Entrevista com Shahd Wadi: “Na linha que nos separa eu habito”
Shahd Wadi, escritora, investigadora e tradutora palestiniana, traz consigo uma genealogia do exílio, uma história que não começa no indivíduo, mas num ano zero, e cuja persistência se escreve no corpo, na memória e na língua. Uma voz que também foi reconhecida pela Associação de Escritores e Escritoras de Língua Galega, ao nomeá-la Escritora Galega Universal.
A conversa que se segue atravessa aquilo que tantas vezes é separado por compartimentos. Biografia e política. Poema e arquivo. Feminismo e geografia. A Palestina surge como lugar real e como horizonte ético, mas também como uma aprendizagem involuntária da fronteira, esse lugar paradoxal, detestado e íntimo, onde se vive entre a vulnerabilidade e a insubmissão. Aqui, a criação não é fuga, é uma forma de regresso, ainda que provisório, ainda que incompleto.
Regressam também algumas imagens centrais. As casas do coração, feitas de lembrança e de impossibilidade. A fronteira, como residência interior. E a chuva, em Wadi, como esperança concreta, quase táctil, como se a língua pudesse tocar o que a política impede.
Quem é Shahd Wadi?
Sou uma mulher palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Exerço esta minha liberdade também no que faço, viajando entre escrita, curadoria, tradução, investigação e performance.
A minha vida foi gerada no Líbano durante a invasão das tropas israelitas, lugar onde era suposto nascer. O meu pai, o escritor Farouk Wadi, então investigador no Centro de Estudos Palestinianos numa altura em que ser “palestiniano” era visto como crime, foi aprisionado. Perante a decisão da sua expulsão de Beirute, a minha mãe improvisou uma nova vida, viajando para a sua cidade de Alexandria 24 horas antes do meu nascimento, no Egipto, a 3 de fevereiro de 1983. A família mudou-se para Jordânia, lugar onde vivi a maior parte da minha vida, antes de vir para Portugal em 2006.
Todavia, a minha história de vida começou em 1948, muito antes de eu nascer. O ano da Nakba (catástrofe), o ano zero na vida de qualquer pessoa palestiniana. É o ponto de partida para o exílio ou para a vida sob a ocupação. A minha família foi obrigada a um exílio neste ano. Al-Muzayri’a, a nossa vila de origem, foi esvaziada da sua vida e até da sua existência no mapa. À chegada ao novo destino de exílio, Ramallah, a minha avó deu à luz o seu nono filho, o primeiro e último filho do exílio: o meu pai. Um segundo exílio fora da Palestina foi o destino da família em 1967, quando se instalou na Jordânia. Depois dos Acordos de Oslo em 1993, alguns palestinianos foram autorizados a “voltar” à Cisjordânia com bilhetes de identidade palestinianos. O meu pai poderia voltar à cidade natal dele, mas nunca à sua vila de origem, ocupada em 1948. Apesar de ser ferozmente crítico dos Acordos de Oslo, o seu desejo de voltar às “casas do coração” – como lhes chama no seu livro – obrigou-o a aceitar um regresso condicional. As autoridades israelitas ficaram a controlar quase todos os aspetos, incluindo o regresso da minha família. Os bilhetes de identidade verdes são emitidos pelas autoridades palestinianas, mas sujeitos à aprovação israelita. Tanto os meus pais como eu fomos autorizados a ter o bilhete de identidade, mas não o meu irmão, e assim o regresso da família não foi completo, e limitado a visitas ocasionais, das quais o meu irmão, que nunca lhe foi permitido visitar à Palestina, foi sempre excluído. Hoje ele tem uma filha que traz no seu nome a esperança de regresso ‘Ayda, que significa a mulher que regressa.
Qual é a sua relação com essas casas do coração? Há como um silêncio ou perturbação abissal coincidente com a de muitas pessoas migrantes e seus descendentes, tanto aqui na Europa como em Palestina e tantos lugares do mundo…
Neste seu livro Casa do Coração, o meu pai diz: “Ramallah tinha os seus próprios trovões, os seus próprios relâmpagos e a sua própria chuva.” Essa chuva, que fica na fronteira entre os trovões e o silêncio, talvez seja o que me liga à minha casa de coração, a Palestina. É uma chuva como nenhuma chuva, que agora escrevo como sendo de esperança no meu livro Chuva de Jasmim (Caminho, 2025). Uma chuva de regresso, talvez. Dito isso, as casas do coração também são feitas de exílio. Como diz o Mahmoud Darwish: “Agora, no exílio – sim, em casa”. O exílio também é a nossa identidade. Todas as pessoas palestinianas, onde quer que estejam, fora da Palestina ou “dentro de casa”, vivem num estado de exílio, seja ele literal ou metafórico. Ser exilada é estar sempre fora do lugar, como afirma Edward Said. Fora de um país ou fora de outro, é na fronteira que uma pessoa exilada mora. A fronteira, o lugar que detesto, mas onde, paradoxalmente, me sinto verdadeiramente “em casa”. A minha identidade também de fronteira. Um lugar desconfortável e inseguro, mas que oferece espaço para a criação e a resistência. Por isso digo no meu poema:
Na linha que nos separa eu habito.
Nem a pátria, nem o exílio é aqui.
Nem isso, nem aquilo: sou eu.
Sou a própria fronteira.
Um lugar que, se calhar, abre espaços para converter a(s) ferida(s) em motor criativo, em ação interior e exterior para conhecer e experimentar o mundo mais conscientemente. É essa também uma oportunidade para o trabalho intenso com todas as identidades que nos atravessam (o(s) feminismo(s), entre elas)? Qual a sua visão?
É o lugar, como quem diz Palestina, que dá espaço para que o feminismo em mim aconteça. Como palestiniana de uma família que sofreu o exílio duas vezes, durante a Nakba e a Naksa, escrevi a minha dissertação de mestrado, Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências (2010), com o objetivo de reaprender a história das mulheres palestinianas — que também é minha. Abordei as memórias, os corpos e as narrativas das mulheres palestinianas na Cisjordânia, em sua maioria de uma geração mais velha. Ou seja, um grupo de mulheres do qual eu e outras palestinianas mais jovens do exílio não fazemos parte, especialmente por muitas vezes, não sermos consideradas “completamente palestinianas”, por não vivermos no “lugar”.
Mas uma pergunta nunca deixou de bater à minha porta: será que não sou também uma mulher palestiniana, mesmo estando no exílio? Será que participo em manter viva a ideia de Palestina? Será que, no exílio, produzo com outras investigadoras, artistas, escritoras, poetas, cantoras, realizadoras, bailarinas e demais palestinianas uma narrativa palestiniana dos nossos corpos? Ou até mesmo um feminismo palestiniano?
Foi por isso que escrevi a minha tese, posteriormente publicada no livro Corpos na trouxa: Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio (Almedina, 2017), para analisar a possibilidade de um ativismo político feminista através da narrativa do corpo, no trabalho de artistas palestinianas contemporâneas do exílio. Pergunto até que ponto a criação artística dessas mulheres, que parte dos seus corpos, não é, senão, a voz de um movimento de resistência feminista palestiniano.
“As casas do coração também são feitas de exílio.”
Portanto, a criação e o diálogo com as próprias e diversas identidades são um mesmo ponto de partida para você, tanto individual como coletivamente?
Sim, para mim, a criação poética e o diálogo com diferentes identidades são, de facto, um ponto de partida comum. O meu livro de poesia Chuva de Jasmim começa com um poema intitulado Lado a Lado, que propositadamente não aparece no índice nem pertence a nenhum capítulo. Essa escolha foi intencional: quis deixar claro, desde a primeira página, que é precisamente esse diálogo com outras identidades que faz a poesia acontecer.
A minha escrita é profundamente coletiva, é um trabalho de escuta. Talvez por isso, no próprio poema Chuva de Jasmim, que dá nome ao livro, incluo várias frases entre aspas. São fragmentos inspirados em publicações que li nas redes sociais do povo palestiniano após o 7 de outubro. Fiz questão de manter os nomes das pessoas citadas, sempre que sabia quem me inspirou. O próprio título do livro surgiu a partir de uma mulher de Gaza, que escreveu que esperava que, um dia, chovesse jasmim em vez de rockets sobre a sua cabeça.
Há também uma forte ligação da sua escrita e da sua atividade com o feminismo e a sua vinculação com a Palestina. Fale-nos da sua experiência…
A minha escrita é como uma trouxa que embrulha a minha história da vida e o meu sonho palestiniano feminista. Sempre que puder, desato a trouxa para contar e mostrar o meu sonho: regressar a uma Palestina livre, livre de todas as opressões. Os meus livros começaram a ser escritos em 1948, muito antes de eu nascer. O ano da Nakba é o ano zero no contexto palestiniano, é o ponto de partida para o exílio ou para a vida sob a ocupação. Enquanto mulher palestiniana, a minha escrita sempre me dá a conhecer a mim mesma e à história do exílio da minha família da Palestina em 1948. Com a escrita, esse meu corpo se tornou palestiniano, tal como a liberdade. Os meus livros ainda não existem inteiros, estarão sempre em processo no caminho do regresso, um dia, a uma Palestina livre.
A arte consegue, de certa forma, trazer a Palestina até ao exílio. As pessoas que estão proibidas de voltar à Palestina chegam lá através de uma experiência que acontece no corpo.
Como assume você a experiência na Europa (mais em concreto, em Portugal) desde a sua identidade originária palestiniana?
Durante a escrita Corpos na trouxa: Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio não conseguia parar de pensar que a minha pesquisa não estaria completa sem um regresso – mesmo temporário – a Palestina. Voltei à Palestina, um regresso que me fez entender que, afinal, lá tinha estado sempre, através da pesquisa e da escrita que tinha feito aqui na Europa. A minha presença na Palestina foi e será sempre uma continuação da minha presença através do meu trabalho artístico e académico aqui. É aqui que estou a construir uma ligação com a Palestina todos os dias ao narrar a nossa história. A arte consegue, de certa forma, trazer a Palestina até ao exílio. As pessoas que estão proibidas de voltar à Palestina chegam lá através de uma experiência que acontece no corpo; através de um toque simbólico nas paredes das casas exiladas, a cheirar as ondas do mar palestiniano, a saborear as laranjas, a sentir os estômagos agoniados de raiva e a ter perante os olhos as brutalidades da ocupação; lá, daquele lado, mas também do seu próprio exílio, cá, deste lado. Estabelece também uma ligação com o público europeu que a ouve, lê ou vê. As diversas artes falam uma linguagem universal, são uma arma política para divulgar a causa palestiniana. No meu livro Chuva de Jasmim escrevi poesia palestiniana em língua portuguesa, foi precisamente assim que reclamei estas duas entidades como sendo minhas. Isto também é uma forma de liberdade.















