Numa língua estranha de quem ainda não aprendeu as palavras I Ana Paula Jardim
Pensam que não sei como seria? Que julgam vocês que acontece a um corpo numa idade em que tudo começa a ser tardio? Pensam que não sei como seria? Porque há em mim uma criança com pouco mais de três anos. E há dias em que a deixo brincar dentro de mim. Virar tudo do avesso. Ficar desarrumada como um quarto de brinquedos. E deixo-a falar todo o dia ao meu ouvido. Numa língua estranha de quem ainda não aprendeu as palavras. Conta-me histórias que não entendo. Faz travessuras. E rimos muito juntas. E os nossos olhos são como dois berlindes brilhantes a girar como uma caixa de música. E faz-me acreditar em coisas impossíveis. Mas quando a noite vem deito-a a dormir dentro de mim e fico sozinha a chorar num canto. Porque da mesma forma que há a criança, há a mulher que sabe o que não precisam de lhe dizer. Pensam que não sei como seria? Se calhar, no início, apenas a curiosidade, a novidade. Que mesmo que já se tenha experimentado tudo, existe sempre alguma coisa que ainda não se mastigou. E assim como assim, come-se. E depois, um belo dia, a vontade esfuma-se. Porque isso da vontade tem que se lhe diga e pode ser só o lado errado da cama onde se dorme. Implica-se com um pelo no sinal ou uma verruga no pé e vitória, vitória acabou-se a história.
Procurem essa rapariga, procurem-na por favor. Antes que seja tarde. Desapareceu sem deixar morada. Digam-me qualquer coisa se a avistarem na rua. É franzina, um pouco desengonçada, pequenina como uma criança, imatura e irrefletida. Mas tem olhos gigantes, de visão periférica, espantados. Se virem seres estranhos poisados no seu cabelo é ela. E pégasos pregados nas costas. É um pouco destravada, mas nela tudo é verdadeiro e espontâneo. Anda sempre com uma calças finas, chegadas as pernas, fininhas como uma ave numa várzea. Traz o coração nas mãos a pulsar vivo e oferece-o com a inocência de quem desconhece a alma humana. Procurem essa rapariga que já não consigo ouvir e ela tinha uma mente polifónica. Como uma grande orquestra a tocar num palco. Tudo a saltar sem ordem ou figura. Sei que desapareceu um dia destes quando, à força, tentaram que crescesse e mostram-lhe a pobre realidade. Pisaram os seus brinquedos e deixaram-nos em estilhaços. Ficou a chorar, perdida, no meio da cidade onde os homens se escondem como animais prontos a infetar quem ouse ser diferente. Para tornar tudo igual. É meiga e fala muito. Não tem malícia alguma. Só aquele espanto irrefletido nos olhos por acreditar que a infância é um lugar que nunca se perde. Procurem-na, por favor, devolvam-na como era. Intacta. Devolvam a menina que tudo se cala e eu não quero ser mulher. Há um prémio generoso para quem a resgatar. Não estraguem e deixem-na regressar a casa. Sem ela eu morro e deixo de escutar a melodia.
Ana Paula Jardim nasceu em Coimbra. Licenciou-se em Filosofia e desempenhou funções no âmbito da promoção da leitura e da gestão de eventos na Divisão de Bibliotecas da Câmara Municipal de Oeiras. Integrou, desde finais de 2016 até Maio de 2023, a equipa do Templo da Poesia, do Parque dos Poetas, na área de programação e mediação cultural. No âmbito das Comemorações dos vinte anos do Parque dos Poetas (1ª fase), foi a responsável pela organização e seleção de poemas da Antologia 20 anos 20 autores, com coordenação editorial de Jorge Reis Sá e integrada na coleção Livros de Oeiras. Venceu o Prémio Glória de Sant’Anna em 2021 com o seu primeiro livro de poesia, Roupão Azul, com a chancela da Guerra e Paz Editores. Publicou, em maio de 2022, na mesma editora, o seu segundo livro de poesia intitulado Enfermaria, que veio a integrar a lista dos oito finalistas da 11ª edição do Prémio Glória de Sant’Anna 2024. Rua do Arsenal, publicado pela Guerra e Paz Editores, em Maio do presente ano, é o seu mais recente livro de poesia. Tem participado em diversas Revistas Literárias. Desde junho de 2023 faz parte da equipa da Divisão de Cultura e Artes, do Município de Oeiras.















