Lorca e Dalí: afinidades e rupturas I Ronaldo Costa Fernandes
A relação entre Salvador Dalí e Federico García Lorca foi de uma amizade transbordante, alucinada – e, por incrível que pareça, mais solicitante da parte de Lorca – e acabou por influenciar o poeta granadino. Há um momento crucial na trajetória de Lorca ao publicar o seu Cancionero gitano. Era o momento mais alto de uma poesia enraizada no solo de Andaluzia. Ao mesmo tempo em que recebia as melhores críticas e tinha se tornado um poeta nacional, Lorca recebia uma admoestação devastadora de Dalí que lhe escrevia desde Figueres, sua cidade natal na Catalunha.
Na carta, Dalí acusava Lorca de ser passadista, de ter feito um livro “costumbrista”, uma poesia provinciana, localista, logo pouco universal. Este “gitanismo” de Lorca ia contra toda a estética do pintor catalão. Dalí gostara muito das odes que escrevera o poeta andaluz porque uma era a ele dedicada e estavam despojadas de elementos pitorescos e anedóticos e pejadas de surrealismo. “Ode a Salvador Dalí” e “Ode ao Santíssimo Sacramento” são dois poemas longos, distante da temática cigana, e construída com uma estética que não prima pelo ritmo das redondilhas e refrões típicos do “cante jondo” da sua Granada.
Antes, Salvador Dalí havia escrito um longo elogio, estranho e deslocado elogio, a São Sebastião. Os dois tinham verdadeiro fascínio pela figura jovem e despida, musculosa, de San Sebastián. A literatura de Dalí era tortuosa, com ortografia própria – e imagens desbordantes. Entre outras tantas imagens aparece, por exemplo, frases do tipo: “Cada minuto llegaba el olor del mar y anatómico como las piezas de un cangrejo”. Já era uma forma de literatura que impressionou García Lorca tanto quanto os quadros do pintor. Dalí passou a ser para o poeta um teórico não apenas da arte em geral, mas da teoria da literatura. Vale lembrar que Dalí era mais jovem que o poeta granadino e estava naquele momento se afastando de Lorca (para a tristeza e ciúmes de Federico). Outro que condenou – e chegou até mesmo a ridicularizar – foi Buñuel que por esse tempo se aproximava mais de Dalí. Ambos se reuniram, nesta época, para escrever o roteiro de Le chien andalou. A carta que Buñuel escreveu condenando Lorca com os mesmos argumentos de Dalí parece, contudo, não chegou a ser lida por Federico.
Ronaldo Costa Fernandes (São Luís, 1952) é poeta, romancista e ensaísta. Publicou mais de vinte livros em diferentes géneros, entre eles os volumes de poesia Estrangeiro (1997), A máquina das mãos (2009), Memória dos porcos (2012), Matadouro de vozes (2018) e A invenção do passado (2022). A sua obra recebeu distinções como o Prémio Casa de las Américas, o Prémio da Associação Paulista dos Críticos de Arte e o Prémio ABL de Poesia. Ocupa a cadeira 31 da Academia Maranhense de Letras e reside atualmente em Barcelona.















