5 poemas do livro “TARKOVSKY” de Alberto Pereira

II (O Espelho)
Sou de uma espécie
que tem código postal selvagem,
garganta sem número fiscal.
Nunca fui infiel aos vulcões.
Tenho na laringe
uma projecção de lava genuína
e é nos alvéolos do bosque
que arquitecto a embolia da faca.
Na cidade,
os homens,
lenda carbonizada
onde se fabrica a vénia.
Vão florindo os patrões,
inquilinos do Mein Kampf.
O amor industrializado.
As suas mecânicas glaciares.
Os ambulantes úteros
escrevendo múltiplos cometas.
O sexo,
condomínio moderno
que respira
os mesmos rombos
da Idade Média.
Estão longe os dias
que flutuavam no peito
as tonalidades de Malevich.
A infância,
cume no verde epitélio de tudo.
As artérias
escoltando dicionários inabitáveis.
O decote do pólen.
A maternal equação
que caducava fantasmas.
Mais tarde,
a montanha em burnout.
Persigo as paisagens sonoras
de Arseny Tarkovsky:
A alma já está farta
De ficar confinada dentro
De uma caixa, com orelhas e olhos
Do tamanho de moedas,
Feita de pele – só cicatrizes –
Cobrindo um esqueleto.
Pela córnea ela voa
Para a cúpula do céu,
Sobre um raio gélido,
Até uma rodopiante revoada de pássaros,
E ouve pelas grades
Da sua prisão viva
O crepitar de florestas e milharais,
O troar dos sete mares.
Uma alma sem corpo é pecaminosa
Como um corpo sem camisa:
Nenhuma intenção, nem um verso.
Somos a estirpe
que se alumia de gaiolas.
*
I (Nostalgia)
Há muito tempo
que afoguei o e-mail de Deus.
O meu corpo,
sete longas-metragens.
Tenho agora
um realizador nos pulmões
e o oxigénio
com a democracia na cave.
Sou de uma nação
onde o livre-arbítrio
está cercado de melanomas.
Offshores em todos os tentáculos.
Os tribunais,
bouquet de recursos.
E a fraude,
réptil que prescreveu.
Sou nómada,
clima semântico
que não admite cifoses.
Atravesso os catálogos regressivos
com a laringe na insónia.
A garganta,
sniper do totalitarismo.
O caudal austero das ditaduras
quer uma farmacologia
de mentes inócuas
que fiquem sitiadas.
As células,
cancerígena matéria
a leiloar a avalanche.
O exílio é um roedor
e foi em Tonino Guerra
que li a melhor triagem do aluimento.
Quando visitaram a casa, no velho quarteirão da cidade,
encontraram Shirikawa já morto de fome, no seu quarto de dormir.
O apartamento tinha ainda dois outros aposentos. Ambos sem mobília (…)
Na terceira sala, o pavimento apresentava-se coberto
por um manto de arroz muito branco.
Shirikawa nascera em Chichibu, uma aldeia no Norte do Japão (…)
Quando o levaram com a liteira, alguém experimentou deitar-se na cama (…)
Com a cabeça pousada sobre o travesseiro, para além do corredor,
viu o quarto com o pavimento de arroz. Saboreou a doce contemplação
da neve pousada e, até a cor de cinza da parede do fundo
parecia inverter-se para formar um céu frio e invernal (…)
Shirikawa, desde há alguns anos, sofria com saudades da neve.
Aquele era um lugar onde nunca nevava.
Mesmo proscrito,
recusa que a Nostalgia
desmantele qualquer desfiladeiro
para obteres sândalo
com a amplitude
da Nona Sinfonia de Beethoven.
Quem tutela as metástases do tempo?
Não há catedral
que contorne infinitamente a morfina.
*
III (Nostalgia)
O amor
no seu passo longínquo
move-se nas veias
como uma raposa.
A dopamina
constrói perímetros insanos
e transporta
o furor meteorológico
de um comboio.
O lapso,
pensar que as garras
estavam subnutridas.
O sublime respira
em brônquios enevoados.
E a claridade
precisa de cheirar
uma biografia escura.
Tudo o que aspira à elevação
tem de tremer profundamente.
Os olhos já foram
pauta de Prokofiev.
Eram inúmeros os instrumentos
a caminhar no indecifrável.
Partiam da garganta hospícios
que floriam em todas as coisas.
A mulher procurava
um animal em extinção.
Alguém com ritmos frondosos
que não licitasse gaiolas no peito.
O homem punha o ego em contraluz
para se emancipar das futilidades.
De súbito,
a mulher ampliada de astros.
O homem,
cometa escoltado
por uma magnólia convicta.
A língua
na galeria auricular
recitando uma avalanche azul.
Os ombros,
átrio de um templo.
As pupilas
fazendo parapente
entre montanhas.
E os gestos
sem orações daninhas
anunciavam
a derradeira tournée à intimidade.
Depois o promontório.
Logo abaixo,
Museu Pushkin.
O homem
percorria vagarosamente
os corredores
até que a mulher
o deixasse observar
um quadro húmido.
Em seguida,
o arco-íris sem franquia.
A mente,
hábil camaleão.
Respira o junco
em tudo o que foi divino.
O homem não soube administrar
o fluxo do seu piano
mergulhado numa assoalhada distante.
Tem agora
a música interior decrépita
uivando por uma ligadura.
Se tivesse ouvido
a sentença de Blanca Varela,
sabia:
a eternidade é a obscura dobradiça que cede
ao mínimo estalido na noite da carne.
No fim,
o corpo depondo
pulsa num tribunal vazio.
Consegues citar uma obra de arte
que não tenha vento no interior?
*
V (Nostalgia)
O silêncio,
erógena corrente
de imagens precárias.
Disseram que Agosto
era ave a ilustrar
candelabros nos dias.
E o corpo,
enredo de harpas
na truculenta
luz das fábulas.
A garganta
que se pensava
definição de arte
não entende
a imobilidade dos lábios.
Galeria de constelações,
a língua,
onde em tempos,
além dos astros
e da Madonna del Parto,
os pianos
não tinham sido raptados.
Pronunciar Verdi,
Stravinsky,
Bach,
era lacre
na literacia dos poços.
Contigo vieram as montanhas
e a boca aprendeu
pólen sobre as aréolas.
As mãos a cheirarem
os sismos pelos flancos.
Nos olhos a chuva inaugural
ou o Volga,
nunca soubemos.
O amor,
insónia cravada
no perfume.
As flores no útero.
A límpida manhã interior.
Labaredas.
Algo de íngreme.
Espaço onde se podiam
citar magnólias
ou o semblante do gengibre.
De que magma são feitos os tendões dos lírios?
De súbito,
a beleza,
turístico fôlego
a caminho do terror.
A pele forrada
pela retórica das catedrais
que migraram.
Horas
vestidas de negro
como gôndolas
ao redor do ego.
A queda,
bailado urdido pelo vento
nas vértebras da clorofila.
No fim,
ser ainda
uma declamação botânica
no design da cinza.
Ter por pacemaker um bosque.
E se vier o aneurisma
que tenha pássaros.
*
VII (O Sacrifício)
Sê a paisagem
que a cada alento dos pulmões
está reconciliada
com a consciência da morte.
Não rezes
no momento em que o projéctil
ao evadir-se do domicílio
procura a trigonometria do miocárdio.
Um lugar tem sempre
a fruição de duas panorâmicas.
A Ponte de Mirabeau
serviu versos a Apollinaire,
as cordas vocais de Léo Ferré,
mas concebeu em Celan
o último planar do corpo
quando não suportava mais
a delinquência do escuro.
Somos estilhaços
de uma máscara que o tempo alveja.
O discernimento habita sempre
o tórax de um fósforo.
♦
Alberto Pereira nasceu em Lisboa. Licenciado em Enfermagem. Pós-graduado na área Forense. Membro do PEN Clube Português. Publicou doze livros. A sua obra encontra-se traduzida em onze idiomas. Foi distinguido com vários prémios dos quais se destacam: Prémio Literário Conto por Conto (2011); Prémio Literário Agostinho Gomes (2013); Prémio Literário Manuel António Pina (2013); Prémio Internacional Cesar Vallejo (2021); Prémio de Literatura Clarice Lispector (2022) e Prémio Ulysses (2023).
Estes poemas foram escritos ao abrigo da antiga ortografia.

5 poemas do livro “TARKOVSKY” de Alberto Pereira, galardoado com o Prémio Ulysses 2024 e Menção Honrosa no Prémio Literário Glória de Sant’Anna 2024