Do rapé uma voz I Luís Serguilha
escutar o eco da cabeça cheia de órgãos de voos putrescentes: uma voz é mais do que o ar entre peçonhas das palavras a malhar carniças com tempos bagunçados pelo inabalável e ao redor de odores fossilíferos: mãos-vitiligadas se tornam criminosas entre excriptas sedimentares com gigantescos espectros anatomistas a lançar pus contra falhas precoces dos mármores: mãos golpeiam brilhos iridescentes das moscas e roubam tremendamente com toda a ousadia, desbravam, desmembram e tumultuam até à cegueira gravada nos ápices dos arcabouços dos deuses metidos em catálogos junto ao espigão parasitário do rapé e do farelo venéfico dos mortos: há socos de palhetas e de lamelas contra uma boca a deglutir sombras de uma necrópole: assombroso e respiratório retorno aos nervos febricitantes dos incógnitos: dizem: furos dos pasmos nas marchas dos colos fendidos por cuspiduras das gralhas à deriva sobre o sebo dos canais onde algumas folhas de ouro urdem uma víscera dos sufrágios tumulares: uma cova craniana não perde seus cortes, aspira o ritmo do vazio, remove-se, replanta-se e absorve o alfanje, a cimitarra e o terçado que derivam das entranhas dos desabitados: restos de uma necrópole cravados nas veias do magarefe e do tratante a incidir o crime nos frémitos da foice que o esquarteja e lhe dá vida através da velocidade enigmática de uma muda: uma voz no assoalho membranar das aurículas dos desaparecidos e nas válvulas fronteiriças dos abandonados sempre com ceifadeiras e gadanhas na língua extinta, rebrilhando: uma mão-vitiligada a saquear visões, cócleas e paladares e se faz seio paranasal, aquecendo-se e humectando-se pelas cavidades orbitais: há um crescimento cerebral e maxilas ígneas vindas do chão carregado de parietais, esfenoides, vômeres e zigomáticos com suturas a erguer fogos contra todas as trajectórias das medulas espinhais: dizem: descoser orgias com outras orgias a guinchar nos burgos cedidos aos letargos das promessas: uma voz a dissecar-se no esqueleto facial plena de atmosferas mandibulares onde destroços turvam uma alfombra sobre o último repasto de uma nuca: despontam moleiras violáceas dos mortos a remastigarem abóbadas ósseas contra troncos encefálicos: aqui-agora: levantaduras de ouvidos internos assimilam ressonâncias de canais carotídeos com cheiros de ferro: uma voz certeira pela nódoa de uma biblioteca carregada de estopins e de dobradiças de uma enfermidade arcana onde olhares em migração fisgam migalhas de nácar de uma besta inóxia sobre acervos diferidos contra sinapses ao deus-dará: parcelas de fôlegos absorvem lápis em elipse arrepanhada por um triz e próxima ao utensílio das parafrenias: por vezes, uma voz aos trancos e barrancos embate nas tendas do camelô e se torna pega-mão à volta de seios estridentes de oh-glória: preces enroladas em guihotinas abocanham pulmões, intricam cabeças e encorpam ingestões dos desesperos ainda com ganchos e pinças a medrar por esquivas ossadas: há uma secreção ininterrupta à roda de corcovas, de siriris e de aleluias: anátemas viraram mostradores e gatilhos cardíacos na rapidez de um equívoco: joelhos lacerados por salalés espirituais e clavículas viciadas pelo levantamento das mãos: esgotos crus passam ao lado como caldos pungentes a colidir nos pés rubentes e com lodo balaustrado por marcas cruas do chumbo: cantar no tranco e abalar têmperas na epiderme do silêncio, cantar no estéril contíguo e chocar no frisson metalizado, cantar desnudo e impactar a prumo sobre a sombra desértica de uma voz, cantar na gravidade do eco a acaçapar subtilezas com gretas leves da putrescência, cantar um raque de ar sem travar o respiro mais lapidado, cantar o altivez no mais alto da queda a elevar-se pelo nervo paciente da maxila, cantar a altanaria no sibilo de um ornitóptero com uma bigorna atmosférica sobre um enxame, uma praga, uma colmeia arquitectada pelos plasmas de juncos ossudos: há um oberó de palha com grãos de ímpetos flutuantes sobre falsas sacudidelas de uma cachorra do mangue em catalepsia: hálitos de ferrugem vindo dos montículos cheios de escrivaninhas, de minúsculos cofres, de junções epicórmicas e de galhadas de uma varanda com esquinas serpentinas: coprolalia afã a rebentar pelas facas viscosas já em recaída: fainas emparedadas por saltações de lapsos onde um varapau sibilino e uma pata do lampadário entram pela compulsão da impiedade: dizem: sialorreia e laringes disléxicas misturadas por uma curatela de agnosias: um soco ecolálico convulsiona-se na armação de lama e uma ostra obsessiva penetra a paranoia de uma voz, levando-a para uma catarse, outras vezes, uma voz escava fluoretos e salivas artificias, penteia nódulos e pólipos, transmutando-se em navalha e escova pela alucinose: dizem: um bicho no bolso serve de bússola para o nistagmo: resta o bruxismo para assimilar uma geometria gótica da voz rendada por síncopes e cicatrizes antigas dos delírios: a euforia apenas alicerça a lenha côncava da boca sitofóbica no estilo de uma concha vampírica: uma voz pela chelpa abrasiva dos acervos ataca feridas, inflama-se, torra-se com o anseio da acronologia e se torna meandro, minúcia, vestígio e desafronta plena de saques, assaltos, levantes, entrincheiramentos em forma de sabre: dizem: rins torcidos a rolar numa bolsa de dentes toscos, por baixo, um molambo de clarões embate na aradeira dos aclives e uma narina adolesce pela terra e reluz como um agrião de banha em torno de uma palma-de-santa-rita onde uma voz esfolada se entrega ao suplício e à expiação, enrugando-se hialinamente…
Fragmento da Obra Poética
Luís Serguilha nasceu em Portugal e nos últimos anos percorreu algumas geografias da América do Sul. É poeta, ensaísta e curador das Raias Poéticas: afluentes de arte e pensamento ibero afro americanos. Publicou 15 livros de poesia e ensaio: Kalahari, Plantar rosas na barbárie, Falar é morder uma epidemia, os esgrimistas de Á-peiron, Hamartía e ACTRIZ ACTRIZ – o Palco do Esquecimento e do Vazio são os títulos de alguns dos seus livros. Em 2022 publicou o 1 volume da sua obra poética no Brasil. Em 2024 e 2025, publicou os volumes 1 e 2 da obra poética em Portugal pelas Edições Húmus. Radicado no Recife, criou a estética batizada como Laharsismo, estudada em Universidades. Recebeu os prêmios Hermilo Borba Filho e Júlio Brandão ambos da área de Literatura. Tem sido convidado por institudos e várias universidades ibero-americanas para conversar e ministrar conferências sobre os seus ensaios-criativos, envolvidos por atractores estranhos, que atravessam corpo-arte-pensamento-poesia. Realizou aulas-conversações( cursos) no de SESC Recife, de Santos, de Sorocaba e no Centro Formação e de Pensamento em São Paulo.














