Há poemas que não envelhecem. É de François Villon (1431-1463), um dos maiores poetas de língua francesa, a Balada das damas de antanho. (Balade des dames du temps jadis). De vez em quando a releio. George Brassens, que foi um dos maiores trovadores modernos da França, era admirador do poeta, embora dele tenha musicado apenas esse poema. Na Paris do tempo de Villon sobrevivia-se aos trancos e barrancos. Era a Guerra dos Cem Anos (1337-1443), travada entre França e Inglaterra. A capital francesa findaria dominada pela miséria, antro de bandidos e miseráveis, além de constantemente invadida por lobos esfomeados. Villon, um marginal, se tornaria um notável poeta da França de seu tempo.
Na sua Balade, Villon utiliza como mote a pergunta: Onde estão as neves de antanho? Sob o tema do “ubi sunt” indaga por onde andariam os vários personagens, famosos ou fictícios. Pergunta por Buridan, filósofo tido como amante da rainha Margarida de Borgonha, lançado no rio Sena por conta de amores impossíveis e resgatado clandestinamente pelos amigos. E Flora, conhecida como a mais bela prostituta romana. Além de Abelardo, o filósofo e perceptor da jovem Heloísa, de quem se tornou amante secreto e de cujo romance nasceu um filho. Intelectual conhecido, por conta do episódio amoroso Abelardo foi castrado por ordem de um tio da amante. Quanto a Heloísa, passaria o resto dos anos enclausurada num mosteiro.
Consta que Villon comandava uma quadrilha de ladrões. Até que desapareceu de Paris e nunca mais se soube dele. Tinha apenas trinta anos, escapou da forca e deixou um precioso legado literário. Balade des dames du temps jadis recebeu inúmeras traduções em português. As leituras acabam por nos convencer o quanto é difícil fazer reviver um poema escrito por um gênio num francês de época. Além disso, contendo referências a personagens tão estranhas para o mundo de hoje. Nos textos traduzidos pode permanecer o sentido, mas boa parte da beleza da língua se esvai. Resta aquela sensação parecida com a desconfiança de que há um pouco de água na taça de um vinho nobre que nos é servido.
Em outro poema antológico, Balade des pendus (Balada dos enforcados), François Villon pede que os irmãos humanos que sobreviverem não tenham contra ele os corações empedernidos. Uma espécie de mea culpa que lega aos pósteros. De família pobre, ele perde o pai quando tem apenas um ano. Criado pela mãe, analfabeta, numa Paris destruída, aos sete anos é levado ao cônego Guillaume de Villon, pároco de uma igreja da rue Saint-Jacques, pleno coração do Quartier Latin. Todos os dias o padre, de quem o poeta mais tarde adotará o sobrenome, ensina-lhe o francês. Apaixonado pelas línguas, o jovem aprende o latim e o grego. Aos doze é matriculado na Faculté des Arts onde, durante seis anos, estuda filosofia, letras e gramática (conjunto de matérias na época denominado Trivium). Ao receber o diploma que o torna professor, pede a permissão para adotar o sobrenome do padre, seu protetor. Torna-se, então, François Villon. E assim ficará conhecido na história da literatura.
De posse do diploma apresenta-se ao reitor da Sorbonne na tentativa de matricular-se como aluno do curso de Teologia. Sem saber por qual motivo, sua admissão é recusada. Decide, então, abandonar os estudos e ingressa num mundo de marginais que sobreviviam naquela Paris durante a guerra dos Cem Anos. Sua vida passa a ser entrecortada por aventuras. Num claustro, é agredido por um monge, que o ataca e lhe fere o rosto. Ele revida sacando um pequeno punhal e ferindo o agressor. O monge morreria logo depois, mas antes pede que Villon seja agraciado por ter agido em legítima defesa. Em outra ocasião, ao jantar com comparsas, informa que o rei, como todos os anos, enviaria ao Collège de Navarre uma bolsa contendo moedas de ouro para a manutenção daquela instituição destinada à formação da nobreza francesa. Villon se propõe a organizar um assalto e a dividir o resultado do roubo. Realizado o projeto, perseguido, refugia-se no castelo do duque Charles d’Orléans, poeta como ele e primo do rei.
Sempre às voltas com a Lei, Villon esconde-se nos arredores de Paris. É o momento em que escreve O testamento, talvez seu mais conhecido poema. Ao entrar na cidade é de novo posto nas grades por roubo e obrigado a restituir os 120 escudos, enquanto os três comparsas são condenados à morte. Entre as inúmeras rixas, envolve-se numa briga com assistentes do Maître Ferrebourg, tabelião do Rei e é condenado ao enforcamento. Por sorte, uma decisão do Parlamento anula o julgamento. Contudo, seus antecedentes em nada o favorecem e o poeta é banido por dez anos da cidade de Paris. Três dias mais tarde, ele abandona sua cidade. Nunca mais dele se terá notícias. François Villon desaparece da cena com pouco mais de trinta anos. Pouco importa. O Poeta que lhe sobrevive nos lega uma das obras mais expressivas da Literatura.




