alma humana é porca como um ânus, E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações, Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago, ai que chatice ser jurado, mas pelo menos pagam um bom conto, e não preciso nem ler, apenas fingir que li, e depois dizer que li, e deste livro, do senhor Fernando, que conheço, e é muito meu amigo, cujos versos não li nem muito aprecio, e como fazemos entre amigos, fingimos que lemos os livros uns dos outros e seguimos assim amigos, nas festas nas casas dos editores, Afinal, agora tudo cocaína…Ah, abram-me outra realidade! Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos E ter visões por almoço. Quero encontrar as fadas na rua! Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras, Desta civilização feita com prêmios literários. Quero viver como uma bandeira à brisa, Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer! E não preocupações com prêmios literários. Súbita, uma angústia…Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma! Que amigos que tenho tido! Estou cansado da inteligência. Pensar faz mal às emoções. Sossega, minha esperança factícia! Ele é meu amigo, então vou dar-lhe nota máxima, e dizer-lhe que assim o fiz, pois embora eu não seja nada, quem sabe possa ser um pouco menos do que nada caso um dia o Sr. Fernando seja também jurado de algum prêmio literário e o meu livro caia em suas mãos….
Obs. Todas frases em itálico são de autoria dos próprios heterónimos














