Vivemos um tempo saturado de imagens. Dizem-se demasiadas coisas, em demasiados lugares, com uma urgência que confunde velocidade com lucidez. A opinião tornou-se reflexo, o posicionamento uma obrigação, o gesto crítico um formato. Tudo exige resposta imediata, raramente exige reflexão.
É neste ruído que insistimos.
A Quiasmo não nasceu para acompanhar a actualidade, mas para a deslocar. Não nos interessa comentar o mundo no exacto instante em que ele acontece, mas interrogá-lo quando já perdeu o brilho da evidência. Preferimos o atraso consciente à pressa vazia. A leitura demorada ao diagnóstico instantâneo. A complexidade ao slogan.
Não acreditamos na neutralidade, mas desconfiamos profundamente da moral acelerada. Não acreditamos na pureza, mas recusamos o cinismo confortável. Não acreditamos em consensos fáceis, nem em antagonismos decorativos. A crítica, para nós, continua a ser um exercício de risco, intelectual, ético, estético.
A Quiasmo existe porque ainda acreditamos que a literatura pensa.
Que a poesia não serve para ilustrar ideias, mas para as perturbar.
Que a língua é um campo de tensão política, de memória e de resistência, antes de ser um instrumento de comunicação eficiente.
Publicar, hoje, é um gesto político. Não porque fale de política, mas porque escolhe como e a partir de onde fala. Escolher textos é escolher tempos. Escolher vozes é escolher fricções. Escolher formas é assumir uma posição no mundo.
Recusamos a lógica do conteúdo permanente, da produção incessante, da visibilidade como medida de valor. Não publicamos para alimentar fluxos, mas para criar interrupções. Não queremos ocupar espaço; queremos abrir espaço.
Um espaço que não obedece a mapas fixos, mas a afinidades. Onde Portugal, Galiza, Catalunha e Brasil se cruzam como eixos de um mesmo mapa afectivo e desterritorializado. Onde a tradução não é passagem neutra entre línguas, mas gesto de criação e deslocamento.
Ao longo deste ano, a Quiasmo continuou a fazer aquilo que sempre fez: ler devagar, editar com cuidado, aceitar a possibilidade do desvio. Não crescemos em volume. Crescemos em densidade. E isso, num tempo obcecado por métricas, parece-nos um gesto quase subversivo.
Não temos um programa fechado para o futuro. Temos uma orientação. Em 2026, queremos aprofundar, não acelerar. Cuidar mais da edição, pensar melhor os formatos, continuar a cruzar territórios, línguas e tradições críticas. Trabalhar o livro como extensão natural da revista, não como produto, mas como gesto editorial consequente. Manter a Quiasmo como um lugar onde a escrita ainda pode demorar-se, hesitar, voltar atrás.
Sabemos que este caminho não é o mais visível. Nunca foi. Mas é o único que nos interessa.
Num mundo que transforma tudo em performance, insistimos em criar ligações significativas.
Num tempo que exige respostas, insistimos nas perguntas.
Num presente que pede rapidez, insistimos na escuta.
A Quiasmo não promete conforto. Promete atenção.
Não promete consensos. Promete encontros.
Não promete futuro. Promete presença.
Continuaremos aqui.
A ler devagar.
A escrever contra o tempo.
A pensar como quem resiste.
Revista Quiasmo





