A verdade é tão instável como a mente que a pensa I Ana Paula Jardim
Sempre tive uma fixação enorme por espelhos e por subidas e descidas. Íngremes, de preferência. Quer sejam estradas, montes ou escadas de qualquer tipo. Espelhos porque, não sendo cega e vendo, contrariamente ao Minotauro, nunca me vejo refletida. É como se a imagem fosse outra coisa diferente de mim. Não sei bem se aquela que olha para mim no fundo desse vórtice corresponde a algo que me pertença. Tive tantas versões ao longo do caminho que fico confundida com a estranha que espreita do outro lado do espelho. Às vezes tem uns cabelos ondulados, longos, um corpo esguio, quase direito e umas pernas fininhas escondidas debaixo de um vestido preto e largo. Um olhar ausente. Outras vezes aparece uma mulher, vestida de branco e cabelo curto e tem uma luz terrível que irradia na pele. Nos últimos tempos uma boneca, tão alinhada que irrita e com umas fitas coloridas penduradas. Quase infantis. A atração do espelho sobre os meus olhos é como alguém que se procura numa superfície estilhaçada. Com infinitas imagens em cada fragmento e nenhuma é verdadeira. E agora que o tempo já se esgota apodera-se de mim um terror imenso já que, tendo olhado para os espelhos a minha vida inteira, temo que nunca consiga encontrar-me. Que tenha ficado perdida num dos reflexos, aprisionada para sempre nessa ficção que os vidros sempre refletem. Como um labirinto. Não tenho a certeza se o que disse é suficiente para explicar o que quer que seja que tento dizer. Nem sei se sou boa nas palavras. Porque sempre tive esta sensação de um vocabulário inteiro que circula como um caos dentro da minha cabeça, mas que, a maior parte das vezes não chega a ser frase. Nem texto. É como uma enorme barulheira, de sons que nunca se articulam. Porque não encontram a frequência certa. Ficam por cá, como um caudal, um oceano em que me afogo. É como algo que é sem nunca chegar a ser. Uma espécie de violência contida. No caso das subidas e descidas porque nunca sei em que ponto me encontro. Para além da sensação física. Na verdade, não era nada disto que queria expressar. Toda esta conversa vem a propósito do que observei, hoje, numas escadas rolantes. É um lugar incrível para observar pessoas. O movimento simétrico, a diferença da perspetiva. Uns a subir outros a descer. Como um teatro com rodas. Uns aos pares. Outros solitários e uns diálogos banais e tão humanos. Alguns beijam-se outros discutem. E disfarçam como podem. A vida é pouco mais que este subir e descer numas escadas rolantes em que olhares se cruzam por instantes e se ouvem meia dúzia de palavras por engano.
A Verdade? Eis uma palavra demasiado usada e banalizada no vocabulário humano. A verdade é tão instável como a mente que a pensa. Verdade e mentira são apenas produto do discurso e das palavras. E o que melhor diz a verdade é, também, o que melhor mente. E há quem minta a si mesmo a vida inteira. Por isso, não me venham com discursos moralistas sobre dizer a verdade ou dizer a mentira. Quantos de vós dizem a verdade? Ninguém. Vós, ilusionistas, contadores de ilusões belas e terríveis. Que nos fazem acreditar na mentira que somos e na mentira que são. E é tudo o que têm para oferecer. Uma magnífica, viciante e belíssima mentira. Uma mentira que contam com o vosso corpo, que contam com os vossos olhos, que contam com a vossa voz. Almas sibilinas que nos convidam a entrar num labirinto de imagens falsas. E o que oferecem é apenas isso. E se quisermos embarcar no vosso labirinto é sabendo que será apenas isso: viver uma atraente e magnífica mentira. No fim nada restará. Só uma sombra e um corpo despedaçado. Essa é a verdade. A que não revelam. O que são as nossas pequenas mentiras comparadas com isso? Enganar o tempo, mascarar o rosto, inventar o não lugar. Se não existisse tanto preconceito e estigmas no mundo seria mais fácil dizer a verdade. Assim como é torna-se quase impossível. A mentira é fundamental para que a vida seja suportável. Essa mentira é a arte e a literatura. E que não se engane a nossa razão ao pensar que a liberdade é direito ou valor de todos. Que para uma mulher essa é uma palavra cheia de equívocos. Basta ousar, ousar viver a liberdade, ser dona de si mesma e da sua vontade, ousar ser humana para perceber o quão frágil é. Como o salário da liberdade é, muitas vezes, a morte. Mas antes morta e livre do que viva e escrava. Em verdade, em verdade vos digo que não responderei a um único interrogatório que me façam. Nenhuma justificação darei. O crepúsculo da vida, o tempo que já se esgotou, ensina a ser livre, despindo todas as peles. E guardem a vossa verdade, guardem-na que, perante isto, não serve para nada.
Ana Paula Jardim nasceu em Coimbra. Licenciou-se em Filosofia e desempenhou funções no âmbito da promoção da leitura e da gestão de eventos na Divisão de Bibliotecas da Câmara Municipal de Oeiras. Integrou, desde finais de 2016 até Maio de 2023, a equipa do Templo da Poesia, do Parque dos Poetas, na área de programação e mediação cultural. No âmbito das Comemorações dos vinte anos do Parque dos Poetas (1ª fase), foi a responsável pela organização e seleção de poemas da Antologia 20 anos 20 autores, com coordenação editorial de Jorge Reis Sá e integrada na coleção Livros de Oeiras. Venceu o Prémio Glória de Sant’Anna em 2021 com o seu primeiro livro de poesia, Roupão Azul, com a chancela da Guerra e Paz Editores. Publicou, em maio de 2022, na mesma editora, o seu segundo livro de poesia intitulado Enfermaria, que veio a integrar a lista dos oito finalistas da 11ª edição do Prémio Glória de Sant’Anna 2024. Rua do Arsenal, publicado pela Guerra e Paz Editores, em Maio do presente ano, é o seu mais recente livro de poesia. Tem participado em diversas Revistas Literárias. Desde junho de 2023 faz parte da equipa da Divisão de Cultura e Artes, do Município de Oeiras.
Créditos da foto da autora: Josefina Melo














